All the Lovers in the Night: Yukiko Sode e os “desafios muito interessantes para a adaptação cinematográfica”

(Fotos: Divulgação)

Naquela que marca a sua primeira presença no Festival de Cannes, a realizadora japonesa Yukiko Sode apresentou All the Lovers in the Night, adaptação do romance de Mieko Kawakami selecionada para a competição Un Certain Regard. Não foi a primeira vez que a cineasta adaptou um romance ao cinema. Em 2019, sob o título internacional Aristocrats (2021), ela apresentou no Festival de Tóquio e posteriormente em Roterdão uma adaptação do romance de Mariko Yamauchi, acompanhando duas mulheres de classes sociais radicalmente diferentes na Tóquio contemporânea.

Agora, a responsável por filmes como Mime-Mime (2008) e Good Stripes (2015) centra-se em particular em Fuyuko, interpretada por Yukino Kishii, uma revisora de textos solitária que vive emocionalmente desligada do mundo até conhecer Mitsutsuka, um professor de física interpretado pelo ator Tadanobu Asano. O encontro entre os dois transforma-se numa relação delicada e ambígua que leva Fuyuko a confrontar a sua solidão, os traumas do passado e a dificuldade em criar ligações humanas.

Tadanobu Asano, Yukino Kishii e Yukiko Sode

O produtor trouxe-me o livro e perguntou se gostaria de o adaptar. Já conhecia outros romances de Mieko Kawakami, mas ainda não tinha lido este. Quando terminei, percebi imediatamente que havia ali desafios muito interessantes para uma adaptação cinematográfica e aceitei”, explicou Sode ao C7nema, acompanhada por Yukino Kishii e Tadanobu Asano.

Para Sode, um dos grandes desafios da adaptação de All the Lovers in the Night foi precisamente transformar em cinema a interioridade silenciosa da protagonista. No romance de Mieko Kawakami, “tudo é descrito a partir do ponto de vista da Fuyuko” e a personagem verbaliza constantemente aquilo que sente. No cinema, porém, “não podíamos simplesmente transformar tudo em diálogo”.

Foi aí que ela encontrou na ideia de luz — central tanto no romance como nas conversas entre as personagens — uma solução cinematográfica. Segundo Sode, houve “um grande trabalho entre a equipa de realização e a equipa de iluminação” para perceber “como filmar a luz” e como captar visualmente uma transformação emocional. “A ideia não era apenas filmar Fuyuko de forma objetiva e obrigá-la a exprimir tudo, mas construir cada cena através desse trabalho coletivo, para que tudo fosse coerente.”

Para Sode, apesar de existirem mais cenas diurnas do que noturnas em All the Lovers in the Night, a noite permanece um elemento central do filme, até porque “o próprio título indica isso”. A realizadora explica que há momentos específicos — como depois da chuva ou nas cenas no café e no restaurante — em que a diminuição da luz parece revelar algo mais íntimo e verdadeiro nas personagens. E liga a ideia a uma reflexão mais ampla sobre a própria natureza da luz. Já Tadanobu Asano explica que, do ponto de vista físico, só conseguimos ver algo quando esse objeto é atingido pela luz. Mas, para Sode, essa ideia abre também uma questão filosófica: “Será que aquilo que é visível é a única coisa em que podemos acreditar?

Foi precisamente nessa tensão entre o visível e o invisível que a realizadora procurou construir a relação entre as duas personagens, usando o contraste entre dia e noite para encontrar diferentes formas de as filmar e revelar emocionalmente.

Quando questionada sobre o maior desafio que enfrentou na produção, Sode afirmou que foi evitar tornar o filme demasiado explicativo, fosse através das palavras, dos diálogos ou da própria estrutura das cenas. “Queria respeitar o lado poético e abstrato do romance, mas ao mesmo tempo transmitir isso sem explicar demasiado e mantendo a história coerente. Esse foi o maior desafio.

Embora toda a narrativa decorra em Tóquio, Yukiko Sode explica que nunca quis transformar All the Lovers in the Night num retrato direto da cidade contemporânea. Mais do que mostrar “a Tóquio de hoje”, interessava-lhe acompanhar a relação entre Fuyuko e Mitsutsuka através dos espaços que os unem e atravessam. “Embora seja Tóquio e exista realmente, eu queria que tivesse mais a sensação de uma cidade ficcional, sem sublinhar demasiado o realismo ou a realidade concreta de Tóquio”, afirmou.

Já sobre o estado da produção japonesa atual e as oportunidades para mulheres, Sode diz que “hoje vemos cada vez mais jovens realizadoras no Japão” e que, falando apenas da produção em geral, não sente necessariamente um obstáculo por ser mulher. Porém, quando a conversa chega aos filmes de grande orçamento, a realidade muda. “É um passo acima no processo, e nesse nível há, de facto, menos mulheres”, conclui.

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