Quando Chega o Outono: “Não tenho medo da velhice”, diz François Ozon

Ao longo de um mês e meio de exibição em França, de outubro até agora, Quando Chega o Outono” (Quand Vient L’Automne) conseguiu cerca de 670 mil espectadores, o que confirma, mais uma vez, a habilidade do seu realizador, o parisiense François Ozon, para encher salas com tramas adultas, avessas a fórmulas de Hollywood.

O 72º Festival de San Sebastián acolheu a produção na sua competição oficial e atribuiu-lhe o Prémio de Melhor Argumento (dividido com Philippe Piazzo) e o de Melhor Atuação Secundária, dado a Pierre Lottin. Outras duas maratonas cinéfilas, Málaga e Pingyao, exibiram este drama com tintas de mistério, que coroa uma estética particular e prolífica.

Pouca gente no Velho Mundo – e mesmo noutros continentes – é capaz de filmar tanto quanto Ozon, que todos os anos lança uma longa-metragem nova. As suas narrativas sempre são recebidas com entusiasmo, veja-se Mon Crime, que vendeu 1 milhão de bilhetes só em terras francesas.

Desde a sua estreia (em dose dupla), em 1988, com Photo de Familie e Le Doigts Dans Le Vetre, Ozon realizou 16 curtas e uma média-metragem de 52 minutos (Regarde La Mer), antes de lançar a sua primeira longa-metragem: Sitcom (1998). Dali em diante, começou uma sucessão de títulos que foi coroada com o Grande Prémio do Júri da Berlinale, em 2019, por Grâce à Dieu, um comentário de tom político sobre situações reais do Presente, a partir de delitos de padres. No geral, ele segue uma linha pautada por investigações convulsivas sobre a paixão (como Jeune et Jolie, Peter von Kante Dans la Maison, que lhe valeu a Concha de Ouro de Donostia, em 2012) ou caminha (elegantemente) por comédias agudas sobre desencaixes comportamentais, como Potiche (2010) ou 8 Femmes(2002).

Repleto de reviravoltas investigativas, Quando Chega o Outono é um Ozon crepuscular, com foco na finitude, de olhos voltados para a velhice. O que torna a sua nova longa-metragem um ímã de elogios é a maturidade da realização; a maestria com que domina a dramaturgia ao arriscar o suspense onde se esperava um drama geracional; e o desempenho tocante de Hélène Vincent. Ela interpreta Michelle, uma antiga prostituta que, radicada numa vila da Borgonha, sonha em tomar conta do neto, mas lida com a antipática atitude da filha, Valérie (Ludivine Sagnier), que vai parar ao hospital depois de se intoxicar num jantar regado a cogumelos preparados pela mãe. Quando um ex-presidiário, Vincent (papel de Pierre Lottin), passa a conviver com ela, a sua rotina complica-se.

Na entrevista a seguir, concedida num hotel em San Sebastián, Ozon, nascido em 1967, fala do que espera do futuro em relação ao avanço do tempo.  

As pessoas vão sair do seu filme com medo de comer cogumelos. Teve alguma experiência desagradável com fungos que inspirou a trama?

Tinha uma tia que fazia o perfil da senhora bondosa, acolhedora. Uma vez, ela fez um jantar e todos ficaram doentes com a comida. Questionámos: será que ela nos queria matar? Dali veio a génese do filme. É um estudo sobre a morte. Aliás, é o meu filme mais mortífero, pois é a minha história em que mais vemos mortes de personagens importantes. Quando a arte pensa sobre a experiência de morrer, ela está a celebrar o prazer da vida e as oportunidades de viver momentos. É importante dizer que gosto de cogumelos.

O que mais lhe atrai nesses fungos?

Gosto da ideia de um alimento que vem da terra, com uma aparência muito peculiar, e que pode carregar algo de tóxico em si, ao mesmo tempo que é saboroso.

O que Hélène Vincent trouxe de mais valioso para o filme?

Existe uma obsessão pela juventude e eu queria o contrário dela. Queria a beleza das rugas do seu rosto. Hélène Vincent é uma grande atriz, com muita força, que trabalhou muito com grandes artistas, como Patrice Chéreau. Ela chegou aos 80 anos com mais energia do que muita gente jovem que conheço. Fizemos “Grâce à Dieu” juntos e foi uma grande experiência.  

Ao falar do encanto dos media por jovens, evoca uma questão sobre a arte de envelhecer em si. De que forma a experiência de ficar velho o assusta?

Não tenho medo da velhice. Tenho senso de humor. Quando comecei a trabalhar com Ludivine Sagnier, há 20 anos, filmei-a de biquíni em “Swimming Pool” e mostrava a sua juventude. Hoje, escolho-a para o papel de mãe e funciona. O seu corpo mais maduro corresponde, a sua maturidade corresponde. A força, contudo, é a mesma. Percebo que a vida não é um drama contínuo. Há momentos de riso, há momentos de solidariedade, há ternura. Eu tento trazer isso para os meus filmes.     

Qual é o espaço de um filme como “Quand Vient L’Automne” no cinema francês atual?

É um filme de baixo orçamento, com custo em torno de 4 milhões de euros, filmado na Borgonha, que aposta em personagens facilmente gostáveis pela plateia, sobretudo por carregarem dois lados nos seus atos. Vincent, por exemplo, tenta fazer o bem, mas fá-lo erradamente. É uma história de família, um assunto que me interessa. Há uns 20 anos, uma produção como esta talvez não pudesse existir. Hoje, quando se procura pluralidade, uma figura como Michelle tem lugar. Como o meu filme anterior, Mon Crime, teve bons resultados nas bilheteiras, a situação fica mais fácil.   

Diante da rapidez com que filma, como funciona o processo de escrita dos seus argumentos? Existe um Método Ozon de criar dramaturgia?

Sonho com os filmes que crio. Penso muito neles quando vou dormir e o sono traz-me uma noção de tempo para os argumentos. Costumo ter um parceiro, um script doctor, que avalia o que escrevo. A conversa alimenta-me.

Pela produção contínua na Europa, como ficou a sua carreira além-mar?

O financiamento do governo, na França, é fundamental para os meus filmes. No caso de Quand Vient L’Automne, a presença de uma mulher idosa como protagonista vale pontos na busca de fundos pela diversidade. Sem esses fundos, não teria uma carreira. Gosto de filmar e tenho histórias. Se eu tivesse que me adequar ao sistema de Hollywood, teria que esperar. Às vezes, nos EUA, precisas esperar três anos para a agenda de um ator ou de uma atriz ter uma vaga para ti. Não quero isso, não anseio por concorrer ao Oscar. Em França, consigo trabalhar com as estrelas que desejo.    

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