“Ana”: o tratado social de Marcus Vinícius Faustini

(Fotos: Divulgação)

Revelado nos anos 1990 pelos palcos por meio de peças teatrais eivadas pelas Ciências Sociais, Marcus Vinícius Faustini estendeu para o cinema o seu namoro com a política, como o 18° Fest Aruanda vai ver neste domingo, com a projeção da longa-metragem “Ana” na sua seleção competitiva oficial. Secretário de Cultura no Rio de Janeiro de 2021 a 2022, o encenador de espetáculos sociológicos volta ao posto de realizador seis anos depois de “Vende-se Esta Moto” (2017), a sua primeira ficção, precedida pelos documentários “Chão de Estrelas” (2013) e “Carnaval, Bexiga, Funk e Sombrinha” (2006).

Mistura de “O Grande Momento”, de Roberto Santos, com Ken Loach, a trama de “Ana” lembra “Rocco i suoi fratelli)” ao retratar o laço de fraternidade entre uma passeadora de cães (Priscila Lima) e o seu irmão caçula, um jovem que se prepara para um show drag (Gustavo Luz). Vinícius Oliveira, o menino de “Central do Brasil” (1998), dá em cena a atuação mais deslumbrante da sua carreira, numa síntese do desemparo da vida suburbana do Rio. Na entrevista a seguir, Faustini compartilha detalhes sobre o seu dispositivo estético.  

Marcus Vinícius Faustini assina “Ana”, em concurso no Fest Aruanda

Qual é a ideia política e poética de Brasil que funda o filme “Ana”?
Precisamos conhecer melhor a vida das pessoas que circulam diariamente nas grandes cidades brasileiras.

Qual é a experiência de trupe que você leva do teatro para o cinema neste novo filme?
Trabalhar a personagem do início ao fim. Foi isso o que aprendi no teatro e é o que levo para o cinema. Tanto na fase do roteiro, na fase de estar junto ao diretor de fotografia, imaginando as sequências e a linguagem, no trabalho com os atores, na montagem, no som… Sempre estou a pensar em tudo o que está a acontecer em função da personagem. A personagem e o que ele faz é a ponte de maior conexão com quem assiste um filme. Mas isso só é possível quando você tem uma equipa alinhada e contínua. Por isso, gosto de realizar novos e diferentes projetos com antigos parceiros, atores, atrizes e equipe criativa, nos reinventamos juntos.

O que existe de político (e de libertador) na opção de se fazer um “filme de guerrilha” no Rio de Janeiro?
Quero fazer filmes com apoio daqui para a frente e ser parceiro de outras produções também, e participar da luta pela continuidade e aprimoramento da política pública de cultura e cinema.

Onde é que o diretor de teatro e dramaturgo que você também é contamina a sua produção audiovisual? Que lugar sobra para as máscaras do trágico e do cómico no cinema?
A beleza do cinema é a possibilidade que temos, quando assistimos a um filme, de entrar na vida e na cabeça de uma personagem. A tragédia e a comédia andam juntas na vida daquela personagem. Essa invenção é do cinema, ou seja, permitir que o público possa respirar junto com a personagem. Quando realizo um filme procuro estar inteiro com a cabeça de cinema.

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