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Berlinale: A atração da fé em «Divino amor»

Ainda impactada pela indigestão moral gerada por Tremores (Temblores, do guatemalteco Jayro Bustamante, o mesmo realizador de Ixcanul) na sua corajosa reflexão sobre a prática da “cura gay” no seu país, assolado pelo machismo, a Berlinale 2019 não resistiu a um novo mergulho no exercício fundamentalista da fé e saiu desesperada atrás de Divino amor, de Gabriel Mascaro.

Nem perca o seu tempo correndo atrás de bilhetes de imprensa ou de convidados para a longa-metragem, que representou (muito bem) o Brasil em Sundance, há duas semanas: acabaram os tickets para sessão de abertura por aqui. Talvez amanhã, haja uma nova leva. A sua narrativa é algo que o público do americano da gelada Park CitY, em Utah, saudou como uma quase sci-fi, um retrato futurista dos nossos desamparos. É Gabriel Mascaro, pernambucano por trás do cultuado Boi neon (Prémio Especial do Júri na mostra Orizzonti de Veneza, em 2015), quem assina a direção desta alegoria. Uma alegoria do cristianismo fundamentalista como exercício de alienação e intolerância num tempo em que a fé deveria cumprir sua vocação transcendente de libertação. Uma alegoria com Dia Paes no papel de Joana, crente fervorosa num projeto de fidelidade conjugal à qualquer prova. Estruturado em coprodução com o Uruguai, o Chile, a Dinamarca e a Noruega, o filme de Mascaro estreia em circuito comercial por aqui ainda primeiro semestre.

O que me encanta nesse filme é a inteligência com que o Mascaro desenvolve um roteiro tão original, tão atual e que se comunica diretamente com o mundo, a partir de um futuro próximo que faz com que a gente reflita a relação entre religião, política e sociedade”, diz a atriz paraense de 49 anos, há uma semana no ar na TV brasileira.

O seu desempenho arrebatou Sundance: a vitrine mundial para o cinema independente autoral, criada por Robert Redford nos anos 1980, rendeu-se a ela, entre aplausos apaixonados e uma penca de resenhas analíticas sobre o quanto as peripécias de uma escrivã de cartório, fiel aos desígnios do Altíssimo, servem como metáfora para a Era Bolsonaro. “A primeira palavra que vem à cabeça quando se pensa sobre o cinema tematicamente complexo, embora sempre acessível, de Gabriel Mascaro é ‘sensual’. Fotografado e produzido de modo deslumbrante, com atuações impressionantes e uma série de outros aspetos fascinantes, este filme é a prova do que este realizador de 35 anos é um dos mais audaciosos e talentosos diretores de sua geração”, cravou Boyd van Hoeij, em sua resenha para a revista The Hollywood Reporter, postada na segunda, após a projeção do filme em Park City, a sede do Sundance.

Karen Han, crítica do site Polygon, saiu do filme igualmente embatucada. “Cansada das mesmas distopias? ‘Divino amor’ tem a cura. O Brasil de 2027 parece um sonho. Tudo é conduzido magnificamente por Dira, conforme o material em que ela trabalha vai se refinando. Ela brilha por todo o filme, em especial quando Joana sente não estar a ser recompensada pela sua devoção”, escreve Karen, ainda sob impacto da sinestesia provocada pela fotografia do mexicano  Diego García.

De modo geral, os críticos se surpreendem com o conservadorismo institucionalizado que a trama denuncia, num contexto marcado por veto do governo ao aborto e por nariz torcido ao homossexualismo. São elementos percetíveis, mas nunca explicitados no circo místico criado por Mascaro como sinal de alerta ao ovo da serpente que está sendo chocado silenciosamente diante de nós. Para falar dele, o seu enredo se passa num amanhã bem pertinho. Nele, Joana (Dira) usa a sua posição no trabalho para tentar salvar casais que chegam para se divorciar. Mas ela se encontra diante de uma crise no próprio casamento, o que termina por deixá-la ainda mais perto de Deus. Os atores Emílio de Melo, Julio Machado, Thalita Carauta, Mariana Nunes, Teca Pereira e Tuna Dwek ajudam Mascaro e Dira a construir o calvário de Joana.

A personagem de Dira é extremamente complexa e cheio de dilemas. Ela usa a fé como motor de todas as suas ações e a Dira foi fundo na construção dela trazendo ainda mais camadas para a sua Joana. Uma atriz com a potência dela sempre aprofunda uma personagem”, diz o argumentista do filme Lucas Paraízo, hoje um dos mais respeitados scriptmen do cinema brasileiro (e da TV), que escreveu o filme com Mascaro, Rachel Ellis e Esdras Bezerra.

Até o momento, o grande filme da Berlinale 2019, na briga pelo Urso de Ouro, é Grâce à Dieu, o trabalho mais adulto do parisiense François Ozon à direção, centrado em crimes pedófilos de um padre católico, acusado por três homens a quem ele violentou no passado. Denis Menochet vive um deles, numa atuação magistral.



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