Um prólogo com sons e imagens apressadas e impactantes de tempestades, destruição de casas e dos escombros daquilo que restou de uma tragédia climática, fruto da acumulação de más ações humanas, introduz-nos na atmosfera da narrativa arrebatadora de Rua do Pescador, nº 6, a segunda e extraordinária longa-metragem de Bárbara Paz, realizadora, artista visual e atriz brasileira do Rio Grande do Sul.

Uma obra cinematográfica que mistura ficção e documentário, com estética visual e sonora impressionantes, um amálgama de imagens filmadas com câmara de cinema e com drones, imagens de arquivo e áudios da Rádio Guaíba, e o uso supercriativo do som comunicando imagens memoriais. Não me lembro de filmes que usam o som de rádio para produzir impacto na imagem ou criar intensidade dramática como tão bem fez a realizadora. A composição fílmica também se vale de singulares travellings lentos para trás, com profundidade, e travellings laterais feitos com drones, que parecem ter sido feitos com dolly.

As imagens em preto e branco granulado da fotografia tonal e escultural criada por Bruno Polidoro expressam a estética autoral do cinema que Bárbara Paz está a imprimir. Estética marcada por uma visualidade poética que regista dramas da vida real, as fraturas externas e internas das personagens. Um cinema em que a câmara age como dispositivo afetuoso, envolvendo memórias, confronto e ressignificação do sofrimento humano.

Rua do Pescador, nº 6 retrata as ruínas humanas e da natureza provocadas pela devastadora enchente de 2024, com foco na comunidade periférica da Ilha da Pintada, na região metropolitana de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, Brasil.

Antes deste filme, a imagem que a minha memória conservava dessa aldeia de pescadores era a de um agradável passeio de barco que fiz com o meu companheiro e com a minha mãe em 2011, quando vivi em Porto Alegre.

Os habitantes da Ilha da Pintada há muito tempo lidam com diversas agruras, ausência de políticas públicas e a dificuldade própria da vida dos pescadores artesanais. Em 2024, tiveram de resistir à tragédia ambiental que caiu sobre os seus ombros.

Os sobreviventes narram as suas histórias de vida dialogando entre si, conectando passado, presente e futuro, rememorando as enchentes de 1941 e de 1984. Chuvas torrenciais e inundações que os atingiram, causando irrecuperáveis perdas humanas e materiais.

Bárbara filma Rua do Pescador, nº 6 de forma cuidadosa, segura e ousada, vale-se da sua formação e experiência no teatro dramático enquanto atriz para dirigir os atores e não atores e opta por filmar a preto e branco uma trágica realidade humana e ecológica. Filmar em tons de preto e branco, a meu ver, expressa um zelo e carinho em documentar as histórias das personagens de modo a suavizar as suas dores, sem estetizar a desgraça alheia, registando a condição em que elas se encontram após os efeitos da catástrofe climática. Imagens instintivas e urgentes que falam por si mesmas, clamam por mudanças no comportamento humano em relação à natureza e favorecem a observação atenta do que sobrou de uma comunidade ribeirinha, que sequer tinha iluminação quando as águas começaram a baixar depois da inundação. Os problemas para além daqueles do quotidiano vêm à tona, restando a necessidade da reconstrução material, da identidade e do sentimento de pertença de quem já nem documentos tinha.

Um filme cuja montagem conta com a consultoria do realizador e videoartista Cao Guimarães, com um desenho de som fragmentado, banda sonora agitada e por vezes amorosa usada como recurso dramático, e o silêncio como modo de pausar, ainda que efemeramente, o sofrimento dos pescadores e das suas famílias, destroçadas por dentro e por fora.

Um filme que aborda as questões ambientais do nosso tempo, chamando a atenção para a urgência de encontrar soluções diante dos efeitos das alterações climáticas, principalmente na vida das pessoas de comunidades ribeirinhas e periféricas em redor das grandes cidades.

Rua do Pescador, nº 6 estreou no Festival É Tudo Verdade, em São Paulo, em 2025. Tem recebido prémios como o de Melhor Realização de Documentário no Los Angeles Brazilian Film Festival (LABRFF), Melhor Banda Sonora e Melhor Desenho de Som no Festival de Gramado, além de reconhecimento internacional em Itália. Em Portugal, o filme foi exibido na Competição de Longas-Metragens em Língua Portuguesa, no dia 12 de outubro, numa sessão completamente cheia do CineEco 2026 – Festival Internacional de Cinema Ambiental, onde tive a oportunidade de assistir ao filme. Fiquem de olho, é um filme tocante e IMPERDÍVEL!

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Pontuação Geral
Lídia Ars Mello
rua-do-pescador-no-6-o-impactante-filme-de-barbara-pazBárbara filma Rua do Pescador, nº 6 de forma cuidadosa, segura e ousada, vale-se da sua formação e experiência no teatro dramático enquanto atriz para dirigir os atores e não atores, e opta por filmar a preto e branco uma trágica realidade humana e ecológica.