Um cheiro a Óscar circunda a programação desta quarta-feira no 74.º Festival de San Sebastián, a começar pelas sessões matinais da Secção Oficial, onde Jesse Eisenberg, o Mark Zuckerberg de A Rede Social (2010), vem afirmar a sua destreza como realizador ao disputar os prémios do certame basco com A Grande Estreia (The Debut). Depois da passagem por Toronto, Julianne Moore já entrou na conversa da temporada de prémios pelo modo como interpreta Mona, uma mulher tímida que decide apresentar-se ao elenco de um musical, mesmo sem qualquer experiência. Paul Giamatti interpreta Jerry, o encenador que vai testar os limites desta candidata ao posto de ave canora, num exercício de crueldade e manipulação artística. Eisenberg provou ser um cineasta de peso com A Verdadeira Dor (2024), especialmente na maneira de extrair desempenhos marcantes de atores como Kieran Culkin. Agora, antes de Hollywood fazer as suas contas, enfrenta o crivo de Donostia, nome de San Sebastián em euskara.
Um dos pontos mais importantes de A Grande Estreia como construção dramatúrgica é que não estamos diante de um filme de redenção óbvia. Jesse Eisenberg não está particularmente interessado em formatar uma jornada heroica tradicional, na qual uma pessoa aparentemente sem qualquer ligação ao universo artístico entra numa montagem teatral, supera as suas limitações e conquista um lugar sob os holofotes. O que interessa ao realizador é muito mais perturbador: a imersão progressiva da protagonista na sua própria loucura criativa.
É um filme sobre as potências, em progressão quase aritmética e geométrica, que a arte abre quando invade a vida de alguém. Nesse aspeto, existe uma aproximação curiosa ao brasileiro Saneamento Básico, o Filme (2007), de Jorge Furtado. Nessa longa-metragem, um grupo de habitantes de uma pequena cidade do interior decide fazer um filme para conseguir recursos de um edital governamental e, no processo, embarca numa grande viagem pelos códigos do próprio cinema. Em A Grande Estreia, o teatro produz um efeito semelhante: a entrada de Mona no universo da representação faz com que atravesse uma fronteira cada vez mais nebulosa entre aquilo que é realidade e aquilo que é ficção.
A perda de lucidez da personagem acontece justamente à medida que progride no palco. Mona passa a não conseguir estabelecer limites entre aquilo que a peça exige e aquilo que a vida impõe às funções encenadas numa dramaturgia qualquer. A arte, para ela, deixa de ser uma atividade exterior e passa a ocupar todos os espaços possíveis da existência.
É aí que Jerry, personagem de Paul Giamatti, assume uma função essencial. Numa interpretação brilhante, o encenador submete Mona a uma série de jogos de composição de personagem próximos do chamado Método, desenvolvido nos Estados Unidos a partir de leituras do sistema de Konstantin Stanislavski e fortemente associado ao Actors Studio. O exercício proposto por Jerry começa como ferramenta de preparação, mas gradualmente ganha uma dimensão quase experimental.
Mona interpreta Miss Danielle, a superintendente de um prédio, e, durante um desses exercícios, visita um edifício fazendo-se passar pela profissional responsável pelo local, até que o verdadeiro funcionário surge diante dela. A situação produz confusão e humor, mas revela também o método de Eisenberg: utilizar o próprio processo de construção de uma personagem para questionar o que acontece quando a atriz deixa de saber onde termina a interpretação.
Esses momentos laboratoriais rendem algumas das passagens mais engraçadas de uma comédia dramática com forte vocação popular. Eisenberg compreende que a investigação sobre a arte não precisa de transformar o filme numa experiência hermética. Há leveza e constrangimento, acompanhados por uma disposição genuína para brincar com os códigos do teatro.
Essa delicadeza estende-se à direção artística, outro componente fundamental da experiência. O filme constrói os espaços cénicos com uma subtileza que acompanha a transformação de Mona. Nada parece excessivamente ostensivo: os ambientes têm uma aparência quotidiana, quase banal, que aos poucos passa a adquirir uma qualidade teatral. Essa transição entre o espaço real e o espaço da representação é fundamental para que a fronteira entre ambos se torne progressivamente mais difícil de identificar.
Eisenberg já havia demonstrado vitalidade para contar histórias em A Verdadeira Dor (2024), mas aqui amplia a investigação sobre as vulnerabilidades afetivas do quotidiano. Há algo de particularmente interessante na sua maneira de observar personagens que não sabem exatamente o que fazer com aquilo que sentem. Se na longa anterior a dor era partilhada por uma dupla marcada por relações familiares complexas, agora manifesta-se através do próprio ato de representar.
Julianne Moore é o instrumento perfeito para essa operação. Mona começa como uma mulher tímida, aparentemente incapaz de ocupar o centro de uma sala, e termina envolvida numa espiral em que a própria exposição pública se torna uma espécie de vício. Moore consegue fazer com que a personagem seja engraçada e inquietante sem perder a vulnerabilidade. Não há uma transformação convencional da mulher apagada em estrela. Há, antes, uma alteração na perceção que Mona tem de si própria.
Durante a projeção em Donostia, onde A Grande Estreia disputa a Concha de Ouro, o filme foi aplaudido durante a sessão, especialmente depois de uma sequência de desabafo desatinado de Mona. A reação do público diz muito sobre a capacidade de Eisenberg para construir uma experiência que circula entre o cinema de autor e uma comunicação mais imediatamente popular.
Também diz muito sobre Julianne Moore. Estamos a falar de uma atriz que se põe repetidamente à prova. Desde os anos 1990, quando apareceu em O Fugitivo (1993), de Andrew Davis, ao lado de Harrison Ford, Moore construiu uma trajetória marcada pela disponibilidade para trabalhar com cineastas e personagens muito diferentes. Steven Spielberg levou-a para O Mundo Perdido: Jurassic Park (1997), e depois vieram colaborações com nomes como Paul Thomas Anderson, Neil Jordan e Fernando Meirelles, entre muitos outros.
Em A Grande Estreia, esse repertório ganha novo viço. Moore encontra em Mona uma personagem que lhe permite explorar o ridículo sem perder o afeto, até chegar ao descontrolo. Eisenberg sabe quando deixá-la dominar a cena — inclusive num divertido número musical em que o próprio realizador também participa — e quando recuar para observar o processo de transformação.
Há, portanto, uma ironia deliciosa no título. A grande estreia não é apenas a de uma mulher que chega pela primeira vez a um palco. É também a estreia de uma nova versão de si mesma, uma identidade que nasce do exercício artístico e que, justamente por isso, pode não ser inteiramente controlável.
A Grande Estreia é um filme sobre representação, mas também sobre o perigo de descobrir que representar alguém pode alterar profundamente aquilo que somos. Jesse Eisenberg encontra nesse território uma maneira divertida e progressivamente desconcertante de falar sobre a criação artística. Ao lado de uma Julianne Moore monumental e de um Paul Giamatti que entende perfeitamente a crueldade do seu personagem, entrega um dos títulos mais interessantes da competição de San Sebastián.



















