Filme mais próximo da ideia de “escândalo” entre os 16 concorrentes à Concha de Ouro de 2023, “Un Silence” gravita pelo indigesto universo da cumplicidade ao falar do crime da pedofilia. Numa narrativa incómoda, que mistura pontos de vista num estilo próximo ao de “Rashomon“, o drama de estrutura jurídica “Un Silence” é o exercício narrativo mais ambicioso do belga Joachim Lafosse. A trama acompanha a luta de um jurista (Daniel Auteuil) num caso de abuso de menores que é abalado pela notícia de que o próprio advogado é um pedófilo, que, anos atrás, molestou o cunhado. Lafosse conversou com o C7nema sobre o filme que chega aos cinemas a 12 de junho.

Existe uma sequência definitiva no filme, na qual o personagem de Auteuil afirma “sou um homem doente e estou procurando cura“. O que essa afirmação desenha acerca do protagonista?

Dizer “estou doente” e não fazer nada para mudar isso é uma estratégia de consentimento com o erro, é um impasse em relação à mudança. Mas tomei o cuidado de não fazer julgamentos, numa busca de apresentar as personagens em zonas cinzentas, sem tomar uma posição. É um filme de escuta. Mas cinco ou seis atores que eu chamei para o papel, antes de Daniel, negaram fazê-lo. É um tipo de personagem que não dá prémios, é muito controverso. O meu objetivo não é chocar, é apontar o veneno que está nas veias da sociedade.

Joachim Lafosse em San Sebastián

De que maneira o filme dialoga com a história do cinema, sobretudo com “Rashomon“, para propor diferentes pontos de vista?

Cineastas que admiro muito, como Kiarostami, Jane Campion e Akira Kurosawa, têm uma moral particular, mas nunca são moralistas. Não poderia entrar nesse universo familiar com preconceito.

Qual é a mirada feminina da trama?

Tens homens que são acusados de pedofilia, mas temos duas gerações de mulheres que se calaram. O filme narra a reação delas.

Como funcionou o processo de direção do elenco, como Emmanuelle Devos e Daniel Auteuil?

Não gosto da expressão “dirigir atores”, pois sugere uma condução de um processo complexo. Só propus que tentassem oferecer algo de diferente do que de habitual fazem. Vários ensaios foram o meio para construir o set, além do pedido para que não falassem sobre o caso.

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