A noite de Fernanda Torres nuns Globos de Ouro divididos entre “Emilia Pérez” e “O Brutalista”

(Fotos: Divulgação)

Antes de cravar Emilia Pérez (de França) e O Brutalista (dos EUA) como vencedores das suas competições mais concorridas, a cerimónia anual de entrega dos Golden Globes (Globos de Ouro), realizada este domingo, no Beverly Hilton, Los Angeles, assegurou a alegria do Brasil assim que Viola Davis anunciou a carioca Fernanda Torres como Melhor Atriz de Drama de 2025 por Ainda Estou Aqui.

Inédita em Portugal, a adaptação do romance homónimo do escritor Marcelo Rubens Paiva fechou 2024 com cerca de 3 milhões de ingressos vendidos na sua pátria natal, carregando uma aura de blockbuster a Beverly Hills, onde concorreu ainda à estatueta de Melhor Filme de Língua Não Inglesa. Perdeu nessa frente para o supracitado concorrente francês, pilotado por Jacques Audiard. Essa derrota, contudo, foi seguida pelo júbilo que contagiou o realizador, Walter Salles, ao testemunhar o êxito da sua parceria profissional, com quem filmou antes Terra Estrangeira (1995) e O Primeiro Dia (1998), ambos rodados em dupla com Daniela Thomas.

Fernanda dedicou seu Globo a muitos entes queridos, incluindo Waltinho (alcunha do cineasta no Brasil), mas começou por citar a mãe, a também atriz e integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL) Fernanda Montenegro. A veterana celebridade dos palcos e dos écrans foi dirigida por Salles em Central do Brasil (Urso de Ouro de 1998), que também lhe rendeu nomeação aos Golden Globes – e ao Oscar. As duas trabalham juntas em Ainda Estou Aqui, numa divisão (em épocas distintas) da mesma personagem: a advogada e ativista Eunice Paiva (1932-2018).

É um filme que nos ajudou a sobreviver a tempos difíceis”, disse Torres no palco, sob uma ovação, maior do que aquela recebida por si em 1986 ao ser laureada em Cannes por sua atuação em Eu Sei Que Vou Te Amar.

Desde setembro, no Festival de Veneza, de onde saiu com o prémio de Melhor Argumento (de Heitor Lorega e Murilo Hauser), Torres arrebata plateias como Eunice. Durante a ditadura militar, no início dos anos 1970, Eunice teve o marido, o engenheiro Rubens Paiva (papel de Selton Mello), a ser levado para depor, mas ele nunca regressou. Dali para diante, ela empenha-se em dissipar névoas da tortura e das práticas do desaparecer dos ditos “subversivos”, numa trajetória heroica. A montagem espartana de Affonso Gonçalves narra essa luta em saltos no tempo, com direito a uma entrada de Fernanda Montenegro numa sequência de doer na alma.

O ‘Ainda Estou Aqui’ pode ser visto como a história de uma família que, em um momento trágico da nossa história, foi roubada de um futuro possível. Da mesma forma como o país foi roubado de um futuro possível”, disse Salles ao C7nema. “A oposição entre a luminosidade inicial do filme e o chiaroscuro que acontece depois do desaparecimento de Rubens Paiva está na base desse relato, assim como da gramática cinematográfica que escolhemos para narrar essa história. O estar no mundo da família Paiva no início do filme é pleno de possibilidades. Na casa alugada do Leblon, havia o encontro de pessoas de gerações diferentes, discutindo política, ouvindo música… daí a câmara fluída e orgânica aos corpos, daí os (filmes em) super-8 do início do filme, revelando com urgência a geografia humana, mas também a geografia física do Rio de Janeiro. Tanto a imagem quanto o som transmitem uma sensação de intimidade e imediatez, mostrando que, mesmo sob aquela ditadura militar, podia ainda pulsar o desejo de um outro país”.

Comandada (sem um traço de graça sequer) pela comediante Nikki Glaser, a festa da Golden Globe Foundation de 2025 abalroou o Brasil ainda em outro flanco. Curiosamente, o baiano Caetano Veloso tem um hit (“Pecado”) na banda sonora premiada ontem: o trabalho musical de Trent Reznor e Atticus Ross em Rivais” (“Challengers”), do italiano Luca Guadagnino. Foi a dupla Elton John e Brandi Carlile que anunciou os seus nomes.

“Emilia Pérez”

Depois de passar pelo Natal e pelo Réveillon a encher salas pelo mundo afora, Wicked, baseado no fenómeno homónimo da Broadway, ganhou o Globo dos blockbusters. A categoria nasceu em 2024, a fim de reverenciar títulos que reataram a relação das plateias com as salas de projeção.

Outrora, acreditava-se que quem ganhava o Globo de Ouro seria oscarizado automaticamente, mas a História questionou esse postulado. Votações dos sindicatos de Hollywood, sobretudo o Screen Actors Guild (SAG) e o Producers Guild of America (PGA), têm mais peso, pois refletem o gosto de quem (de facto) vota na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos EUA, que anuncia os seus concorrentes no próximo dia 17. Apesar disso, o Globo, concedido desde 1944 por correspondentes da imprensa estrangeira em solo hollywoodiano, continua a ser encarado como chancela de prestígio, por alargar a visibilidade de títulos em circuito comercial, elevando a sua receita numa temporada de premiações que termina no dia 2 de março, com a festa da Academia. Até lá, muitas longas-metragens vão mobilizar o circuito, cercados de potenciais favoritismos. A conquista do Globo dourado vai ajudar muitos, ao arrebatar holofotes para as/os vitoriosas/os, sobretudo Emilia Pérez e O Brutalista .

“Wicked”

O evento reforça os esforços da sua organização para espantar os demónios que assombraram o troféu quando este era oferecido pela Hollywood Foreign Press Association (HFPA), inaugurada em 1943. A primeira cerimónia em que a láurea foi concedida ocorreu há 81 anos, no estúdio 20th Century Fox, de olho nos magnatas da indústria. O seu primeiro vencedor foi “A Canção de Bernardette”, que venceu nas categorias de Melhor Filme, Realização (Henry King) e Atriz (Jennifer Jones). O troféu, caracterizado por uma reprodução da esfera terrestre rodeada por uma película de filme cinematográfico, teve vários designers ao longo das últimas oito décadas. A versão distribuída atualmente pesa cerca de 3,5 quilos. É feita de latão, zinco e bronze, e mede 11,5 polegadas, acoplando-se a uma base retangular, vertical, de notável elegância. De 1950 até 2022, guerras internas – de egos e de condutas profissionais questionadas em parâmetros éticos – quase levou a festa de entrega dessa estatueta à extinção, sob a acusação de abusos de poder, falta de representatividade (das populações negras, asiáticas, indígenas) e sexismo. A ameaça de cancelamento reinou sob as cabeças da HFPA até uma revitalização, em 2023, o que deu ao contingente de profissionais de imprensa envolvidos na sua realização (334 jornalistas, de 85 países) a hipótese de recomeçar, alinhada com os pleitos urgentes da contemporaneidade. Não é por acaso que a saga de um barão do tráfico que transiciona e assume a identidade de Emilia Pérez foi contemplada em múltiplas raias. Daí também o simbolismo da homenagem prestada à já mencionada atriz Viola Davis, recipiente do troféu honorário Cecil B. DeMille. Foi contemplada com tal honraria não só pela potência de seus feitos como atriz, mas pelo simbolismo que sua luta antirracista e seu engajamento em causas feministas.

Ao escolher os vencedores dos Globos de narrativas serializadas de TV ou streaming, a massa votante elegeu “Shogun” e “Hacks” como suas queridinhas.

O PALMARÉS DE 2025
Melhor Filme (Drama)

The Brutalist (A24)
A Complete Unknown (Searchlight Pictures)
Conclave (Focus Features)
Dune: Part Two (Warner Bros. Pictures)
Nickel Boys (Orion Pictures/Amazon Mgm Studios)
September 5 (Paramount Pictures)

Melhor Filme (Musical ou Comédia)

Anora (Neon)
Challengers (Amazon MGM Studios)
Emilia Pérez (Netflix)
A Real Pain (Searchlight Pictures)
The Substance (Mubi)
Wicked (Universal Pictures)

Melhor Realização

Jacques Audiard (Emilia Pérez)
Sean Baker (Anora)
Edward Berger (Conclave)
Brady Corbet (The Brutalist)
Coralie Fargeat (The Substance)
Payal Kapadia (All We Imagine as Light)

Melhor Argumento

Jacques Audiard (Emilia Pérez)
Sean Baker (Anora)
Brady Corbet, Mona Fastvold (The Brutalist)
Jesse Eisenberg (A Real Pain)
Coralie Fargeat (The Substance)
Peter Straughan (Conclave)

Melhor Ator (Drama)

Adrien Brody (The Brutalist)
Timothée Chalamet (A Complete Unknown)
Daniel Craig (Queer)
Colman Domingo (Sing Sing)
Ralph Fiennes (Conclave)
Sebastian Stan (The Apprentice)

Melhor Atriz (Drama)

Pamela Anderson (The Last Showgirl)
Angelina Jolie (Maria)
Nicole Kidman (Babygirl)
Tilda Swinton (The Room Next Door)
Fernanda Torres (I’m Still Here)
Kate Winslet (Lee)

Melhor Atriz (Musical ou Comédia)

Amy Adams (Nightbitch)
Cynthia Erivo (Wicked)
Karla Sofía Gascón (Emilia Pérez)
Mikey Madison (Anora)
Demi Moore (The Substance)
Zendaya (Challengers)

Melhor Ator (Musical ou Comédia)

Jesse Eisenberg (A Real Pain)
Hugh Grant (Heretic)
Gabriel Labelle (Saturday Night)
Jesse Plemons (Kinds of Kindness)
Glen Powell (Hit Man)
Sebastian Stan (A Different Man)

Melhor Ator Secundário

Yura Borisov (Anora)
Kieran Culkin (A Real Pain)
Edward Norton (A Complete Unknown)
Guy Pearce (The Brutalist)
Jeremy Strong (The Apprentice)
Denzel Washington (Gladiator II)

Melhor Atriz Secundária

Selena Gomez (Emilia Pérez)
Ariana Grande (Wicked)
Felicity Jones (The Brutalist)
Margaret Qualley (The Substance)
Isabella Rossellini (Conclave)
Zoe Saldaña (Emilia Pérez)

Melhor Banda-Sonora

Volker Bertelmann (Conclave)
Daniel Blumberg (The Brutalist)
Kris Bowers (The Wild Robot)
Clément Ducol, Camille (Emilia Pérez)
Trent Reznor, Atticus Ross (Challengers)
Hans Zimmer (Dune: Part Two)

Melhor Filme em Língua Não-Inglesa

All We Imagine as Light 
Emilia Pérez
The Girl With the Needle
I’m Still Here
The Seed of the Sacred Fig
Vermiglio

Melhor Música

Beautiful That Way” – The Last Showgirl
“Compress / Repress” – Challengers
“El Mal” – Emilia Pérez
“Forbidden Road” – Better Man
“Kiss The Sky” – The Wild Robot
“Mi Camino” – Emilia Pérez

Melhor Filme de Animação

Flow (Sideshow/Janus Films)
Inside Out 2 (Walt Disney Studios Motion Pictures)
Memoir of a Snail (IFC Films)
Moana 2 (Walt Disney Studios Motion Pictures)
Wallace & Gromit: Vengeance Most Fowl (Netflix)
The Wild Robot (Universal Pictures)

Conquista e realização cinemática e das bilheteiras

Alien: Romulus (Walt Disney Studios Motion Pictures)
Beetlejuice Beetlejuice (Warner Bros. Pictures)
Deadpool & Wolverine (Walt Disney Studios Motion Pictures)
Gladiator II (Paramount Pictures)
Inside Out 2 (Walt Disney Studios Motion Pictures)
Twisters (Universal Pictures)
Wicked (Universal Pictures)
The Wild Robot (Universal Pictures)

Televisão

Melhor Série (Drama)

The Day of the Jackal (Peacock)
The Diplomat (Netflix)
Mr. & Mrs. Smith (Prime Video)
Shogun (FX/Hulu)
Slow Horses (Apple TV+)
Squid Game (Netflix)

Melhor Série (Musical ou Comédia)

Abbott Elementary (ABC)
The Bear (FX/Hulu)
The Gentlemen (Netflix)
Hacks (HBO/Max)
Nobody Wants This (Netflix)
Only Murders in the Building (Hulu)

Melhor série limitada, antologia ou telefilme

Baby Reindeer (Netflix)
Disclaimer (Apple TV+)
Monsters: The Lyle and Erik Menendez Story (Netflix)
The Penguin (HBO/Max)
Ripley (Netflix)
True Detective: Night Country (HBO/Max)

Melhor Ator (Drama)

Donald Glover (Mr. & Mrs. Smith)
Jake Gyllenhaal (Presumed Innocent)
Gary Oldman (Slow Horses)
Eddie Redmayne (The Day of the Jackal)
Hiroyuki Sanada (Shogun)
Billy Bob Thornton (Landman)

Melhor Atriz (Drama)

Kathy Bates (Matlock)
Emma D’arcy (House of the Dragon)
Maya Erskine (Mr. & Mrs. Smith)
Keira Knightley (Black Doves)
Keri Russell (The Diplomat)
Anna Sawai (Shogun)

Melhor Ator de série limitada, antologia ou telefilme

Colin Farrell (The Penguin)
Richard Gadd (Baby Reindeer)
Kevin Kline (Disclaimer)
Cooper Koch (Monsters: The Lyle and Erik Menendez Story)
Ewan McGregor (A Gentleman in Moscow)
Andrew Scott (Ripley)

Melhor Atriz de série Limitada, antologia ou telefilme

Cate Blanchett (Disclaimer)
Jodie Foster (True Detective: Night Country)
Cristin Milioti (The Penguin)
Sofía Vergara (Griselda)
Naomi Watts  (Feud: Capote Vs. The Swans)
Kate Winslet (The Regime)

Melhor Atriz (Musical e Comédia)

Kristen Bell (Nobody Wants This)
Quinta Brunson (Abbott Elementary)
Ayo Edebiri (The Bear)
Selena Gomez (Only Murders in the Building)
Kathryn Hahn (Agatha All Along)
Jean Smart (Hacks)

Melhor Ator (Musical e Comédia)

Adam Brody (Nobody Wants This)
Ted Danson (A Man on the Inside)
Steve Martin (Only Murders in the Building)
Jason Segel (Shrinking)
Martin Short (Only Murders in the Building)
Jeremy Allen White (The Bear)

Melhor Ator Secundário

Tadanobu Asano (Shogun)
Javier Bardem (Monsters: The Lyle and Erik Menendez Story)
Harrison Ford (Shrinking)
Jack Lowden (Slow Horses)
Diego Luna (La Máquina)
Ebon Moss-Bachrach (The Bear)

Melhor Atriz Secundária

Liza Colón-Zayas (The Bear)
Hannah Einbinder (Hacks)
Dakota Fanning (Ripley)
Jessica Gunning (Baby Reindeer)
Allison Janney (The Diplomat)
Kali Reis (True Detective: Night Country)

Melhor Performance em Stand-up, comédia

Jamie Foxx (Jamie Foxx: What Had Happened Was)
Nikki Glaser (Nikki Glaser: Someday You’ll Die)
Seth Meyers (Seth Meyers: Dad Man Walking)
Adam Sandler (Adam Sandler: Love You)
Ali Wong (Ali Wong: Single Lady)
Ramy Youssef (Ramy Youssef: More Feelings)

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