O filme português que maior visibilidade conquistou no Festival do Rio 2026 regressa ao ecrã neste sábado: Maria Vitória, de Mário Patrocínio. Com sessão às 15h45, no Cine Santa Teresa, esse retrato de inquietações sentimentais integra a secção Expectativa com uma história de formação atravessada pelo futebol, pelo luto, pela memória e pelos fantasmas de uma estrutura familiar patriarcal. Na sua primeira longa-metragem de ficção, o realizador coloca Mariana Cardoso no papel de uma jovem que, numa aldeia remota, joga numa equipa juvenil masculina e treina obsessivamente com o pai, Nacho (Miguel Borges), perseguindo o sonho de se tornar guarda-redes profissional. O regresso inesperado do irmão Bruno (Miguel Nunes), afastado da família desde o incêndio que matou a mãe, desestabiliza esse universo e obriga Maria a confrontar a autoridade paterna.
Com 114 minutos, Maria Vitória representa também um novo ponto numa trajetória que liga Patrocínio ao Brasil há mais de duas décadas. Realizador de Complexo: Universo Paralelo, documentário nascido da sua imersão no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, ele viveu na cidade entre 2004 e 2009 e reconhece em Eduardo Coutinho uma das referências decisivas da sua formação cinematográfica. Produtor igualmente prolífico — esteve, entre outros projetos, ligado a On Falling, de Laura Carreira —, Patrocínio encontra agora na ficção uma maneira de pensar a herança entre pais e filhos, os mecanismos da autoridade e aquilo que o futebol ainda oferece como ritual de encontro numa sociedade fragmentada.
É também uma obra sobre transmissão: de traumas, sonhos, silêncios e afetos. Nacho foi uma promessa futebolística da sua terra e deposita na filha parte da ambição que não conseguiu cumprir, confundindo proteção, amor e autoridade. Maria Vitória precisa, por sua vez, de encontrar uma voz própria sem destruir o vínculo com a única pessoa que permaneceu ao seu lado. É nessa tensão que Patrocínio inscreve uma reflexão sobre Portugal, mas sem transformar as personagens em meros porta-vozes de uma tese.
Em entrevista ao C7nema, o realizador fala sobre os fantasmas patriarcais portugueses, o futebol como religião coletiva, a passagem entre realização e produção e a relação profunda que mantém com o Brasil.
De que maneira a delicada relação entre Nacho e Maria Vitória reflete fantasmas patriarcais lusitanos que, numa medida histórica, criaram a noção — hoje em queda — de família?
Acho que esses fantasmas existem e atravessam inevitavelmente a relação entre os dois. Quando encontramos Nacho e Maria Vitória, eles são, de alguma forma, a família que resta. A mãe morreu na tragédia do fogo, o irmão partiu há mais de dez anos, e os dois ficaram sozinhos naquela casa. Têm-se um ao outro. Isso é muito importante para compreender Maria Vitória. O pai é quem ficou. Concordando ou não com ele, enfrentando-o ou não, ele representa uma ideia de permanência num mundo onde as pessoas que ela amava desapareceram ou partiram. Nacho também carrega as suas ausências.
Quais seriam elas?
Carrega a culpa de não ter estado presente no momento do incêndio, de não ter podido salvar a sua mulher. Carrega também um sonho frustrado, pois um dia foi a grande promessa futebolística da vila. E, sem necessariamente ter consciência disso, começa a projetar esse sonho na filha. Ele ama Maria Vitória profundamente, mas esse amor mistura-se com o ego, com a frustração e também com uma forma de poder. Fazer dela uma futebolista profissional de sucesso torna-se, de alguma maneira, uma forma de provar perante aquela pequena comunidade que ele tinha razão, que sabia o caminho. O sucesso dela transforma-se numa possibilidade de redenção para ele. No fundo, Nacho sente que voltar a ser um herói da terra é o seu destino. E é nesse processo que se perde, criando de forma tóxica a sua própria ilusão. É aí que encontro os fantasmas patriarcais de que falas.
E como eles aparecem?
Não tanto como uma ideia abstrata sobre o patriarcado português, mas na forma como o amor pode confundir-se com posse ou autoridade. Nacho acredita que está a preparar a filha para o mundo, mas terá de perceber que amar alguém também significa aceitar que essa pessoa possa escolher uma vida diferente daquela que imaginámos para ela. Mas será que alguém lhe ensinou isso? E Maria Vitória precisa de conquistar a sua liberdade sem perder a única pessoa que ficou. Será que vai conseguir? Maria Vitória precisa de encontrar a sua própria voz. Uma voz que vimos, ao longo da história, ser silenciada em tantas mulheres: as nossas mães, as nossas avós, as mulheres que nos criaram e nos deram à luz.
Como se dá a busca por essa voz?
Para mim, isso é central e foi também o que me levou, de forma muito natural, a dar espaço no guião à sororidade. Ao longo de todo o processo de escrita e de filmagem senti a presença da minha mãe e das minhas avós. Embora já não estejam neste mundo físico, continuam em mim. Era essa complexidade que me interessava. Não queria transformar Nacho num símbolo de uma geração, nem Maria Vitória numa vítima. Queria olhar para os dois com empatia, nas suas contradições, e perceber até que ponto conseguimos verdadeiramente ver aqueles que amamos. Talvez uma parte da transformação da ideia de família esteja precisamente aí: perceber que amar alguém não significa decidir quem essa pessoa deve ser.
Que fetiche o futebol (o desporto em si) impõe entre aquelas pessoas de que fala, numa (bela) metonímia do que pode ser Portugal — ou o mundo de língua portuguesa?
O futebol está presente na minha vida desde sempre. Lembro-me de pessoas reunidas à volta de um jogo, fosse da seleção ou de um clube. Lembro-me, ainda criança, de observar adultos absolutamente transformados durante noventa minutos. Gritavam, abraçavam-se, perdiam a cabeça. Havia qualquer coisa de fascinante naquela intensidade. Não importa a idade, um grande jogo ressuscita um morto por instantes ou mata alguém do coração. Durante muitos anos, Portugal não chegava às fases finais das grandes competições e, quando ficávamos pelo caminho, torcíamos sempre pelo Brasil. Ainda por cima, quando vivi no Japão em criança, os melhores amigos dos meus pais eram brasileiros e já nessa altura me vestiam com a verde e amarela. Mais tarde comecei eu próprio a jogar e o futebol permitiu-me entrar em mundos que provavelmente não teria conhecido de outra forma.
Que recordações guardas desse tempo?
Lembro-me particularmente dos Jogos de Lisboa. Jogávamos por toda a cidade e pela periferia e, de repente, comecei a descobrir que não existia uma Lisboa, existiam muitas Lisboas. Conheci bairros, pessoas e realidades muito diferentes da minha. O futebol tornou-se uma forma de perceber que o mundo era muito mais diverso, complexo e interessante do que aquele que eu conhecia. Na adolescência comecei também a frequentar muito os estádios e a ficar perto das claques. E aí descobri outro lado. Via a catarse coletiva, a brutalidade com que gritavam contra um árbitro ou um adversário, os insultos e, minutos depois o riso e a descontração. Durante aqueles noventa minutos parecia ser permitido libertar um lado mais primitivo de nós. E fui percebendo também uma coisa que está muito presente em Maria Vitória: às vezes o futebol é um dos poucos lugares onde um pai e um filho, ou um pai e uma filha, conseguem verdadeiramente encontrar-se. Podemos discordar dos nossos pais em quase tudo, podemos querer construir uma vida completamente diferente da deles, mas continuamos a torcer pelo mesmo clube. Porque o clube quase não se escolhe: quase sempre se herda. Passa de pais para filhos, juntamente com as histórias das derrotas e das vitórias. Em Portugal e no Brasil, vivemos o futebol com uma intensidade quase religiosa.

Como encaras essa religião “futebolística”?
O futebol tem esse poder extraordinário de, por algumas horas, parar um país. Pessoas que provavelmente nunca se encontrariam estão naquele instante a desejar exatamente a mesma coisa. Celebramos juntos, sofremos juntos, choramos juntos. Há poucos momentos na vida contemporânea em que ainda conseguimos viver uma emoção coletiva dessa dimensão. Sobretudo num mundo tão polarizado. Nacho e Maria Vitória podem ter dificuldade em dizer um ao outro aquilo que sentem, mas existe um lugar onde os dois ainda conseguem falar a mesma língua: um campo de futebol.
És um produtor prolífico, com joias como On Falling. De que forma a vivência da realização redefine a tua forma de produzir?
Antes de me ver como realizador, argumentista ou produtor, acho que sempre me vi como alguém que conta histórias. Acho que tudo começou quando os meus pais emigraram para o Japão e eu e o meu irmão fomos com eles. Eu tinha oito anos quando saí de Portugal e, de repente, entrei num mundo completamente diferente. Gosto de imaginar que foi uma viagem ao futuro. Fui estudar para uma escola pública japonesa e, durante os primeiros meses, não falava a língua. Então observava. Observava as pessoas, os gestos, descobria novas brincadeiras com os meus colegas e escutava sons que, passados alguns meses, se transformaram na minha língua. Depois chegava a casa e contava essas histórias aos meus pais. Mais tarde, quando regressei a Portugal, contava-as às minhas avós e aos meus colegas de escola. Acho que nasceu aí uma curiosidade pelo outro que nunca mais me abandonou. Essa vontade de entrar num mundo que não conheço. Só muito mais tarde vieram a realização, a escrita e o cinema. A produção veio depois e, inicialmente, por necessidade.
Como o ofício de produtor apareceu na tua trajetória?
Percebi relativamente cedo que não podia ficar sentado à espera que alguém acreditasse em mim ou me desse as oportunidades que procurava. Tinha de começar a criar as minhas próprias oportunidades. Depois de perceber o que significa lutar para que a nossa própria voz possa existir, senti também vontade de criar espaço para outras vozes. Acho que, por ser realizador, tenho uma relação muito particular com isso. Quando produzo, quero perceber o que existe naquele olhar que só aquela pessoa pode trazer e ajudá-la a levá-lo o mais longe possível. On Falling é um bom exemplo. O que me tocou no projeto da Laura Carreira foi precisamente o seu olhar. A capacidade de olhar para pessoas que cruzamos todos os dias e que, muitas vezes, já nem vemos. Há uma diferença enorme entre olhar para alguém e realmente vê-lo. E isso interessa-me profundamente. Produzir outros realizadores também me transforma enquanto cineasta. Obriga-me a entrar noutras sensibilidades, a questionar as minhas certezas, a ver o cinema através dos olhos de outra pessoa.
De que maneira Portugal se apresenta hoje como um chão fértil à produção?
Acredito que temos hoje uma matéria-prima extraordinária: talento, excelentes equipas, uma tradição autoral muito forte, diversidade de paisagens e uma geração que já pensa naturalmente para além das nossas fronteiras. Temos também demonstrado que conseguimos receber e executar produções internacionais de grande dimensão. O que ainda nos falta, na minha opinião, é uma verdadeira estratégia para o audiovisual. Uma visão de médio e longo prazo que permita desenvolver esse talento, dar-lhe escala e criar condições para que as histórias que nascem em Portugal possam chegar ao mundo. O apoio público é absolutamente essencial num país da nossa dimensão e deve continuar a sê-lo. Mas não podemos depender exclusivamente dele. Precisamos também de construir indústria, atrair investimento, fortalecer produtoras, criar propriedade intelectual, encontrar novas formas de financiamento e coprodução e pensar seriamente na distribuição e na relação com o público. Porque não basta criar condições para fazer um filme. É preciso criar condições para que esse filme seja visto.
Onde entra o Brasil (e o cinema brasileiro) na tua história profissional?
O Brasil entrou na minha vida muito antes de eu conhecer o país. Era ainda muito pequeno e já o Brasil circulava pela minha casa. Lembro-me de me sentar ao lado da minha avó a ver novelas como Tieta do Agreste ou Roque Santeiro. As aberturas dessas novelas traziam sempre músicas icónicas e, com as personagens e os seus sotaques, vinham os muitos Brasis. A minha mãe escutava muito Gal Costa, Maria Bethânia, Rita Lee, Caetano Veloso e tantos outros. Foi assim que o Brasil foi entrando em mim, moldando o meu ouvido e criando um imaginário. Mais tarde, quando fui viver para o Japão, essa presença ganhou uma nova dimensão. Alguns dos melhores amigos dos meus pais eram brasileiros, e lembro-me de ouvir música brasileira cantada não apenas por eles, mas também por pessoas de diferentes países da América Latina e até por japoneses. O karaoke fazia parte desses encontros, era um momento de libertação. E havia, claro, o futebol. Como Portugal raramente chegava longe nas grandes competições, torcíamos pelo Brasil. Foi no Japão, aos oito anos, que recebi a minha primeira verde e amarela da seleção brasileira. Ainda tenho fotografias desse momento. Depois veio o cinema.
Como o cinema brasileiro te contagiou?
Na adolescência, lembro-me do impacto de Terra Estrangeira, Central do Brasil e, mais tarde, de Cidade de Deus. Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles e Kátia Lund, e a descoberta do cinema de Eduardo Coutinho foram particularmente transformadoras. A forma como Coutinho se aproximava das pessoas, como as escutava e permitia que alguém se revelasse diante de uma câmara continua a ser uma referência muito importante para mim. Mais ou menos entre 2004 e 2009, morei no Rio de Janeiro. E foi nessa etapa, quando comecei a minha imersão no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, para realizar o meu primeiro filme, Complexo: Universo Paralelo, que tudo mudou. Foi uma experiência extraordinária, não apenas cinematograficamente, pelas dificuldades e desafios de realizar um documentário praticamente sem apoios, mas sobretudo pela dimensão humana que tive a oportunidade de viver. Entrei em contacto com realidades que desconhecia, com pessoas e histórias que me obrigaram constantemente a questionar o que julgava saber. Comecei a compreender melhor as muitas realidades que coexistem numa mesma cidade, as contradições humanas, as relações de poder, a forma como as narrativas são construídas e como a realidade pode ser tão diferente consoante o lugar de onde a observamos. Por tudo o que vivi no Brasil, pelos amigos, por tudo o que pude aprender, regressar agora ao Festival do Rio com Maria Vitória tem um significado muito especial. Esta relação com o Brasil continua muito viva nos projetos que estou a preparar. Em As Mulheres do Meu Pai, adaptação do romance de José Eduardo Agualusa, vou trabalhar com Taís Araújo como protagonista e com atores de diferentes geografias da língua portuguesa. É uma viagem que atravessa Angola, a África Austral e Moçambique, mas também um encontro entre sensibilidades brasileiras, africanas e portuguesas. E entusiasma-me muito pensar no que vou aprender ao longo do processo. Quanto mais conheço o Brasil, mais compreendo Portugal. E quanto mais conheço Portugal, mais entendo o Brasil. O mesmo acontece com Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e tantos outros lugares ligados pela língua portuguesa. Acho que é nessa mistura de culturas, memórias e sotaques da língua portuguesa que eu mais me sinto em casa.
Quais serão os próximos caminhos?
Estou a trabalhar em dois projetos de longa-metragem que me entusiasmam muito. As Mulheres do Meu Pai, a partir do romance de José Eduardo Agualusa, está já numa fase avançada de desenvolvimento. Simultaneamente, estou a trabalhar na adaptação de O Afinador de Silêncios, de Mia Couto, publicado no Brasil com o título Antes de Nascer do Mundo. É um universo que me fascina profundamente, onde a memória, a ausência, a imaginação e o realismo mágico se encontram. Tenho também algumas histórias originais que quero desenvolver nos próximos anos. Mas não quero limitar-me a escrever e realizar os meus próprios projetos. Interessa-me muito a possibilidade de encontrar produtores, argumentistas e outros criadores que tenham histórias para contar e procurem um realizador capaz de lhes trazer uma visão própria. Acho que esses encontros podem ser extraordinariamente estimulantes. Gosto da ideia de entrar num universo que não nasceu necessariamente de mim e descobrir o que podemos construir juntos. E quero também explorar a realização de novas séries. Tenho alguns projetos em desenvolvimento nessa área, mas estou igualmente aberto a integrar outros universos criativos. O cinema continuará a ser o meu território principal, mas não quero que os formatos ou as geografias limitem aquilo que posso experimentar. Quero preservar a curiosidade pelo mundo, encontrar pessoas que me desafiem, que me obriguem a questionar as minhas certezas e que me permitam continuar a expandir o meu entendimento sobre aquilo que somos. E quero que o amor continue presente em tudo o que faço, enquanto possibilidade de aproximação, de empatia, de reconhecimento do outro.
Como avalias essa relação com a empatia no cinema?
Vivemos um tempo em que parece cada vez mais difícil escutar quem pensa de maneira diferente. Há uma tendência para nos refugiarmos em certezas, para nos afastarmos uns dos outros e para reduzirmos a complexidade do mundo a posições extremas. Não acredito que o cinema tenha de oferecer respostas ou ensinar alguém a pensar. Mas acredito profundamente na sua capacidade de nos aproximar de uma experiência que não é a nossa e, por instantes, permitir-nos olhar o mundo através dos olhos de outra pessoa. Quero que os meus filmes continuem a ser um espaço de encontro, de dúvida, de diálogo e de amor.

