O realizador francês Stéphane Brizé, conhecido por obras como “A Lei do Mercado“, “Em Guerra” e “Um Outro Mundo”, acaba de concluir as filmagens da sua nova longa-metragem, intitulada “Un bon petit soldat“, onde volta a mergulhar nas tensões do mundo do trabalho. O filme centra-se na trajetória de Carla, uma nova funcionária do departamento de recursos humanos numa companhia de seguros, interpretada pela atriz italiana Alba Rohrwacher. Movida pelo ideal de conciliar o bem-estar dos trabalhadores com os exigentes objetivos de produtividade da empresa, Carla vê-se gradualmente encurralada numa linha cada vez mais ténue entre ética e obediência.
“É um filme que se passa numa empresa. A única coisa que posso dizer é que, apesar de questionar certas coisas como em “A Lei do Mercado“, “Em Guerra” e “Um Outro Mundo”, é um filme que procura entender como sem dar uma ordem direta conseguimos obrigar alguém a fazer algo”, disse o cineasta ao C7nema sobre este projeto. “Isto vai até ao coração do liberalismo, que é um sistema altamente brutal, quer para quem dá as ordens, quer para quem as recebe. “A Lei do Mercado“, “Em Guerra” e “Um Outro Mundo” foram construídos com uma ideia de “raiva”, mas à medida que cresci e, apesar de ainda ter em mim essa “raiva” além da melancolia, existe agora uma abordagem mais irónica à indecência. Os filmes anteriores eram muito diretos, este é mais cáustico e tem mais cinismo. Em vez da competitividade, o lucro é o foco. E o lucro nunca vai ter em conta o lado humano. Existe uma ilusão no liberalismo. Este cria ferramentas para manter o seu sistema sem fim, sem responsabilidades enquanto sistema. Ferramentas essas que nunca põem em causa o sistema, a matriz, mas sim os indivíduos em si e a sua culpa individual de um eventual fracasso. Muita gente pode pensar que o que digo é extremamente ideológico, de extrema esquerda, mas para mim é algo orgânico. O Liberalismo carrega nele um discurso de vitoriosos. O Macron carrega nele esse discurso. ‘Nós queremos, nós podemos’. Se não conseguires, a culpa é tua e não do sistema. É isso que vou mostrar no meu novo filme. Se não triunfas na tua empresa, a culpa é tua. A culpabilização dos trabalhadores de não serem felizes nas empresas. É indecente. Este mundo é indecente e participamos nele, quer queiramos ou não”.
No elenco principal de “Un bon petit soldat“, Brizé conta novamente com Vincent Lindon, um dos seus colaboradores mais fiéis. A par de Rohrwacher, que trabalhou com Brizé em “A Vida entre Nós”, Lindon dá corpo a uma figura central no ambiente corporativo, explorando as contradições de quem gere pessoas num sistema impiedoso. A completar o elenco está Sharif Andoura, ator em ascensão recentemente visto em “Les jeunes amants“, além de “A Vida entre Nós”.
O filme encontra-se atualmente em fase de pós-produção, sem data de estreia ainda anunciada, mas é de prever uma estreia no próximo ano em Berlim ou Cannes.

