DAU: “O cinema torna visível coisas invisíveis”, afirma Ilya Khrzhanovsky

Existe em DAU uma espécie de Oppenheimer russo, embora Ilya Khrzhanovsky esteja muito menos interessado em responder a Christopher Nolan do que em dissecar, através da ciência, a anatomia de uma experiência totalitária. Tendo como figura central Lev Landau, Nobel da Física e um dos grandes nomes da ciência soviética, o filme atravessa quatro décadas, de 1928 a 1968, acompanhando-o num instituto secreto da União Soviética, onde a investigação é colocada ao serviço do desenvolvimento da bomba atómica e onde os mecanismos de controlo do Estado invadem progressivamente a vida quotidiana. Com 217 minutos, DAU terá neste sábado, dia 10, às 17h, no Estação Claro Rio 4, em Botafogo, uma sessão com a presença de Khrzhanovsky e debate.

Nascido em Moscovo, em 1975, filho do reconhecido realizador de animação Andrei Khrzhanovsky e neto do artista e ator Yury Khrzhanovsky, Ilya estudou na Academia de Belas-Artes de Bona e no Instituto Gerasimov de Cinematografia. A sua relação com a Rússia contemporânea, porém, passou da reflexão artística à rutura política: o cineasta abdicou da cidadania russa depois de divergências com o Governo de Vladimir Putin e estabelece uma linha direta entre mecanismos de poder herdados da experiência soviética e a Rússia atual. Em DAU, essa reflexão ganha uma escala monumental, mas é construída também a partir de relações íntimas, desejos, medo, sexo, privilégios e pequenas concessões.

Vencedor do Leão de Prata de Melhor Realização no Festival de Veneza de 2026, Khrzhanovsky acredita que o cinema deve ser, antes de tudo, uma experiência. Daí a duração, o trabalho com personalidades reais em lugar de intérpretes convencionais, a improvisação e a tentativa de apagar a fronteira entre reconstrução histórica e presente. Para ele, ciência, arte, religião e xamanismo partilham uma mesma ambição: tornar visível aquilo que permanece invisível. É dessa zona de mistério — onde passado, presente e futuro parecem coexistir — que nasce a sua conceção de cinema.

Em entrevista ao C7nema, Khrzhanovsky fala sobre essa força misteriosa que rege a criação artística, a experiência soviética, a improvisação radical de DAU e a capacidade da arte para produzir sensações que as palavras não conseguem explicar. Depois da sessão deste sábado, a longa-metragem terá mais uma exibição em solo carioca, já na prorrogação do Festival do Rio: quarta-feira, dia 14, às 15h, no Estação Claro Gávea 5.

Ilya Khrzhanovsky em Copacabana – Crédito da foto: Rodrigo Fonseca

DAU tem 217 minutos. Numa indústria que durante décadas condicionou a duração dos filmes às necessidades de distribuição e exibição, por que razão é tão importante preservar o tempo de uma experiência cinematográfica?

O cinema é, de certa forma, vítima de um sistema de distribuição que está a morrer, um sistema em que é preciso ter uma determinada duração para o filme e depois encaixar a publicidade como parte dessa máquina. Mas, ao mesmo tempo, começamos a ver cada vez mais filmes longos, muito longos, por vezes com oito horas, outros com três. Tudo está em transição. A ópera pode durar três, quatro ou até cinco horas e isso é aceite. O mesmo acontece com uma peça de teatro. Para mim, o cinema é uma experiência. É por isso que tento partilhar uma experiência, oferecê-la ao público. Fiz este filme sobre o presente e sobre o futuro, embora tenha utilizado uma moldura histórica e um material que conheço: o material soviético. Não conheço, por exemplo, o período da ditadura no Brasil, mas tenho a certeza de que existem muitas coisas em comum: a máquina totalitária, o comportamento humano, as escolhas, o perigo, os desejos, os talentos. Não podemos escolher onde nem em que momento da História vamos nascer.

Os diálogos de DAU têm momentos de uma força quase literária, embora o filme pareça recusar a submissão do cinema à palavra. Até que ponto essas conversas foram escritas?

Foi tudo improvisado. Tudo. É por isso que era tão importante ter grandes personalidades, personalidades reais. Elas ensaiaram durante toda a vida antes de chegar ao dia em que as filmei. Queria pessoas geniais para interpretar pessoas geniais e criminosos para interpretar criminosos. Era também fundamental encontrar pessoas dispostas a abrir-se diante da câmara. Para os figurantes, por exemplo, fizemos casting de centenas de milhares de pessoas. Os rostos e a linguagem corporal mudam de acordo com uma época, com a tensão política, com os grupos sociais que chegam ao poder ou desaparecem dele.

Há uma dimensão espiritual em DAU que ultrapassa a biografia de um génio científico. Ciência e cinema procuram ambas revelar aquilo que não conseguimos ver?

Penso que a ciência, a arte, a religião e, na verdade, também o xamanismo fazem o mesmo trabalho. Tentam tornar visíveis coisas invisíveis, de uma forma ou de outra. E tenho a certeza de que no Brasil as pessoas compreendem isso. Senti-o imediatamente quando cheguei. Há aqui uma ligação muito forte com o mundo espiritual, diferentes relações com a religião, com o xamanismo, com a natureza, com as forças. Na cultura europeia do Renascimento, essa ligação foi quase perdida em determinado momento. Ela existe, mas desapareceu da vida quotidiana. Sabemos através da ciência, mas também de diferentes experiências espirituais, que passado, presente e futuro podem existir ao mesmo tempo, e que existem diferentes versões da vida. Há forças diante das quais temos uma escolha e outras que são maiores do que a nossa escolha, maiores do que o ser humano.

Essa fronteira quase inexistente entre realidade e não-realidade parece essencial ao seu cinema. É aí que reside o mistério da arte?

Existe uma fronteira muito ténue, quase inexistente, entre a realidade e a não-realidade, entre aquilo que acreditamos estar historicamente muito distante de nós e aquilo que está a acontecer agora. Nem sequer sabemos quanto mudámos nos últimos 15 minutos. Somos já pessoas diferentes. Se olharmos para seres humanos que viveram há 300 mil anos, eles também traíam, venciam, perdiam, sentiam ciúmes e riam. Numa perspetiva maior, o tempo como acontecimento não existe. É essa sensação que tento transmitir. Procuro construir uma história com a qual se possa estabelecer contacto em diferentes níveis. Depende de quem somos e de quão longe queremos ir.

Cresceu dentro da União Soviética e tinha 16 anos quando ela acabou. Qual é a primeira sensação que guarda daquele mundo que agora reconstrói?

O meu pai é um conhecido realizador de animação e era uma espécie de dissidente. O filme dele foi o único filme de animação proibido durante o período soviético. Os seus melhores amigos eram artistas dissidentes, artistas proibidos, pessoas que não tinham autorização para trabalhar e que hoje estão entre os nomes mais reconhecidos daquela parte do mundo. A minha principal sensação era o medo. O cinzento. E as filas. Tenho uma reação quase alérgica quando vejo uma fila, porque sinto que passei semanas, meses da minha vida nelas. As crianças eram mandadas para as filas para conseguir pão, carne, qualquer coisa. Isso tornou-se uma espécie de trauma.

O cientista que estrela DAU

Vladimir Putin é uma consequência da História vivida pela população soviética, como um efeito colateral da URSS no tempo?

Claro. Acho que o grande problema é que, depois do colapso da União Soviética, a transição foi suave demais. A estrutura anterior nunca foi realmente enfrentada. Na Praça Vermelha ainda existe o túmulo de Stalin, onde se podem colocar flores, e o corpo de Lenin continua lá. O KGB e o Partido Comunista nunca passaram por um verdadeiro processo de responsabilização. Imagine se, na Alemanha, ainda houvesse um túmulo de Hitler onde fosse possível levar flores. Seria inimaginável.

A sua própria família colocou-o muito cedo em contacto com artistas perseguidos. Quanto dessa memória pessoal alimenta a violência histórica de DAU?

O meu padrinho foi Sergei Yermolinsky, argumentista e amigo muito próximo de Mikhail Bulgakov. Depois da morte de Bulgakov, foi preso porque Estaline pretendia construir um grande processo contra a intelligentsia. Tentou suicidar-se na prisão e passou muitos anos impedido de regressar normalmente a Moscovo. Mais tarde tornou-se um argumentista estabelecido e respeitado, mas, mesmo já idoso, sempre que via um polícia começava a tremer. Um irmão da minha avó passou 20 anos preso. Conheci pessoas que foram envenenadas, pessoas que passaram anos na prisão. Quando isso faz parte da sua vida, o perigo torna-se quase uma coisa comum. Um amigo disse-me uma vez que existe apenas uma camada muito fina de civilização sobre a realidade e que podemos retirá-la num segundo. Acho que o sistema totalitário soviético não era uma maneira civilizada de viver. Mas durou tanto tempo que começámos a acreditar que aquilo era civilização.

Depois de uma experiência tão gigantesca como DAU, por que continua a fazer arte? O que acredita que ela consegue mudar?

Faço alguma coisa. Nem sequer sei se aquilo que faço se chama “filmes”. Para este projeto, o cinema foi a forma que acreditei que poderia funcionar. A arte não consegue mudar a vida, mas pode provocar alguma coisa, fazer-nos sentir algo que não precisamos — ou não conseguimos — explicar através das palavras. E isso pode ajudar-nos a tomar decisões nas nossas vidas capazes de manter este mundo um pouco melhor. Penso naquela ideia famosa da borboleta e do movimento das suas asas. Acho que todos os artistas tentamos ser essa espécie de borboleta. Com o movimento das nossas asas, queremos manter o mundo mais belo e mais seguro. Algumas pessoas acreditam que, para o tornar seguro, devemos falar apenas de coisas positivas. Eu penso o contrário: precisamos de saber que o mal não existe apenas algures, fora de nós. Ele existe dentro de nós, e é dentro de nós que essa luta acontece.

E onde entra Deus nesse mistério?

O que é Deus? No judaísmo, é um nome que não se pronuncia. Não podemos descrevê-lo de uma maneira visual ou figurativa. Para mim, Deus é amor. É a única força que o representa aqui: amor e bondade. Não posso dizer que acredito em Deus. Acreditei em Deus quando era jovem. Agora sei que Deus existe. Não acredito: sei. E penso que a própria arte, se for realmente arte, é uma espécie de prova. Se alguma coisa acontece através de nós, isso também é uma demonstração de que existem outras dimensões, não menos importantes do que aquela em que estamos. Mas temos de agir nesta dimensão.

Depois de DAU, ainda há outro filme de Ilya Khrzhanovsky por vir?

Por agora, acho que terminei com o cinema. Tenho outras ideias, mais ligadas a experiências imersivas. Mas quem sabe? E existem outros filmes de DAU que espero que venham a ser lançados. Espero que sim.

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