Há uma vitalidade particularmente saborosa no atual cinema espanhol quando este decide conversar sem pudores com as cartilhas do género. A comédia, o thriller, o terror e, sobretudo, o melodrama deixaram de funcionar como compartimentos estanques para se transformarem em ingredientes de uma cozinha autoral cada vez mais atrevida. Pedro Almodóvar fez dessa mistura uma gramática durante décadas, produzindo aquilo a que Caetano Veloso chamou, com precisão afetuosa, “almodramas”. Agora, realizadores mais jovens assimilam essa herança sem necessariamente imitarem o manchego. Roberto Bueso é um deles e El mal padre, terceiro título da sua filmografia e um dos concorrentes mais vivos e empolgantes à Concha de Ouro de San Sebastián em 2026, demonstra como o melodrama ainda pode ser usado para falar de uma Espanha que envelheceu, mudou de costumes e continua sem saber exatamente como homens e pais devem dizer “amo-te”.
Uma iguaria resume essa operação. Um prato de anchovas mergulhadas em azeite surge como pequeno milagre sinestésico num filme em que comida, mar, corpos, ressentimentos e lembranças parecem possuir cheiro e textura. Bueso procura essa fisicalidade desde cedo, ajudado pela fotografia dionisíaca de Álex Catalán, que faz da luz mediterrânica menos um postal da Comunidade Valenciana do que um estado emocional. Há sol, pele, comida, vinho e mar, mas também uma decomposição afetiva escondida nessa abundância. A imagem seduz antes de deixar aparecer a ferida.
Santiago Balmes (Eduard Fernández) é um escritor célebre e académico que, depois de anos de afastamento, convoca os três filhos para um último pedido: quer passar o Natal com eles na casa costeira onde a família costumava veranear quando eram crianças. O convite contém uma bomba-relógio. Os filhos nunca digeriram verdadeiramente o abandono do pai, que trocou a família por outra mulher, e regressar àquele espaço significa entrar num depósito de ressentimentos. Alberto, o mais novo, encontra-se ainda por cima prestes a tornar-se pai, condição que transforma o reencontro numa espécie de tribunal íntimo sobre aquilo que recebemos dos nossos progenitores e aquilo que prometemos não repetir.
É aí que Eduard Fernández se agiganta. Um ator que sempre procura uma diagonal para fugir ao óbvio — basta recordar o extraordinário trabalho de El 47 (2024) — encontra em Santiago uma oportunidade para redesenhar o arquétipo do homem espanhol clássico: culto, autoritário sem precisar de levantar constantemente a voz, sedutor, egoísta, incapaz de verbalizar determinadas emoções e, no entanto, demasiado inteligente para ignorar os estragos que deixou atrás de si. Fernández recusa a facilidade de converter esse “mau pai” num monstro ou, no sentido inverso, num velhote adorável à espera do perdão. Há qualquer coisa de irritantemente íntegra na maneira como Santiago continua a ser Santiago mesmo quando percebe o preço das suas escolhas.
Isso é fundamental porque El mal padre poderia ter descambado facilmente para o melodrama da absolvição. Não descamba. Bueso e Óscar Díaz escrevem uma história de redenção sem exigir conversões miraculosas. Ninguém precisa de mudar de personalidade para que o afeto volte a circular. Ninguém se ajoelha perante as exigências morais do outro. As mágoas não evaporam porque chegou o terceiro ato e a música de Raquel Sánchez avisa que está na hora de chorar. Existem apenas aproximações e tréguas possíveis, aquilo que seres humanos imperfeitos conseguem oferecer uns aos outros quando finalmente percebem que o tempo disponível pode ser menor do que o rancor acumulado.
O mérito maior de Bueso está nessa recusa da chantagem. O melodrama permanece caudaloso, mas não exige submissão. Andrés Gil monta as duas horas com uma fluidez que permite ao filme oscilar entre o humor e a dor sem transformar cada revelação numa sentença. E Catalán responde com uma fotografia voluptuosa, quase tátil, que compreende como a beleza pode ser simultaneamente acolhedora e cruel: aquela casa guarda férias felizes precisamente porque também guarda tudo aquilo que veio depois.
Adam Jezierski, Francesco Carril, Meritxell Calvo e Cristina Plazas orbitam um Fernández avassalador sem serem reduzidos a satélites. São necessários porque El mal padre não fala exatamente de um homem em busca de perdão. Fala da distância entre aquilo que um pai acredita ter sido e aquilo que permanece dele na memória dos filhos. É uma diferença brutal.
Talvez seja por isso que aquelas anchovas importem tanto. Preservadas naquele azeite translúcido, conservam sabor, textura, sal e passado. Não voltam a ser aquilo que eram antes. Nem precisam. El mal padre entende a família da mesma maneira: não há restauração possível, apenas a hipótese de voltar a sentar-se à mesma mesa. No melodrama espanhol de Bueso, reconciliar-se não significa esquecer. Significa descobrir quanto amor ainda cabe dentro daquilo que não tem conserto.



















