Olivier Assayas e “O Mago do Kremlin”: “Nunca quis tornar o poder sedutor. Quis mostrar a sua brutalidade e crueldade”

O Mago do Kremlin estreou a 12 de março

Acabado de chegar aos cinemas nacionais a 12 de março, O Mago do Kremlin (The Wizard of the Kremlin) segue uma linha clara na filmografia de Olivier Assayas que cruza o cinema com a política do mundo real. 

O realizador já tinha explorado esse território em Carlos (2010) e Wasp Network (2019), mas, durante uma conversa com jornalistas em Paris, no Rendez-Vous da Unifrance (13 a 20 de janeiro), Assayas explicou que foi particularmente difícil garantir financiamento para este projeto, baseado no romance de Giuliano da Empoli.  “Muitos estúdios americanos fazem negócios com a Rússia. Houve obstáculos económicos importantes, mas não autocensura na escrita”, disse o cineasta, acrescentando que o que o fascinou no livro que serviu de base para o filme foi a forma nova como fala do poder e das transformações da política contemporânea. “Ele capta algo que o cinema raramente conseguiu apreender: as mutações profundas e inquietantes do mundo político”.

O Mago do Kremlin constrói um retrato ficcional da ascensão de Vladimir Putin, interpretado por Jude Law, e da engrenagem de manipulação política que o rodeia. No centro da narrativa está Vadim Baranov, personagem fictícia inspirada em Vladislav Surkov, interpretada por Paul Dano.

Assayas revelou que teria preferido filmar em russo e na própria Rússia, mas que isso era inviável: “Não tivemos acesso à Rússia, nem a arquivos, nem a atores russos — teriam sido proibidos de trabalhar no dia seguinte. Para um filme desta escala, ou se filmava em inglês ou não se fazia. Tenho a sensação de que existe uma continuidade no meu percurso. Filmes como Carlos ou Wasp Network são também filmes políticos e, ao mesmo tempo, filmes de género. O Mago do Kremlin é talvez mais romanesco e mais concetual, mas quando me envolvo num projeto desta ambição sei bem no que me estou a meter”.

Segundo Assayas, “a relação entre Baranov e Putin é o coração do filme”, um encontro entre uma liderança brutal de raiz pré-moderna e mecanismos pós-modernos de manipulação mediática. O cineasta aponta ainda como referência A Tomada do Poder por Luís XIV, de Roberto Rossellini, destacando a forma como o filme mostra a construção simbólica do poder. “Nunca quis tornar o poder sedutor. Pelo contrário, quis mostrar a sua brutalidade e crueldade da forma mais rigorosa possível”, afirmou. “A política é uma esfera abstrata onde o humano e o ideológico nem sempre coincidem. Podemos encontrar pessoas fascinantes com ideias profundamente erradas. Essa tensão interessa-me mais do que qualquer moral simplista”.

Questionado sobre paralelos com Donald Trump, Assayas foi direto: “Trump adotou métodos políticos desenvolvidos e testados pela Rússia de Putin. Ver a democracia americana degradar-se dessa forma é profundamente inquietante.”

Já a trabalhar num novo projeto, o realizador de filmes como Irma Vep (1996; série em 2022) e Personal Shopper (2016) diz que vai voltar a rodar em inglês, mas garante que “não tenciona limitar-se ao cinema anglófono” e que “cada projeto dita a sua própria língua”.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/uj6c