Emmanuel Patron fala de “Queridos Pais”: “O dinheiro pode destruir uma família amorosa”

Nos cinemas a 16 de abril

Nascido a partir de um enorme sucesso teatral, Chers parents (Queridos Pais) chega aos cinemas portugueses a 16 de abril depois de ter conquistado em França mais de 800 mil espectadores.

Emmanuel Patron – Foro por Marie Rouge / Unifrance

Com a ambição de preservar a energia da cena, mas também de a expandir num registo mais íntimo e cinematográfico, esta adaptação escrita e realizada por Emmanuel Patron parte de uma premissa simples: o impacto do dinheiro numa família aparentemente unida, mas onde convivem simultaneamente afetos, dependências, ressentimentos e rivalidades. “Na nossa história, chega muito dinheiro de repente e ninguém está preparado. Escrevemos a peça sem pensar numa comédia, mas mais como drama familiar. Mas no teatro, as pessoas riram-se muito”, explicou-nos o realizador, em Paris, numa entrevista em janeiro.

Transferindo o huis clos teatral para um espaço aberto no sul de França, Patron transforma a casa familiar num verdadeiro campo de batalha, um “saloon” onde se acertam contas, com um elenco que cruza nomes consagrados como André Dussollier e Miou-Miou, juntamente com uma geração mais jovem.

Foi nesse contexto que conversámos com o cineasta em estreia, que nos falou sobre a origem do projeto, a adaptação do teatro ao cinema e o delicado equilíbrio entre comédia e drama.

O trailer do filme entrega demasiados elementos da história. Isso incomoda-o?

Quando o vi, pensei: estamos a dar tudo o que temos. Disse isso, porque achei mesmo isso. Não vendemos o fim do filme, mas vendemos muita coisa, o essencial das surpresas, do desenrolar. E o departamento de marketing — que é muito forte, muito bom — disse-me que não havia problema, que o público precisa dessa informação, precisa de “alimento” para ter vontade de ir ver o filme.

Mas sim, isso foi discutido. Quando vi, pensei: estamos a contar tudo, até o valor ganho. Concordo consigo, mas eles convenceram-me, porque é o trabalho deles. Não tenho essa competência. O meu instinto dizia: está tudo lá, a história está toda. Mas pronto, dizem que assim as pessoas ficam com vontade de ver como acontece.

Olhando para o filme, há elementos que nos levam a outras comédias francesas, como o Mes très chers enfants.  

Sim, no Mes très chers enfants (2020) os pais fingem que ganharam a lotaria para os filhos voltarem. Quando começámos, pensámos: isto já existe, estamos lixados. Mas afinal não, porque não é nada a mesma história. Nós falamos de uma família que se ama, ao contrário desse filme, onde eles se detestam e são odiosos. No nosso caso, amam-se mesmo.

A origem da peça de teatro que depois originou este filme vem de mim e da minha irmã. Somos quatro irmãos, tivemos uma infância muito feliz, mesmo ideal. E perguntámo-nos: o que poderia fazer explodir uma família assim? O dinheiro… bingo.

Miou-Miou e André Dussollier

Sempre que falávamos disso, toda a gente tinha histórias: heranças que destruíram famílias, irmãos que deixaram de se falar. Percebemos que o dinheiro é uma bomba. Mesmo em famílias inteligentes, cria problemas enormes.

Na nossa história, chega muito dinheiro de repente e ninguém está preparado. Escrevemos a peça sem pensar numa comédia, mas mais como drama familiar. Mas no teatro, as pessoas riram-se muito. Diziam-nos: não ríamos assim desde o Le dîner de cons (Jantar de Idiotas). Então ajustámos ligeiramente o enredo… e correu bem.

O que nos interessa é a impermanência dos sentimentos, mas também a beleza da família. No teatro eram três filhos que enlouqueciam, no cinema são cinco. A ideia veio daí: o que pode provocar um conflito numa família.

O dinheiro ainda é um tabu nas famílias?

Sim, em França é um tabu enorme. Perguntar quanto alguém ganha é complicado. Na peça até há uma cena sobre isso: o filho pergunta e o pai responde que não se fala disso à mesa.

Isso diverte-nos. O tabu do dinheiro, mas também a boa consciência, ajudar os outros… há sempre algo ambíguo aí. Até gozamos um pouco com os nossos pais, que eram muito envolvidos no humanitário, muito de esquerda.

Mas curiosamente funciona internacionalmente. A peça já foi apresentada em vários países, vai para Hong Kong. O tema passa.

Acha que o dinheiro pode destruir uma família?

Sim. Em França ainda não sabemos lidar bem com isso. O dinheiro é o nervo da guerra, pode destruir uma família amorosa.

No nosso filme, ao início, os filhos estão genuinamente preocupados com os pais, acham que estão doentes. Estão mesmo aflitos. E quando percebem que está tudo bem, ficam aliviados… e depois tudo explode.

Eles são um pouco arquétipos, exagerados, claro, é uma comédia. Mas também há essa ideia de regressar à casa de infância.

A casa onde a ação se desenrola tem um papel importante? Como trabalharam esse local.

Quando voltamos à casa dos pais, voltamos a ser crianças. Eu, aos 45 anos, voltava e deixava de fazer tudo — não lavava a louça, não fazia nada. Voltamos a esse papel.

Pauline Clément, Arnaud Ducret, Thomas Solivérès

Isso infantiliza-nos. E no filme exploramos isso: os quartos, os objetos, as memórias. No cinema, ao contrário da peça de teatro, abrimos o espaço. Entramos nas divisões, sentimos a casa.

E como pensou o casting?

Para os pais, pensei logo em André Dussollier, pois ele traz com ele uma imagem de autoridade e humor. Quanto à Miou-Miou, ela tinha uma fragilidade ambígua muito interessante.

Não queria atores de comédia, para não cair em clichés. Queria atores mais dramáticos, e que a comédia viesse da situação e do texto.

O papel do Pierre, no filme, foi escrito para si?

Sim, no início. Depois foi interpretado por outros. E é curioso: roubei coisas ao Arnaud Ducret depois de o dirigir. Uma personagem só existe através do ator que o interpreta. Cada versão é diferente.

Há planos para uma continuação?

Para já, não. Talvez, se houver uma boa ideia. Fazer uma sequela ou mais filmes só faz sentido se houver matéria forte. Este filme levou um ano a escrever, e a adaptação foi muito difícil. Tivemos de destruir a peça para fazer o filme, mantendo a essência.

Como correu a sua primeira experiência como realizador?

Foi o melhor momento da minha vida. Ver 70 pessoas todos os dias a trabalhar para um filme que imaginaste… é extraordinário. É um trabalho coletivo. Toda a gente contribui. Isso é mágico.

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