E se os filhos soubessem tudo o que os pais dizem e fazem ao longo do dia? Essa é a provocadora premissa de What Marielle Knows, filme de Frédéric Hambalek que, depois de passar pela Berlinale, chega agora ao Festival do Cairo.
A história começa com uma poderosa bofetada no rosto de Marielle (Laeni Geiseler), uma adolescente de 13 anos que, a partir desse momento, adquire o estranho poder — ou maldição — de ouvir e ver tudo o que os pais fazem, mesmo à distância. O dom transforma-se rapidamente num pesadelo doméstico: os adultos, subitamente privados de intimidade, vivem num estado permanente de tensão, como se a própria casa tivesse paredes de vidro.
Falámos com o realizador Frédéric Hambalek sobre um dos títulos mais inquietantes e inesperados do ano.

Uma pergunta muito simples para começar — é pai?
Sim. Costumo dizer que, quando comecei a escrever o filme, não tinha filhos; agora tenho dois. Portanto, demora muito tempo a fazer um filme. E são pequenos, claro — a minha filha tem quase três anos agora.
Quando comecei ainda não tinha filhos, mas, claro, eu próprio já tinha sido uma criança, por isso conhecia essa perspetiva. À medida que escrevia, comecei a inclinar-me mais para a perspetiva dos pais. Ao desenvolver o guião, trouxe alguns medos novos que não tinha antes. Por exemplo: como é que os meus filhos me vão ver? Será que vão gostar de mim como pessoa? São perguntas que nos podem enlouquecer um pouco.
Originalmente, como o título inclui “Mariella”, pensei que a veríamos mais no filme — mas, na verdade, não a vemos assim tanto. Aparece no início, um pouco ao longo do filme, e depois naquela cena final maravilhosa.
Mas o filme é muito contado da perspetiva dos pais. Isso foi sempre assim, ou evoluiu durante o processo?
Não, não foi sempre assim. No início, tinha mais a perspetiva da Marielle. Não com o mesmo peso, mas mais do que no resultado final. Quando me tornei pai percebi que seria mais interessante deixar de fora o ponto de vista dela.
Deixá-la como uma espécie de “caixa negra” que os pais têm de decifrar. E assim o público enfrenta o mesmo problema que eles — os pais não podem provar nada, só podem acreditar no que ela diz. Achei que isso seria mais interessante, por isso cortei quase toda a perspetiva da menina.
Existem diferentes interpretações do filme. Uma é sobrenatural — que a rapariga tem superpoderes. Mas pode ser outra coisa, até tecnologica. É essa a ideia? Para onde é que o espectador deve ir?
Interessante — ninguém me tinha perguntado isso. A maioria das pessoas assume logo que há um poder sobrenatural. Posso dizer que, ao escrever, enfrentei logo esse desafio: “como é que ela faz isto? Será tecnológico?” Não queria distrair-me com tecnologia das coisas que eram realmente importantes para mim — perguntas como “como se comportariam as pessoas?” e “quais são as questões existenciais envolvidas?”.
Por isso optei pela via sobrenatural. Mas, ao executar, deixei ambiguidade suficiente para não ficar provado que é algo realmente sobrenatural. Pode-se argumentar que há outra explicação. Está em aberto. Mas, enquanto escrevia, não queria pensar em tecnologia.
E também não queria que o público pensasse nisso. Não é o mais importante.
Porque é que o estalo o ponto de partida, que desencadeia essas capacidades?
Boa pergunta. Já nem me lembro exatamente do que me levou a isso. Acho que queria algo com uma implicação física — algo a que os pais se pudessem agarrar. Algo tipo: “meu Deus, ela foi magoada, aconteceu-lhe algo”.
Queria que houvesse uma causa possível, algo que desse aos pais uma âncora. Talvez a própria Marielle também o veja assim. Embora, quem sabe quem tem razão?
E há aquelas imagens da Marielle, o vermelho e o grande sol — o que queria expressar com isso? Uma sensação de omnipresença?
Boa imagem, gosto disso. Algumas pessoas já me disseram o mesmo.
Ao fazer o filme, pensei que estas imagens eram como uma condensação da perspetiva infantil no final. Cortei as cenas dela, mas quis deixar algo que representasse o olhar dela. Algo que nos lembrasse da sua presença.
Optámos por imagens muito simples que evocam essa perspetiva, mas também acrescentam uma camada estilística diferente — algo que quebra o realismo do resto do filme. Era essa a intenção.
Tenho de admitir, gosto muito desses capítulos. Ela olha sempre para a câmara, e há algo quase como vigilância nos movimentos — até o vidro no escritório, tudo parece transparente. Era sua intenção criar essa sensação de “estado de vigilância”?
Bem, vivemos neste tempo em que estamos a perder a privacidade, às vezes de formas subtis. Por exemplo, no WhatsApp, aquelas marcas azuis — quando as introduziram, mudaram completamente o meu comportamento. Tive de as desativar porque fiquei paranoico.
Acho interessante pensar como lidamos com isso. E, ao filmar, escolhemos espaços abertos, com vidro, onde as pessoas não se podiam esconder. O mundo moderno é assim — tudo é aberto.
Mas não quis forçar a metáfora. Disse ao diretor de fotografia: “nunca filmes atrás de vidro como num típico filme de terror, com alguém escondido à distância”. Quis que a câmara estivesse perto dos rostos, num estilo muito íntimo.
Por exemplo, quando eles falam francês no quarto, a câmara está muito próxima — é um momento íntimo. Queria esse sentimento: de alguém muito próximo do seu espaço.
Quando é que percebeu que este filme funcionava também como comédia?
Há dois dias. A sério! Estava sentado na estreia e fiquei espantado com o quanto as pessoas riam. Nunca imaginei que rissem tanto. Achei ótimo, hilariante.
Sempre pensei que tinha momentos engraçados, mas não sabia se alguém iria alinhar com o meu humor estranho. Agora, as pessoas estão a vê-lo mesmo como uma comédia. Eu sabia que havia aspetos cómicos, mas também dramáticos e até tristes.
Mas agora parece que é lido como comédia.
Houve algum momento de riso que o surpreendeu?
Deixe-me pensar… Foram quase sempre nos lugares certos, mas surpreendeu-me ver que desde o início, até naquela longa cena de flirt, havia gargalhadas. Percebi que o público estava a captar o meu tom provocador. E adoro quando um filme faz isso.
Normalmente, os pais controlam os filhos, e não o contrário. O mundo está a mudar. Essa inversão é uma mensagem que quis transmitir?
Não é bem uma mensagem, mas é algo interessante. Agora, como pai, percebo que criamos uma ilusão para os nossos filhos: “deves comportar-te assim, não comas chocolate de manhã, partilha as tuas coisas, sê uma boa pessoa, não mintas”.
E nós próprios falhamos redondamente nisso. Então, porque é que criamos essa ilusão? É algo em que penso muito. Ainda não encontrei solução. Tento educar os meus filhos, mas também ser honesto — às vezes a vida é uma luta, e não sabemos bem como agir.
Como escreveu a personagem masculina? Ele começa passivo, depois aceita que a mulher tenha um caso, e termina com humor sobre quem vai dar o estalo.
Sim, não consegui evitar colocar pequenas observações sobre a agressividade masculina e o nosso comportamento — ridículo, engraçado e triste ao mesmo tempo. Escrevi-o como escreveria qualquer personagem feminina: como um ser humano, com falhas. Talvez tenha exagerado algumas fraquezas que reconheço em mim ou em outros.
E sim, sinto-o próximo de mim — ele é escritor, eu também. Quem já esteve numa reunião de feedback sobre o que escreveu sabe como é: de repente, todos se viram contra o autor. Dá pena do tipo.
O filme é honesto, mas também pessimista. Ainda assim, há esperança. Foi difícil equilibrar esses tons?
Sim, muito. Na verdade, nunca contei isto — filmei duas pequenas variações do final. Normalmente nunca faço isso. Uma era mais otimista, outra diferente. Não sabia como seria lido. No fim, escolhi este meio-termo, algo ambíguo, que deixasse o público pensar.
Isso vale para todo o filme — encontrar o equilíbrio entre o meu pessimismo e a ideia de que as coisas podem correr bem. As pessoas interpretam de formas muito diferentes, o que acho ótimo.
Existe uma cena fortíssima para um pai — ouvir de um filho um “Não gosto de ti”. Isso é o pior que um pai pode ouvir?
Sim, sim. Esse é mesmo o meu medo pessoal — que os meus filhos um dia não gostem de mim. Curiosamente, algumas pessoas recusam ver a cena com essa dureza. Dizem “não, isso não pode ser assim”. Negam. Mas conheço famílias em que isso acontece.
Há filhos que realmente odeiam os pais. Essa possibilidade assusta-me.
Também existe um grande tabu: os filhos não querem ver a sexualidade dos pais, e vice-versa. No seu filme, isso aparece. Como concebeu essa cena?
Sim, muito cedo percebi que tinha de lidar com a sexualidade. É um tema enorme. E, como disse, tabu nas famílias. Mas pensei: e se não fosse tabu? Seria assim tão mau? Seriam todos traumatizados? Não sei.
Há famílias muito mais abertas. Nunca vivi isso, mas acho interessante imaginar. Discuti isso com a atriz. Disse-lhe que a personagem devia estar nervosa, desconfortável, talvez fazê-lo por princípio. Mas ela dizia: “não, ela pode se divertir também”. E tinha razão.
A cena acabou por ser complexa, sim, mas também libertadora.
Muitos dizem que “os filmes alemães não são engraçados”. Sentiu vontade de contrariar esse cliché?
Não me incomoda. Acho que há boas comédias em todos os países — e más também. Já vi péssimas comédias francesas. Os britânicos têm um ótimo sentido de humor, é verdade. Mas para mim, um filme deve refletir a vida — e nós, humanos, somos ridículos e engraçados. Penso nisso várias vezes por dia.
Outra reação recorrente: dizem que o filme podia ter um remake americano.
(risos) O meu ator principal também disse isso. É aquele velho reflexo: “só é bom se os americanos refizerem”. Já tentaram com Toni Erdmann, não resultou. Tentaram com Another Round, também não. Espero que nunca o façam com este. Mas pronto, se pagarem bem… (risos)
Recomendaria o filme a adolescentes para ver com os pais?
Engraçado que diga isso. O meu diretor de fotografia contou-me que a namorada tem uma filha de 13 anos — vê Deadpool sem problema, mas disse “este filme, nem pensar, é demasiado intenso”. Achei curioso.
Mas sim, acho que seria bom — até para as bilheteiras! É um filme de família perfeito, de certa forma.
E sobre o tema da confiança — devemos confiar, não confiar, confiar 50%?
(risos) Não há solução. Só posso dizer que o interessante é isto: a confiança só tem sentido quando é posta à prova. Esta família chega a esse ponto — os pais não têm forma de saber se o que a filha diz é verdade. Só podem confiar. E é aí que a confiança ganha verdadeiro significado.

