Fareja-se um gesto dolorosamente coerente no facto de Mike Leigh planear uma saída de cena justamente com um filme sobre a dificuldade de continuar. Aos 83 anos, limitado fisicamente por problemas de saúde que tornam uma nova rodagem improvável, o inglês chega à competição pela Concha de Ouro de San Sebastián com Tender Loving Care, potencial ponto final de uma carreira iniciada no cinema há 55 anos. Se assim for, não há testamento solene nem inventário de grandezas. Há pessoas a envelhecer, assistentes sociais exaustas, uma amizade, pais que começam a precisar dos filhos e uma canção dos Platters. Ou seja: há Mike Leigh. E isso torna-se exemplar na maneira como suspende o enquadramento à saída de um quarto, sem se fixar em nenhum elemento específico da geografia de betão à sua frente, apenas para indicar espera. Uma espera que leva à finitude.

É uma despedida em grande estilo justamente porque se recusa a comportar-se como despedida. Na aparente simplicidade de Another Year (2010), Leigh volta a esgrimir com as práticas quotidianas da empatia, mas desloca o olhar para uma realidade laboral particularmente ingrata. Amy (Kate O’Flynn) trabalha na proteção de menores; a amiga Rosie (Alice Bailey Johnson) também pertence aos serviços sociais. As duas atravessam diariamente vidas quebradas, ressentimentos e situações em que cuidar deixou de ser apenas uma virtude para se tornar profissão — uma profissão exercida num sistema público britânico sem o apoio de que necessita.

É uma ideia decisiva. Tender Loving Care pergunta quanto custa emocionalmente fazer da empatia um emprego. Amy oferece escuta, paciência e presença a desconhecidos e depois regressa a uma vida na qual as mesmas competências começam a ser exigidas dentro de casa. Birdie (Marion Bailey) e Geoff (Paul Jesson), os seus pais idosos, entram numa nova etapa da existência, quando a independência deixa lentamente de ser uma certeza. Leigh cria, assim, vasos comunicantes entre assistência social e assistência familiar: quem cuida dos outros acaba inevitavelmente confrontado com a pergunta sobre quem cuidará dos seus.

Lucy Bristow filma esse circuito afetivo com movimentos de câmara sinuosos e discretos, aproximando frequentemente o quadro dos rostos sem os converter em cartazes de sofrimento. Os planos alongam-se o suficiente para que um desconforto deixe de ser informação dramática e se transforme em experiência. Leigh continua a confiar naquele mecanismo que sustenta as suas “comédias humanas”, de Naked (1993) a All or Nothing (2002): não explicar a personagem até à exaustão, mas oferecer ao espetador os pontos necessários para que ele próprio trace as linhas.

Por isso, a música talvez seja o momento mais cristalino do filme. Quando Amy encontra os pais, os três entregam-se a The Great Pretender, clássico dos Platters sobre a arte de aparentar que tudo está bem. Leigh não precisa de sublinhar a ironia. Toda a sua gente é composta por grandes fingidores: trabalhadores que precisam de manter a compostura diante do sofrimento alheio, filhos que não querem admitir que os pais envelheceram, idosos que resistem a reconhecer a própria fragilidade e mulheres de meia-idade que continuam a avançar porque parar talvez seja ainda mais difícil.

Kate O’Flynn compreende admiravelmente essa contenção. Não procura fazer de Amy uma santa do serviço público nem uma mártir da assistência social. Há desgaste na sua disponibilidade, assim como existe prazer genuíno nos copos de vinho partilhados com Rosie. Alice Bailey Johnson dá à amizade das duas uma espontaneidade rara, enquanto Marion Bailey e Paul Jesson conseguem transformar pequenas alterações de ritmo, postura e olhar em sinais de um corpo que começa a negociar com o tempo.

É justamente aí que Tender Loving Care encontra a sua dimensão política sem precisar de discursos. O cuidado tem uma economia. Exige horas, corpos, dinheiro e instituições, além de gente disposta a absorver uma parcela da dor dos outros. Leigh observa esse trabalho numa Inglaterra em que o próprio filme expõe um Estado social sob pressão e deixa que a materialidade do quotidiano faça a acusação. Não há panfleto porque não é necessário: basta acompanhar quem trabalha.

A música de Gary Yershon sabe desaparecer quando é preciso, e a montagem de Tania Reddin preserva a qualidade episódica dessa existência, permitindo que pequenos encontros adquiram uma importância equivalente àquilo que convencionalmente chamaríamos de “grandes cenas”. São 107 minutos de uma dramaturgia construída menos pela sucessão de acontecimentos do que pela acumulação de gestos.

Talvez por isso seja impossível assistir ao filme sem pensar no próprio Leigh. Um realizador fisicamente limitado pela doença encerra — se realmente encerrar — a carreira observando pessoas obrigadas a aceitar que a autonomia e a juventude não são estados permanentes, tal como não o é a força física. Mas não existe autopiedade nessa aproximação. Tender Loving Care prefere procurar aquilo que ainda pode ser oferecido quando alguma coisa começa a faltar.

Se for mesmo o adeus de Mike Leigh, é um adeus sem ponto de exclamação. Há apenas uma câmara atenta e quatro atores extraordinários, sustentados pela velha convicção humanista de que olhar para outra pessoa durante tempo suficiente ainda pode constituir um gesto político. Depois de uma carreira inteira a procurar o extraordinário no ordinário, Leigh talvez saia do cinema com a mais simples das suas proposições: cuidar é uma forma de resistência.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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