Emmanuelle Bercot: “não ponho nunca nenhum limite”

(Fotos: Divulgação)

Depois de assinar Não deixeis cair em tentação, o gaulês Cédric Kahn executou “Festa de Família”, uma comédia dramática cuja ação decorre num dia e que acompanha o aniversário de Andréa (Catherine Deneuve), a matriarca de uma família a celebrar o 70.º aniversário. 

Mas como as festas familiares são normalmente locais de celebração que muitas vezes dão para o torto, revelando picardias internas, assim acontece, especialmente quando chega Claire (Emmanuelle Bercot), a filha mais velha de Andréa, que há mais de três anos não dava notícias. 

Este regresso vai reavivar ressentimentos e provocar conflitos entre todos, sendo tudo gravado por outro dos filhos de Andréa, aqui interpretado por Vincent Macaigne na pele de um realizador de documentários.

Foi em Paris que nos encontramos com Emmanuelle Bercot, ela que tanto brilhou a atuar em filmes como Meu Rei, como na realização de Ela Está de Partida e De Cabeça Erguida, na qual “dirigiu” a sua colega de cena aqui, Catherine Deneuve.

Numa conversa interessante, onde descobrimos que Bercot esteve no ano passado em Portugal de férias, e notou na capital uma presença anormal de franceses, falamos naturalmente desta “Festa de Família”, mas também da sua carreira e, claro, da sua nova colaboração com Catherine Deneuve, cujas filmagens foram interrompidas quando a diva do cinema francês sofreu um acidente vascular em novembro passado.

Olhando para trabalho com o Cédric Kahn e para o seu trabalho com a Maïwenn [“Meu Rei“], as suas personagens são sempre mentalmente desafiantes. Como abordou esta personagem da Claire?

A minha maneira de abordar as coisas é sempre semelhante, ou seja, não ponho nunca nenhum limite. Quando me dão um argumento e sei à partida o que está nele, não sei de antemão o quão  fundo o realizador quer que eu entre na personagem, o seu nível de violência, histeria, etc. 

Por isso, preparo-me sempre para o máximo. E foi uma surpresa perceber que o Cédric Kahn queria ir bastante longe com esta personagem no que toca ao nervosismo, violência e stress. Não é de todo um trabalho intelectual, mas necessita que eu me coloque numa posição de grande disponibilidade, de grande frenesim, mas também de fragilidade para quebrar quando tiver de quebrar.[o que acontece]

Não passo um mês e meio dentro da minha personagem, não sou assim, mas há algo no meu interior que construo antes e que permite que eu solte tudo depois.

E trabalhou muito com o Cédric Kahn para criar e desenvolver esta personagem?

Não, o guião estava lá e ele ocasionalmente dava indicações disto ou aquilo. É como uma partição musical. Creio que um realizador não tem muito a dizer quando tu dás tudo.

Há uma cena que temos de falar, aquela à mesa em que a Bercot descompensa. Como foi filmada essa cena?

Estranhamente, foi uma cena fácil de filmar. Eles trabalharam a mesa onde eu teria de bater com a cabeça. É o tipo de cena que não repetimos e quando bati até comecei a ver mal, mas não me aleijei verdadeiramente. Gosto de trabalhar as coisas fisicamente e eles encontraram a forma de fazer a cena. Creio que até para os outros atores foi algo chocante de ver.

Ser realizadora ajuda o seu trabalho de atriz, e vice-versa?

Sim, muitíssimo. Como realizadora, por exemplo, não tenho medo dos atores. Acho que há muitos realizadores com medo dos atores, que falam de uma certa forma e os tratam como algo frágil. 

Eu não sou de todo assim. Não acho os atores frágeis e a superproteção não creio ser uma boa coisa. Não escondo nada deles e quando não são bons digo que não são. Sou atriz e não gosto de sentir que alguém tem receio ao falar-me. E como sei algumas coisas de atuação, eles também preferem. Os atores gostam de ser dirigidos por alguém que também  é ator.

E sendo realizadora, sentiu por exemplo queo Cédric Kahn que poderia filmar uma ou outra cena de forma diferente?

Ah, claro. O Cédric não tem nenhum problema em ter um realizador também no set e de falar da mise-en-scene. E claro que eu às vezes perguntava se ele tinha a certeza em fazer aquele plano. 

Nós falamos muito e não temos todos a mesma forma de ver as coisas. Gostei muito disso, foi bastante interessante para mim ver como ele fazia as coisas com confiança. Eu, se terminar as filmagens antes do prazo, filmo e refilmo cenas até ao tempo se esgotar [risos] Ou então filmo algo que não estava previsto

Normalmente, os atores e realizadores a certo ponto abdicam de uma das profissões para se dedicar inteiramente à outra. Vai continuar a ser atriz e realizadora ou vai haver um ponto em que haverá essa escolha?

Enquanto puder fazer as duas coisas, farei. Por exemplo, adoro fazer teatro e espero conseguir fazer cada vez mais. 

Não quero escolher uma coisa ou outra, mas aquilo que vejo em muitos atores é que depois de fazerem um filme perdem a força e o interesse em atuar. Creio que é de uma tal riqueza dirigir um filme, inventar, embarcar e guiar uma equipa a fazer algo que nasceu na tua cabeça que depois disso o trabalho de ator sente-se como insuficiente. Consigo compreender isso neles, mas para mim é sempre uma recriação fabulosa atuar. 

E trabalha essencialmente para o cinema,  admite trabalhar noutros meios, como para as plataformas de streaming?

Claro. Quero me exprimir em todo o lado, não interessam os meios e onde. Não julgo politicamente a chegada destas plataformas, pois dão-nos os meios que o cinema as vezes não consegue oferecer. É muito difícil encontrar o financiamento e há sobretudo muita pressão. Farei filmes onde quer que seja e até séries, que acho que é um bom formato para exprimires o teu trabalho. 

Sim, mas sendo uma realizadora, por exemplo, não a incomoda quando se depara com alguém a ver um filme no telemóvel?

Sim, isso é verdade. Para mim o cinema vê-se numa sala de cinema. Nem mesmo em DVD. Detesto. Mas as séries para mim são outro modo de consumo, e filmaria uma. Mas se fizesse um filme [para essas plataformas] e me dissessem que ele não seria exibido nas salas, seria complicado aceitar. 

Tem um novo projeto como realizadora, “De son vivant”, cujas filmagens foram adiadas devido ao problema de saúde da Catherine Deneuve. Sabe quando o vai voltar a filmar?

Dentro de três ou quatro meses

E como colaborou com a Catherine para desenvolver a personagem?

Não trabalhamos de todo a personagem. Na verdade, nunca falamos das personagens que ela interpreta nos meus filmes [esta é a 3ª colaboração entre as duas]. 

Falamos do filme e as coisas estão escritas de uma maneira muito precisa. Está tudo muito detalhado, por isso essa colaboração chega mais na altura da escolha do guarda-roupa.

[O filme] segue a história de uma mãe que perde o seu filho de quarenta anos. Naturalmente, a personagem vai passar por um caminho muito doloroso.

É uma realizadora muito rigorosa ou há espaço para os atores acrescentarem coisas às personagens?

Sim, há espaço. Aquilo que quero é que os atores respeitem e sigam o texto do guião, mas depois gosto de atores que propõem algo que até me faz mudar de opinião sobre as personagens. Mas sim, sou rigorosa no sentido de saber o que quero. Como atriz tenho pavor de quando dizem “faz como quiseres”.

E tem ainda dois projetos como atriz, o “Jumbo” e o “Justice”. Pode falar um pouco deles

O “Jumbo” sim, o “Justice” [Bercot fica pensativa uns instante]… Ah, mudaram de título [risos]. É um filme belga. [que entretanto mudou novamente de nome para “L’ennemi”]

O “Jumbo” é um primeiro filme de uma jovem realizadora, a Zoé Wittock. É muito particular no seu universo e estética. Ela formou-se em Los Angeles e criou uma primeira obra – como também se faz muito em França – visualmente muito forte com uma história louca.  É a história de uma jovem, interpretada pela Noémie Merlant, que se apaixona por uma atração de um parque de diversões. É uma doença do foro psiquiátrico que existe. São pessoas que se apaixonam por objetos. Há uma mulher conhecida – fizeram um documentário sobre ela – que casou com a Torre Eiffel. É uma história louca e original e fiquei muito contente por ela me ter proposto o papel. Eu interpreto a mãe, uma mulher simples que se sente completamente ultrapassada  [e não sabe lidar] com o que acontece. É o tipo de personagem que raramente me propõem fazer. 

O  outro é um filme do Stephan Streker. Tenho um pequeno papel. É a história verídica de um ministro belga que foi acusado de matar a sua mulher. Eu sou a sua advogada. É uma história que é famosa na Bélgica, e é curioso porque todos os belgas continuam a pensar que ele matou a esposa. 

Link curto do artigo: https://c7nema.net/swju

Últimas