“A Margem do Rio” é o melhor filme do Festival do Rio

Vindo de uma carreira internacional iniciada em Locarno, em agosto, A Margem do Rio, de Enock Carvalho e Matheus Farias, foi eleito Melhor Longa-Metragem de Ficção no encerramento da 28.ª edição do Festival do Rio, que anunciou os vencedores este domingo, no Cine Odeon.

Concebido e produzido em Pernambuco, A Margem do Rio é um thriller queer sobre desejo e resistência às hipocrisias de igrejas conservadoras. Com fotografia de Luciana Baseggio, o filme saiu de Locarno com o Prémio do Júri e acompanha Izaquiel (Caique Copque), auxiliar de serviços gerais do Recife que, à noite, procura encontros secretos com outros homens nos manguezais da cidade.

Numa dessas incursões, conhece Jeremias (Ítalo Martins), pescador que desperta nele uma relação de desejo. Durante o dia, porém, Izaquiel trabalha na sede de um culto evangélico liderado por um pastor que condena piercings, unhas pintadas e qualquer comportamento que fuja ao seu código moral. Robério Diógenes, visto recentemente em O Agente Secreto (2025), interpreta essa figura autoritária.

O júri da competição principal foi presidido pela produtora Esther García, ligada à El Deseo, e integrou ainda a compositora Flavia Tygel, a programadora da Berlinale Jacqueline Lyanga, a diretora de elenco Marcela Altberg e a produtora Sophie Erbs.

Victor Di Marco venceu o prémio de Melhor Ator por LONDON, realizado pelo próprio em parceria com Márcio Picoli. O filme tinha já passado por Veneza, onde recebeu o Queer Lion. Di Marco interpreta London, um jovem com deficiência na produção de dopamina que atravessa uma fase de crise enquanto procura compreender a origem e o futuro da sua condição. “Bom sonhar acordado”, afirmou o ator ao receber o prémio.

Na competição de documentários, o vencedor foi Elza, de Eryk Rocha. O realizador de Cinema Novo (2016) revisita a vida e a obra de Elza Soares (1930-2022), acompanhando a forma como a cantora se tornou uma voz central nas discussões sobre raça, género e desigualdade no Brasil. “A Elza é um corpo coletivo. Este prémio vai para todas as Elzas espalhadas Brasil afora”, afirmou Eryk Rocha.

O Prémio Especial do Júri foi atribuído a O Filho da Puta, animação realizada por Erica Maradona, Tania Anaya, Otto Guerra e Sávio Leite. O filme acompanha Ismael, um rapaz que atravessa o sertão à procura do pai, acompanhado pelo cão falante Bacalhau, com voz de Matheus Nachtergaele.

Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins, saiu do festival com três distinções, entre elas realização, argumento e voto do público.

Na montagem houve um empate entre A Extraordinária Vida de Vera Valdez, com Cristiane Oliveira, Fabio Meira e Juliano Castro, e Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira, de Cristiane Oliveira e Tula Anagnostopoulos.

Também houve empate no prémio de Melhor Atriz, dividido entre Isabel Teixeira, por Diário do Fogo, e Grace Passô, por A Professora de Francês.

Na secção Novos Rumos, Não Estamos Sonhando, de Ulisses Arthur, foi eleito Melhor Longa-Metragem, enquanto Pedro Leão recebeu o prémio de Melhor Ator pela interpretação no filme.

Com o Festival do Rio encerrado, as atenções deslocam-se agora para São Paulo. A Mostra Internacional de Cinema abre esta quarta-feira com Paper Tiger (Tigre de Papel), de James Gray.

A premiação

  • Melhor Filme: A Margem do Rio, de Enock Carvalho e Matheus Farias
  • Melhor Documentário: Elza, de Eryk Rocha
  • Melhor Curta-Metragem: Santo, de Maria Luísa Alves
  • Prémio Especial do Júri: O Filho da Puta, de Erica Maradona, Tania Anaya, Otto Guerra e Sávio Leite
  • Melhor Realização: Gabriel Martins, por Vicentina Pede Desculpas
  • Melhor Realização de Documentário: Camila Valença, por Cão Sem Plumas
  • Melhor Atriz: Isabel Teixeira, por Diário do Fogo, e Grace Passô, por A Professora de Francês
  • Melhor Ator: Victor Di Marco, por London
  • Melhor Atriz Secundária: Renna Costa, Artia e Ísis Broken, por A Margem do Rio
  • Melhor Ator Secundário: Pedro Goifman, por A Professora de Francês
  • Melhor Argumento: Gabriel Martins, por Vicentina Pede Desculpas
  • Melhor Fotografia: Luciana Baseggio, por A Margem do Rio
  • Melhor Montagem: Cristiane Oliveira, Fabio Meira e Juliano Castro, por A Extraordinária Vida de Vera Valdez, e Cristiane Oliveira e Tula Anagnostopoulos, por Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira
  • Melhor Som: Moabe Fiho, Guma Farias, Daniel Turini e João Victor Coura, por A Margem do Rio
  • Melhor Banda Sonora Original: Florencia di Concilio, por A Professora de Francês
  • Melhor Figurino: Samy Sill, por London
  • Melhor Direção de Arte: Ana Paula Cardoso e [nome em falta], por Funk
  • Prémio do Público: Vicentina Pede Desculpas (ficção) e Fui Olhar Você Dormir (documentário)
  • Prémio Félix: A Margem do Rio, de Enock Carvalho e Matheus Farias
  • Novos Rumos: Não Estamos Sonhando, de Ulisses Arthur
  • Prémio da Associação dos Correspondentes Estrangeiros: Me Deixa Ser, de Viviane D’Avilla; menção honrosa para 144 – Apocalipse Não, de João Paulo Cuenca
  • Prémio da Crítica da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica: London, de Victor Di Marco e Márcio Picoli, e Seis Meses No Prédio Rosa e Azul, de Bruno Santamaría Razo
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