“Milton é inexplicável”, diz Flavia Moraes: IndieLisboa estreia filme sobre Milton Nascimento

Milton Bituca Nascimento” tem sessões nos dias 2 e 9 de maio na Culturgest e acompanha o músico, já com 80 anos, pela sua última tour – uma jornada que percorreu países europeus (Itália, Espanha, Inglaterra, Portugal), Estados Unidos e Brasil. O C7nema conversou com a cineasta Flavia Moraes, que teve de enfrentar o desafio de transformar num filme de 110 minutos mais de 100 horas de filmagens, sobre esta figura incontornável da música brasileira. Entre os temas, surge o enorme grupo de “pesos pesados” que concederam depoimentos para o filme, a participação de Fernanda Montenegro como narradora e as expetativas para estreia da obra fora do Brasil – cujo circuito internacional começa no festival lisboeta.

Segundo a cineasta, termina por ser simbólico o facto de a carreira internacional do filme iniciar-se em Portugal. Conforme relata, desde o início do projeto havia uma preocupação com a saúde física e mental do artista – por outras palavras, como ele reagiria ao enorme desgaste da excursão. Depois de um arranque ainda algo fragilizado por Espanha e Itália, foi em Portugal que o cantor realmente começou a dar mostras de uma renovação a nível de energia. “Ele começa a manifestar uma vivacidade que não estava presente no início e termina muito mais jovem do que começou”, observa.

Flávia Moraes e Milton Nascimento nos bastidores do documentário Milton Bituca Nascimento | FOTO: Marcos Hermes

O “casting” de Milton Nascimento: a qualidade dos depoimentos

O naipe de convidados é impressionante e não reúne apenas a nata da MPB (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, João Bosco, Ivan Lins, os membros do Clube da Esquina e uma série de outros artistas), como uma longa lista de participações internacionais – que vão de Pat Metheny a Spike Lee. “Costumo dizer que o nosso diretor de ‘casting’ foi o próprio Milton”, brinca. “Houve uma adesão natural e, em muitos casos, voluntária para participar do projeto. Aí o desafio foi garantir que os depoimentos não fossem apenas elogios, algo que ‘tornaria o projeto enfadonho’, mas antes que os artistas fossem desafiados a pensar o trabalho dele”.

Quem é Milton Nascimento?

Uma das questões passa pela classificação da música. Nos Estados Unidos, onde Milton Nascimento foi introduzido pela mão de Wayne Shorter, o rótulo “jazz” foi-lhe muitas vezes atribuído – objeto de grandes discussões semânticas. Quem parece “resolver” o tema é Metheny, que diz que ele dispensa rótulos e a sua música toca a todos sem precisar disto. O que torna tudo mais misterioso: “Milton é inexplicável”, diz a realizadora. ”É um cara estudado em Berkeley, em Juilliard, um músico a quem as pessoas dedicam suas teses musicais de mestrado e, ao mesmo tempo, é alguém que nunca foi à uma escola de música e foi reprovado em aulas de canto quando era jovem”.

Ao longo do filme, surge outra interrogação: quem é Milton Nascimento? Um dos grandes acertos do projeto de Flávia Moraes foi sair pela tangente de abordagem narrativa para entrar por um viés mais poético e filosófico – de resto mais adequado para um cantor conhecido pela sua timidez e pelos seus silêncios. “Convivi com ele durante quase três anos, ele é muito particular, muito enigmático, silencioso. Foi um processo individual de entender silêncios. Houve o caso de uma entrevista muito pontual em Los Angeles, passamos os dois num quarto onde ele estava hospedado, coloquei a câmara na sala, olhamos através das frestas, conversando com ele sem compromisso, sobre memórias, sensações, num outro lugar de comunicação que não passa pela razão”, conta.

Fernanda Montenegro e Milton Nascimento — Foto: Brazil News

Fernanda Montenegro

Depois houve Fernanda Montenegro que, a par de uma longa amizade com ele, acabou por “oferecer como prenda” a sua participação como narradora do filme. “Quando decidimos fazer uma espécie de ‘road movie’, era a minha própria voz narrando o que estava acontecendo. Era como um diário de viagem, só que aí a cronologia levaria para uma questão racional e abandonamos a ideia da narração feita na primeira pessoa. E aí entrou a Fernanda Montenegro. Ela acabou por se identificar com várias questões do filme, como a própria finitude – já que tem 94 anos. O ponteiro da emoção elevou-se, tive que trabalhar muitas partes da narração que  vinha com a voz muito embargada, há coisas que mal se entende. Mas não faz mal!

A Melancolia do fim

Comparado a um filme semelhante como “Road Diary: Bruce Springsteen and The E Street Band”, lançado no ano passado, o resultado final de “Milton Bituca Nascimento” acaba por ser menos melancólico – mesmo que o cantor brasileiro, ao contrário do ainda muito saudável músico americano, sofra de Alzheimer e já dê mostras de fragilidade. Flávia Moraes explica: “Tive que lidar um pouco com essa carga e acho que consegui de alguma maneira reverter essa sensação melancólica e trágica. Nós optamos por terminar o filme com uma nova geração cantando e a própria Carminho dizendo que um grande artista não termina. Por exemplo, era previsível encerrar com “Encontros e Despedidas”, seria um fim clássico, mas fazemos uma guinada e termina com “Anima” e aponta a para imortalidade da obra deste artista que vai ficar com a gente”.

Novos projetos: será que os sonhos não envelhecem?

Marcinho Borges, compositor de músicas para o cantor nos anos 60 e 70, às tantas comenta a sobrevivência no tempo de uma das suas canções, que diz que os “sonhos não envelhecem”. Ainda sem título e possivelmente a ser lançado no final do ano, Flavia Moraes trabalha numa série que propõe a um grande número de luminares da MPB que hoje chegam a maturidade, uma conversa sobre o tempo. A ideia é promissora: o que pensariam esses artistas que cresceram durante a contracultura a ver o mundo tomar esses estranhos rumos no século XXI? “A ideia é fazer uma análise desta geração que chega à maturidade sobre os sonhos românticos que tinham e contrapor ao mundo atual – um mundo de mentiras”, conclui.

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