Figura-chave da nova série da Netflix, As Rainhas do Guito (Les Lionnes), a atriz franco-americana Rebecca Marder marca também presença nas salas de cinema nacionais em O Estrangeiro, uma adaptação do clássico de Albert Camus assinada por François Ozon, cineasta com quem já tinha trabalhado em O Crime é Meu (2023).
Nomeada a dois Césares pela sua participação em Une jeune fille qui va bien (2021) e De grandes espérances (2022), Rebecca assume em O Estrangeiro o papel de Marie, uma figura que, no texto original, surge com uma presença quase simbólica, mas que aqui ganha uma nova dimensão. “Conhecendo o cinema do François, sabia que em nenhum dos seus filmes as mulheres são deixadas de lado”, disse-nos a atriz em Paris, numa entrevista onde fala ainda do peso de adaptar o “inadaptável”, da sua relação com a obra de Camus, do trabalho com François Ozon e da forma como constrói as personagens que interpreta, sejam elas baseadas em figuras reais ou construções ficcionais.
Camus entrou na sua vida cedo, na escola. Que memória lhe ficou desse primeiro encontro? O que ainda resiste hoje dessa leitura?
Sim, descobri-o na adolescência, no colégio, como muitos franceses que o estudam. Acho que, na época, não tinha todas as chaves para compreender. Ficou-me uma memória muito física, muito carnal dessa leitura.
Mas não tinha percebido tudo, e ainda hoje sinto que não percebi completamente. Mas é como as obras-primas: dizem que é preciso lê-las em todas as fases da vida. E acho que ajudam a viver. Não apenas este livro em particular, mas Camus em geral.
Por ocasião das filmagens voltei a mergulhar na sua obra. Reli tudo, os contos, o teatro, que já tinha lido, mas também as crónicas mais jornalísticas ou políticas. Foi um prazer porque é muito atual — a filosofia do absurdo — e é realmente um autor que ajuda a viver, de quem gosto muito.
É também importante a época, porque existe a questão do colonialismo e não há muitas mulheres no livro.
Quando soube que este filme ia nascer, o que sentiu primeiro — entusiasmo, vertigem, responsabilidade?
Pensei que já tinha trabalhado com o realizador e, conhecendo o cinema do François, sabia que em nenhum dos seus filmes as mulheres são deixadas de lado. Nunca são secundarizadas.
Sabia que ele ia fazer alguma coisa com esta personagem que, no livro, é de facto descrita muito fisicamente. É descrita como um raio de sol, uma chama do desejo, mas é um pouco uma figura do amor, uma figura da mulher.
E nós tentámos dar-lhe também uma dimensão, claro, carnal, mas com alguma profundidade. O François tornou-a num garante de empatia.

Na construção de Marie, o que é que lhe pertence e que parte de si ficou inscrita nela?
Acho que dei algo de mim à Marie… Sou uma pessoa que ama — no sentido em que tenho a sensação de que, mesmo em histórias não correspondidas, e todos já passámos por isso, mesmo quando sofremos, somos felizes.
Mesmo quando o outro nos rejeita, somos felizes. Não no momento, mas depois, quando olhamos para trás e pensamos: “Senti-me viva. Amei.”
Somos sempre mais sortudos quando somos aqueles que amam do que quando somos aqueles que rejeitam. E pensei que isso também podia corresponder.
Ver-se a preto e branco é quase atravessar o tempo e como foi esse encontro consigo própria nesse outro registo?
Somos sempre mais bonitos a preto e branco. Além disso, tínhamos cenas de banho em água gelada, portanto os nossos corpos teriam ficado azuis a cores.
E quando descobri o filme, fiquei muito impressionada ao pensar: sou eu, a Rebecca Marder, num estilo de filme em que nunca pensei vir a estar.
O preto e branco quase já não existe. É tão bonito, mostra a idade de ouro do cinema. De repente, temos a sensação de entrar noutra dimensão do cinema.
E trabalhar com François Ozon? É mais um diálogo, uma entrega, ou uma confiança silenciosa?
Gosto muito dele. Já tínhamos trabalhado juntos no Mon Crime. Adoro esse filme. Aqui foi diferente, porque no Mon Crime as falas tinham de ser muito rápidas, era mais orientado para a comédia. Aqui estava tudo muito concentrado.
Havia a pressão de estar à altura, porque é uma obra muito difícil de adaptar. Pertence a toda a gente.Mas trabalhar com o François é um prazer. É ele que está atrás da câmara — o que é raro. E há também o prazer de o reencontrar.
Mesmo sem falar, entendemo-nos. Ele diz muito pouco, mas vê tudo. Está atento a todos os detalhes. Percebe as pessoas, as situações. Às vezes usa até aquilo que vivemos no momento. É como uma criança. Como um arqueólogo, alguém que entra em mundos diferentes a cada filme. É uma imersão com ele, e sobretudo uma grande confiança. Tenho tanta confiança que nem sinto o tempo de filmagem passar.
Adaptar Camus é quase tocar num texto intocável. Como se vive essa pressão?
Sim. Adaptar o “inadaptável”. Há tantos realizadores potenciais quanto leitores de O Estrangeiro. É o romance francês mais vendido no mundo depois de O Principezinho. Estuda-se na escola.
Sempre que o François dizia que ia adaptá-lo, as pessoas respondiam: “É o meu livro preferido!” Portanto, sim, existiu pressão.
Quando encarna figuras que já pertencem à memória coletiva, como o fez no filme sobre a Simone Veil (Simone – A Viagem do Século), o peso da responsabilidade é maior ou transforma-se em impulso?
É maior, mas também é uma honra.
Ser escolhida para interpretar Simone Veil dá-me vontade de estar à altura. É um risco, claro, mas quero estar à altura do que ela representa para as pessoas — dos seus combates, da sua dignidade, da sua humanidade. Quero fazer algo que não desonre.
E com o Camus foi igual. Cada pessoa tem a sua imagem de Meursault, da Marie, de O Estrangeiro. Mas O Estrangeiro somos todos nós.
Nos papéis que escolhe, procura o risco ou o encontro?
Gosto de correr riscos e procuro encontros: com o realizador, com os atores. Às vezes escolho um filme porque quero trabalhar com certas pessoas. Mas é sobretudo o argumento. A escrita, os diálogos. E as personagens.
A complexidade dos papéis atrai?
Sim, mas não necessariamente conectada a uma qualquer moralidade. Gosto de atravessar épocas, idades. E sobretudo de sair dos papéis em que me podem encaixar.
Este foi o primeiro papel mais carnal que fiz, que me permitiu descobrir outra faceta da feminilidade. Antes tinha papéis mais cerebrais, mais comprometidos.
Reconhece-se nas mulheres que interpreta ou descobre-se nelas?
Muitas vezes sim. E tive sorte, porque nunca me pediram apenas para ser “a rapariga bonita” ou “a mulher número dois”. Foram sempre personagens com percursos fortes. Isso deixa-me muito feliz.
Com o François, por exemplo, interpretei uma advogada feminista, uma jovem que quer fazer teatro apesar do mundo colapsar; uma mulher num thriller político com ambições sociais. Mas também fico feliz por explorar algo diferente, como aqui, onde há algo mais físico, mais sensual.
Sente que o cinema francês perdeu alguma densidade nas personagens secundárias?
Sim. Nos filmes clássicos franceses, os papéis secundários eram incrivelmente bem escritos. Existiam atores extraordinários só nesses papéis. Hoje escrevem-se menos personagens secundárias marcantes.
O cinema é o seu lugar natural ou apenas um dos territórios onde gosta de habitar?
É a minha paixão principal. Sou uma espectadora insaciável. Vou ao cinema quase todas as semanas. Vejo muitos filmes em casa e em salas que passam clássicos.
Ia muito à Cinemateca quando estudava. Estudei cinema italiano, tenho uma grande paixão por ele.
Mas o teatro também me fascina — é outra forma de jogo, de transe, de adrenalina. Espero poder conciliar os dois sempre.
A televisão, e em particular plataformas como a Netflix, abrem novas possibilidades ou impõem novas regras?
Fiz uma série que estreia a 5 de fevereiro. É diferente, quase em outro mundo. Outros algoritmos.
Mas foi muito interessante poder explorar uma personagem durante seis meses seguidos. Foi intenso.
O realizador tinha uma visão muito forte. A série é quase uma realidade aumentada.
Quando um papel termina, fica algo da personagem em si ou sabe desligar completamente?
Não, corto bastante. Não fico “assombrada” pelos papéis. Mas acho que fica sempre qualquer coisa de cada personagem.
Com Camus, foi incrível viver com esses textos durante meses.
Rodámos em Marrocos, em Tânger a fazer de Argélia. Foi uma experiência que me fez crescer.
O que vem a seguir? Que caminhos se estão a abrir agora?
Há uma nova série e depois vou filmar com a Sandrine Kiberlain. Depois com o Thomas Salvador, na primavera.
O teatro continua a chamar por si?
Sim, espero que sim.
A escrita e a encenação são caminhos que quer retomar?
Sim, gostava muito.
Antes queria encenar, e agora quero retomar isso. Com o teatro não tinha tempo.






