A 74.ª edição do Festival de San Sebastián encontrou um fecho surpreendentemente jornalístico, com uma elegante longa-metragem de encerramento que reivindica o direito de despertar indignação perante o desaparecimento gradual da imprensa em papel. No mesmo dia em que Donostia acolheu o espalhafatoso Ink, no qual Danny Boyle mergulha nos bastidores do The Sun de Rupert Murdoch, o certame reservou para o encerramento da Seleção Oficial 2026, fora de competição, uma produção belgo-francesa sobre um episódio em que imprimir um jornal significava, literalmente, resistir.

Com 132 minutos, Le Faux Soir, de Michaël R. Roskam, arranca morno, quase excessivamente respeitador da reconstrução histórica, mas vai fervendo cena após cena até atingir a ebulição num clímax contagiante. A sua principal virtude está justamente em chegar à catarse sem permitir que o entusiasmo histórico amorteça o sentido crítico. É austero, mas ganha nervo nas alturas certas.

O que Roskam leva para o ecrã aconteceu em 9 de novembro de 1943, numa Bélgica ocupada pelos nazis. O verdadeiro Le Soir tinha sido apropriado pela máquina colaboracionista e transformado num instrumento de propaganda alemã. Foi então que membros do Front de l’Indépendance imaginaram uma operação tão arriscada quanto espirituosa: produzir um jornal falso praticamente indistinguível do original, com o mesmo título, formato e aparência gráfica, mas recheado de textos destinados a ridicularizar Hitler, o ocupante e os seus colaboradores. Era uma falsificação destinada não a produzir desinformação, mas a combater uma mentira oficializada.

A dimensão da operação ajuda a explicar por que razão o episódio parece ter sido escrito à espera do cinema. Os resistentes conseguiram acesso a elementos gráficos do Le Soir e à lista de pontos de venda, com horários e quantidades de exemplares entregues. A impressão ficou a cargo do resistente Ferdinand Wellens. Foram preparados 50 mil exemplares: cinco mil para infiltração direta nos quiosques e outros 45 mil destinados à venda clandestina, cuja receita financiaria atividades da Resistência. Tudo foi montado em apenas 21 dias.

Na tarde de 9 de novembro, jovens voluntários começaram a distribuir a edição pirata. A imitação era tão convincente que alguns vendedores ficaram com medo de continuar a vendê-la, enquanto outros ofereciam aos clientes a possibilidade de escolher entre o jornal verdadeiro e o falso.

É dessa engrenagem que Le Faux Soir extrai a sua progressiva voltagem. A primeira parte precisa de organizar personagens, tipografias, contactos, impressoras e riscos; Roskam aceita essa lentidão como investimento dramático. Aos poucos, porém, aquilo que parecia um drama histórico convencional ganha a mecânica de um filme de assalto. Só que o objeto cobiçado não é dinheiro, ouro ou uma obra de arte: é a possibilidade de fazer circular palavras.

Papel, tinta, tipos e rotativas transformam-se em instrumentos de suspense. Quando finalmente o falso jornal chega às ruas, toda a preparação acumulada encontra uma libertação coletiva na gargalhada. Historicamente, foi precisamente essa a potência do gesto: o Faux Soir teve enorme repercussão e converteu o humor numa forma de retirar ao invasor parte do poder que o medo lhe conferia.

A graça, porém, nunca apaga o preço da operação. A Gestapo acabaria por chegar aos envolvidos. Wellens e Théo Mullier morreram na deportação; Marc Aubrion foi condenado à morte, pena posteriormente comutada; cerca de 15 participantes foram presos e receberam diferentes condenações; e o jovem desenhador Guy Mottard foi fuzilado. É essa sombra que impede Roskam de transformar o episódio numa aventura edificante e confortável. A vitória moral existe, o riso existe, a euforia existe — mas há cadáveres atrás dela.

Roskam, nascido em Sint-Truiden em 1972, ficou internacionalmente conhecido com o brutal Rundskop (Bullhead) (2011), revelado na Berlinale e nomeado para o Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira. Depois levou The Drop (2014), com Tom Hardy e James Gandolfini, à competição de San Sebastián, onde Dennis Lehane recebeu o Prémio do Júri para Melhor Argumento, e passou por Veneza com Le Fidèle (Racer and the Jailbird) (2017).

Em Le Faux Soir, o realizador apresenta-se mais clássico do que no visceral Bullhead. Há menos interesse na deformação e maior confiança na narrativa de conjunto, na progressão dramática e no suspense. Isso não significa acomodação. Roskam sabe que possui uma história extraordinária e prefere não competir com ela: filma-a com clareza, vai apertando os parafusos narrativos e guarda a exuberância para quando a operação finalmente ganha as ruas.

Nesse processo, Arieh Worthalter é uma peça preciosa. Na pele de Marc “Yvon” Aubrion, evita converter o resistente num monumento ambulante. Há inquietação, ironia e vulnerabilidade na sua composição, qualidades que fazem da coragem uma decisão humana e não uma característica de super-herói.

Worthalter vem de uma consagração importante no cinema francês: interpretou Pierre Goldman em Le Procès Goldman (2023), de Cédric Kahn, trabalho que lhe valeu o César de Melhor Ator em 2024. Se naquele filme a palavra era matéria de combate dentro de um tribunal, aqui volta a ser arma, agora impressa. São personagens diferentes, mas existe uma curiosa continuidade: Worthalter sabe interpretar homens para quem falar — ou fazer com que determinadas palavras circulem — pode ser uma questão de sobrevivência.

É também aí que o encontro involuntário entre Ink e Le Faux Soir se torna fascinante. O filme surpresa de Danny Boyle, apresentado em Donostia neste fim de semana depois de Veneza, acompanha a transformação do The Sun sob Rupert Murdoch e Larry Lamb. Roskam recua ainda mais no tempo para encontrar homens que arriscaram a própria vida para sabotar um jornal capturado pelo poder.

Num, discute-se como a notícia pode tornar-se mercadoria e instrumento de influência; no outro, como um jornal pode ser sequestrado pela propaganda — e recuperado, ainda que por algumas horas, pela inteligência, pelo humor e pela coragem.

O paradoxo é delicioso e dolorosamente atual: aqueles resistentes precisaram de fabricar um jornal falso para dizer a verdade. Chamá-lo, como faz a própria apresentação de San Sebastián, uma espécie de primeiro media hack ajuda a aproximar o episódio do presente, mas Le Faux Soir é mais interessante quando evita a facilidade da analogia.

O que está em causa não é apenas a falsificação de uma página impressa. É quem possui os meios para determinar aquilo que uma sociedade aceita como realidade.

Num festival que passou nove dias a discutir, direta ou indiretamente, as inquietações políticas do presente, Roskam fecha as portas a recordar que a imprensa também pode ser uma trincheira. E que, em determinadas circunstâncias, fazer rir pode constituir uma forma perigosíssima de resistência.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/o8z0
Pontuação Geral
Jorge Pereira
le-faux-soir-quando-resistir-se-imprime-em-mancheteEm Le Faux Soir, o realizador apresenta-se mais clássico do que no visceral Bullhead. Há menos interesse na deformação e maior confiança na narrativa de conjunto, na progressão dramática e no suspense.