Diante da necessidade atávica dos estúdios em dissociar “amor” de “humor”, The Devil Wears Prada 2 perdeu a musculatura romântica que existia numa das (muitas) boas camadas da longa-metragem original, lançada há 20 anos, mas preservou a sua ironia apetitosa. Melhor do que isso foi ter mantido o seu maior trunfo estético: o diretor de fotografia alemão Florian Ballhaus. Se a primeira parte desta franquia já se deleitava com a sua luz, a continuação besunta-se nos seus enquadramentos requintados, atentos à potência da arquitetura que contempla e ao detalhismo dos itens de moda que inventaria. O universo da moda surge em cena com toda a sua opulência, a servir de glacé para um bolo de sabor agridoce sobre a crise do jornalismo em tempos de fake news e de influenciadores digitais.
David Frankel realizou The Devil Wears Prada (2006) com 35 milhões de dólares, interessado sobretudo em explorar o lado vilanesco de Meryl Streep, no papel de uma editora de uma revista de renome, que esmagava a sua equipa sem dó. Tratava-se de uma narrativa decalcada do livro de Lauren Weisberger, estruturada como um bromance (amor entre amigas) entre uma executiva cruel e a sua talentosa assistente, Andy, papel que Anne Hathaway assumiu com galhardia. O embate entre ambas rendeu uma receita de 326 milhões de dólares, centrada nos meandros de uma relação fadada ao desastre, mediada por uma personagem de bom coração, a subeditora Nigel, interpretada por Stanley Tucci. Era uma narrativa de formação de carácter, num registo de fábula moderna (qual uma Cinderela sem magia). O segundo filme, não: aqui, o poço é mais fundo.
O título O Diabo Veste Prada 2 surge logo após os logótipos de estúdio e, de imediato, instala-se um debate com a personagem Andy, no contexto de uma cerimónia de prémios, sobre o sucateamento de uma profissão que se propõe fazer avançar a sociedade civil. O facto de o meio de comunicação da personagem de Hathaway estar condenado leva-a de regresso à revista onde conheceu a personagem Miranda, agora com um cargo de chefia. As duas entram em confronto, em situações bem-humoradas, mas acabam por se unir para garantir que a cobertura da alta-costura de Milão não perde seriedade junto do público leitor — numa metonímia (bem-vinda) do esforço dos nichos jornalísticos para sobreviver.
Essa dinâmica é temperada por situações divertidas centradas no mau humor da personagem Miranda, permitindo a Meryl explorar um notável talento para brincar com as palavras do argumento. A presença de Kenneth Branagh como o atual companheiro da personagem Miranda assegura momentos de afeto numa produção dispendiosa (100 milhões de dólares), pensada para gerar lucros avultados sem soar genérica. A forma como discute o futuro da notícia — e leva essa reflexão ao grande público — já justifica a sua relevância e urgência. E é um prazer ver Meryl e Hathaway em duelo.







