Yunan: Ameer Fakher Eldin e o sentimento de “deslocamento”

O filme estreou nos cinemas portugueses a 5 de março

Concorrente ao Urso de Ouro, o segundo filme da trilogia Homeland do realizador Ameer Fakher Eldin, Yunan, é carregado de melancolia e é tão pesado como o clima das ilhas Halligen, na Alemanha, onde Munir, um escritor deprimido de um país não especificado no Médio Oriente, decide pôr fim à sua vida.

Segunda incursão do cineasta com foco no que ele chama de sentimento de deslocamento de alguém que saiu da sua pátria, mas não sente a nova como “casa”, Yunan reflete o interesse pelo existencialismo do seu realizador. Sírio numa terra ocupada agora pelos israelitas, os Montes Goulã, Ameer Fakher Eldin não esconde que por trás da sua trilogia está a sua própria inquietação. “O sentido de deslocamento está sempre comigo”, disse-nos o cineasta em Berlim, numa entrevista emotiva e carregada de questões existenciais.“Sinto que a Síria é o meu país em termos culturais. Mas não consigo visitar a minha origem, que são os territórios sírios ocupados por Israel nos Montes Goulã. Imagina que és de Lisboa e proíbem-te de visitar o Porto? É complexo. Esta sensação de deslocamento está muito na realidade. Para mim, a minha pátria é uma ilusão. Certamente estou a romantizar, pois a verdade é que não me lembro nada da Síria. Só posso fantasiar sobre uma pátria, usando a nostalgia e transportando-a para o futuro. Com o Yunan queria mostrar que o deslocamento não é apenas uma questão geográfica, mas também uma experiência mental. E como não sabemos de onde vem a personagem, o filme funciona também como um objeto sobre solidão, depressão e o desejo de se conectar com algo ou alguém”.

Nascido na Ucrânia, “porque os pais foram para lá estudar medicina”, o cineasta explicou o rumo da sua trilogia: “O primeiro filme era sobre um homem que se sente um estranho entre os seus. Existe nele uma alienação. O segundo, “Yunan”, é mais na linha de teres um estranho no meio de estranhos. Estas minhas personagens são vítimas de crises ou guerras. Mesmo na literatura, quando falamos de uma personagem nostálgica ele é sempre apresentado como uma vítima. No terceiro filme,  o protagonista é realmente livre, mas cria nele fronteiras mentais”.

 Georges Khabbaz e Hanna Schygulla em “Yunan”

Assumindo que uma das primeiras perguntas que se fez quando avançou para este filme foi “quem és tu quando a tua mãe te esquece?”, Ameer relembra que na palavra “mãe” pode estar inserida a sua pátria. “Tu podes esquecer o passado, mas consegue o passado esquecer-te?”, questiona, acrescentando que “o peso destas questões é muito forte e a única forma de escapar a ele é a imaginação”. É isso que faz Munir, um escritor com um bloqueio criativo, que vê como única forma de salvação a ilusão. “Coloquei uma camada no filme onde a ilusão e a realidade começam a fundir-se, trazendo assim conforto, mesmo que se entre no absurdo. É um olhar sobre a psicologia de um exilado. Uma vez exilado, já perdeste. Exilado de uma crise ou guerra, vais para outra cultura e és um estranho. Mesmo que tenhas uma boa vida, há algo que sentes falta. E se um dia tiveres a sorte de ser seguro voltar ao teu país, sentirás que aí também és um estranho. Quis assim retratar aqueles que estão numa espécie de suspensão no tempo. Para mim, a ilusão ou o absurdo é a única saída”.

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