Desde que foi anunciado entre os concorrentes à Concha de Ouro de 2026, Hans Petter Moland foi encarado como parte da quota de medalhões que os bons festivais precisam de ter, mesmo com um colosso como Mike Leigh a seu lado. Durante cerca de três décadas, o realizador foi um dos grandes faróis através dos quais o cinema norueguês conseguiu iluminar-se além-fronteiras. Nascido em Oslo em 1955, estreou-se nas longas-metragens com The Last Lieutenant (1993) e, apenas dois anos depois, trouxe Zero Kelvin (1995) a San Sebastián, onde recebeu uma Menção Especial do Júri. Vieram depois Aberdeen (2000), The Beautiful Country (2004), A Somewhat Gentle Man (2010), In Order of Disappearance (2014) e Out Stealing Horses (2019), numa filmografia que encontrou espaço recorrente nos grandes festivais sem perder uma invulgar capacidade de comunicação com o público. Entre os anos 1990 e o início desta década, poucos realizadores funcionaram com tamanha regularidade como cartão de visita internacional da Noruega.
Aos 70 anos, Moland regressa agora à competição de San Sebastián com um dos seus trabalhos de maior adesão popular: Growth of the Soil (Markens grøde), uma saga de 155 minutos adaptada do romance homónimo do Nobel da Literatura Knut Hamsun. Depois da estreia mundial em Toronto, o filme chega à Europa seguindo Isak, um homem sem passado que atravessa as montanhas à procura de um pedaço de terra onde possa construir uma vida. Acima da linha das árvores encontra solo, frio, solidão e Inger, mulher igualmente marcada pela resistência. O que começa como sobrevivência transforma-se numa história de amor atravessada pela passagem do tempo e pela modernização. É uma epopeia que Moland prefere construir não pela monumentalidade, mas pelos gestos mais pequenos, como explica nesta entrevista ao C7nema.
Ao ver Growth of the Soil , pensei em Days of Heaven (1978), de Terrence Malick, mas quase como um Malick despido dos seus truques metafísicos. O seu filme junta natureza, solidão e pessoas que precisam de se reconstruir. De onde vem essa intimidade com a paisagem?
Também sou um grande admirador de Malick. Na verdade, ele produziu um dos meus filmes, The Beautiful Country (2004). Para mim, o ponto de partida é uma intimidade com a natureza que eu próprio tenho. Desde muito pequeno que vou para lugares selvagens com o meu pai e também sozinho. Portanto, sinto muito intimamente as texturas, os perigos e a beleza dos detalhes da natureza. Isso fez parte da minha educação e daquilo que sou. Quando olhamos para pessoas nesse contexto, a natureza pode perdoar e pode ser extremamente brutal. Pode ser bonita e generosa, mas também perigosa. Isso é importante para mim porque não se trata de uma ideia romantizada da natureza. Na realidade, ela é o Deus de Inger e Isak, a força que define as suas vidas, pelo menos durante grande parte do início da história. A natureza é a ditadora da existência deles.
Existe também qualquer coisa profundamente norueguesa nessa relação entre o indivíduo e uma paisagem que parece muito maior do que ele. Até que ponto o espírito humano que encontramos no filme nasce da geografia do seu país?
Acho que aquilo que torna este romance profundamente enraizado na existência norueguesa é o facto de a grande força que definiu a nossa existência ter sido a topografia, a geografia e o clima que nos rodeiam. Isso afeta a maneira como interagimos. É um território muito pouco povoado. Se vivemos num vale, estamos presos a poucas pessoas e temos de escolher cuidadosamente quem transformamos em inimigo. Isso define as nossas relações e também define a nossa coragem: somos suficientemente corajosos para atravessar a montanha e descobrir o que existe do outro lado? Como seres humanos, temos naturalmente medo de abandonar o nosso clã, aventurar-nos e esperar que um novo clã nos aceite. É por isso que permanecemos, por exemplo, em relações más: temos medo de que, se as abandonarmos, sejamos rejeitados. Na natureza, os códigos não são racionais. A natureza pode ser ditadora.
Isak parece representar uma espécie de agricultor eterno, alguém submetido a ciclos que começaram antes dele e continuarão depois da sua morte. Que simbolismo carrega?
Isak representa, de muitas maneiras, o agricultor eterno, porque ser agricultor é um compromisso enorme. É um compromisso para toda a vida, que implica aceitar o domínio da natureza sobre o percurso da nossa existência. Há uma beleza e também uma espécie de resignação espiritual na aceitação desse destino. Encontramos isso em diferentes culturas, seja na chinesa ou noutras: o agricultor pertence a um grande ciclo, segue as estações e faz o melhor que consegue com as circunstâncias que tem. O seu projeto nunca termina. É um ciclo que ele entrega à geração seguinte. Inger, por outro lado, enfrenta o desconhecido com enorme coragem. Presumivelmente, aquilo de onde ela vem é tão mau que já não pode piorar. Quando encontra Isak, tem a coragem suficiente para se juntar a ele. Leva uma pedra consigo por segurança, mas atreve-se a entrar naquela caverna.

Ao mesmo tempo, pensei muito no cinema clássico norte-americano, sobretudo em Giant (1956), de George Stevens. Há algo de Rock Hudson e Elizabeth Taylor na construção de Isak e Inger. Como se relaciona com essa tradição clássica?
Obrigado pelo elogio. Não vivo num vácuo. Evidentemente, estou sobre os ombros de outras pessoas, como toda a gente que participa numa evolução contínua. Às vezes destruímos os nossos ideais e outras vezes reconhecemos o seu valor. Tenho de admitir que nunca pensei em Giant (1956) enquanto fazíamos este filme. Mas, agora que o menciona, sim, não é assim tão estranho que faça essa associação. Quando fala em clássico, a minha abordagem a este filme consistiu em perguntar: como posso torná-lo o mais simples possível? Do que posso prescindir?
Essa simplicidade chegou também à própria estrutura da rodagem?
Sim. Queria ter o maior número possível de dias de rodagem e, muito cedo, comecei a pensar no que podia eliminar. Portanto: nada de dolly, nada de gruas, nada de iluminação sofisticada. Sobretudo luz natural, com alguma proteção e sedas. Tínhamos uma equipa muito pequena. Muito, muito pequena. Às vezes éramos apenas dez ou onze pessoas. Toda a gente carregava uma mala ou qualquer outra coisa, incluindo o realizador. Isso provoca um impacto enorme na maneira como filmamos. As hierarquias desaparecem, não existe política, somos apenas alguns amigos a tentar ser corajosos. É libertador. Percebemos que, independentemente do tamanho de uma equipa, tudo acaba por resumir-se a duas pessoas diante da câmara, alguém com uma ventoinha ou um pedaço de cartão e um eletricista com um refletor. Em vez de sentirmos que aquilo era uma limitação que nos estava a ser imposta, decidimos abraçá-la.
A escala temporal de Growth of the Soil é enorme, mas o filme parece constantemente fugir da ideia convencional de épico. Há o nascimento de uma quinta e de uma família, mas interessa-se tanto pelo ciúme e pelo arrependimento como pelas grandes transformações históricas. Procurou deliberadamente um “antiépico”?
De certa maneira, percebemos que existe evidentemente uma escala enorme quando contamos a história de uma vida. Mas, em vez de abraçar a grandiosidade disso, quisemos abraçar os detalhes, os detalhes reveladores. Quais são os pequenos elementos de composição que têm uma vida para além da sua limitada aparência física? Ou, numa pequena cena, qual é realmente o subtexto? Era isso que me interessava.
Há também uma dimensão popular no seu cinema que talvez explique a relação que estabeleceu com Liam Neeson em Cold Pursuit (2019) e Absolution (2024). O que encontrou nele para repetir essa colaboração e existe a possibilidade de voltarem a trabalhar juntos?
Neste momento não temos um novo filme juntos. Mas estamos em contacto, portanto… quem sabe?
Durante décadas, os seus filmes ajudaram espetadores estrangeiros a construir uma imagem da Noruega. Como olha hoje para o cinema norueguês e para o lugar que ocupa dentro dele?
Suspeito de que existe uma grande dicotomia. Estamos a fazer alguns filmes excecionais e, ao mesmo tempo, é extremamente difícil conseguir fazê-los. Portanto, existe um excedente de talento, mas não de dinheiro. Como trabalho há tanto tempo, senti durante muitos anos que estava na vanguarda do nosso desenvolvimento, que tinha de abrir novos caminhos e ser pioneiro de várias maneiras. Quando as pessoas viam: “Ah, ele consegue ir a Berlim”, podiam pensar: “Então por que razão eu não posso ir a Berlim? Ou a San Sebastián?” Espero que, de alguma maneira, tenha sido uma inspiração em determinados momentos. Ninguém me disse isso, mas espero que as pessoas tenham pensado: “Se ele consegue, por que razão eu não hei de conseguir? Ele nem sequer é assim tão inteligente.” [risos]
E isso mudou com as novas gerações?
Agora acontece um pouco o inverso. Vejo colegas meus, e às vezes colegas muito mais jovens, extremamente talentosos, a deixarem a sua marca no mundo. Eles elevaram a fasquia. Tornaram evidente que eu próprio tenho de continuar a crescer. E é muito saudável para um velho como eu ter de voltar a montar o cavalo e continuar a crescer. Isso faz parte da diversão de fazer filmes: a exploração contínua da natureza humana. É muito divertido, mas também nos obriga a continuar a avançar.

