Claire Simon sobre “Aprender”: “A escola é o centro da sociedade”

Figura essencial do documentário francês, Claire Simon regressa às nossas salas com uma nova visita ao universo escolar. Em Apprendre (Aprender, 2024), a realizadora de filmes como Notre corps (2023), Premières solitudes (2018) e Vous ne désirez que moi (Quero Falar Sobre Marguerite Duras, 2021), observa uma escola primária nos subúrbios de Paris, um espaço onde observa o quotidiano de crianças e professores num momento crucial de formação.

Foi em Cannes, em 2024, onde o filme teve a sua estreia mundial, que nos sentámos à mesa com a realizadora, que nos explicou como surgiu a ideia deste mergulho direto na sala de aula e no recreio, privilegiando os gestos, os olhares e a escuta como formas de acesso à realidade, cruzando diferenças sociais, culturais e identitárias. 

Por que quis regressar à escola e filmar esse espaço?

Tinha feito um filme chamado Récréations (1993)  há muito tempo e a minha filha estava nessa escola — hoje é uma filósofa conhecida [Manon Garcia). Naquela altura, quando estava no ensino básico, ela disse-me: “é incrível o que está a acontecer, estamos a roubar aos mais novos os berlindes, os pokémons, tudo isso está a desaparecer”. E ao mesmo tempo eles estavam já a aprender o comércio, o dinheiro.

Fiquei com isso na cabeça durante anos. E pensei: devia voltar a isso. E depois há outra coisa: adoro filmar crianças, é tão bonito, os rostos, as emoções, tudo isso.

Como encontrou essa escola?

Já tinha feito um filme em Ivry, Young Solitude, e gostei muito desse lugar. No liceu havia negros, asiáticos, árabes, brancos, e ninguém se incomodava comigo. Podia filmar nos corredores, era tão fácil, tão agradável. Adorei os adolescentes com quem estava a filmar, achei-os muito inteligentes.

Então pensei: vou voltar a Ivry. Fui a outros subúrbios. Tenho um amigo que vive lá, que é diretor de fotografia, e ele ajudou-me através da administração a entrar nas escolas.

E quando vi a escola de Makarenko, foi amor à primeira vista. Adorei o recreio. No início queria filmar só o recreio. As cores — laranja, amarelo — naquele bairro bastante triste… pensei: há alegria ali.

Depois conheci o diretor. Ele é um génio. Uma pessoa maravilhosa, com uma inteligência enorme. Vê-se quando ele fala com um miúdo pequeno.

E o que descobriu ao começar a filmar?

Percebi algo que devia já saber: a escola primária é um lugar onde se aprendem estereótipos. Televisão, futebol… eles repetem tudo. As raparigas faziam coreografias tipo TikTok.

E pensei: ok, mas vamos encontrar outra coisa.

No recreio era difícil ter histórias bonitas o tempo todo. E depois vi o professor Mohamed com os alunos na biblioteca, a escolher livros. Fiquei fascinada. Perguntei-lhe se podia filmar na aula. Ele disse que sim.

Foi um momento muito bonito. Eles leem todos os dias, durante 15 ou 20 minutos. Eu filmava os rostos deles. 

Como foi filmar dentro da sala de aula?

Achava que seria aborrecido, que já sabia o que ia acontecer. Mas não. As crianças querem mostrar que perceberam, ou que não perceberam, ficam confusas, olham à volta…Percebi que havia muito para contar ali.

E os professores eram muito simpáticos. Almoçava com eles, perguntava o que iam fazer, e depois ia filmar.

As crianças usam telemóveis na escola?

Não, dentro da escola não têm autorização. É proibido.

Há uma sequência que não entrou no filme, muito engraçada. No final do ano, o professor perguntou em que redes sociais estavam. Ele ficou assustado. Estavam todos no TikTok, em todo o lado.

Mas na escola nunca vi telemóveis. São crianças pobres. Talvez em casa tenham, mas ali não.

Como reagiram à presença da câmara?

No início foi difícil. Vinham todos para a frente, queriam representar, fazer coisas como atores. Eu dizia-lhes: “não quero que pareçam estúpidos, isto não é TikTok, é cinema”.

Depois pararam. Demorou três ou quatro dias. No recreio era mais difícil. Na sala era fácil. Eu podia circular à vontade.

A estética do filme foi decidida desde o início?

Sim. Quando fazemos um documentário, vamos filmar sem saber tudo. Eu tinha ideias grandes, mas não os detalhes.

Sabia que não queria filmar escadas, corredores. Não é sobre o lugar, é sobre o que acontece ali.

Optou por não fazer entrevistas…

Porque não me interessava. Queria fazer um filme onde o espectador entra. Não está a ouvir alguém falar sobre algo, está dentro.

A escola mudou hoje? Tem um papel mais amplo?

Não sei se substitui os pais, mas alguns professores acreditam que ensinam e educam. Outros não querem educar. E há pais que não querem que a escola eduque.

Mas a escola é um lugar onde a criança pode ser livre, igual às outras. É o centro da sociedade. Senti isso muito fortemente.

O filme responde aos estereótipos sobre os subúrbios?

Sim. Em França desprezam-se os filhos de imigrantes, os professores, os subúrbios. Mas o que vi foi o contrário.

As crianças querem aprender. Não é verdade o que as pessoas dizem sobre os subúrbios. Não havia violência como dizem. Nada de armas, nada disso.

Considera este filme político?

Sim. Era importante mostrar que a extrema-direita está errada. A escola pode ser um lugar de esperança.

O cinema francês também reforça esses estereótipos?

Sim. Mostra violência, conflitos. Mas é importante mostrar a beleza.

Teme o contexto atual?

Sim. Tenho medo da guerra — pela primeira vez — e da extrema-direita. É ignorância. É estupidez.

Sente que os professores são desvalorizados?

Não são respeitados. Muitos tinham outras profissões. Escolhem isto por convicção.

Mas optou por focar-se nos alunos e não nos professores…

Porque é mais interessante quando estão com as crianças. Esse é o tema. A relação.

Trabalha por intuição?

Sim. Totalmente.

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