Nas batidas de martelo da sua filosofia, Nietzsche alerta: “Há mais ídolos no mundo do que realidades”. A observação feita por ele no século XIX agravou-se a partir da década de 1950 com a invenção chamada televisão, arena do amaríssimo thriller Primetime, cujo maior acerto é fazer crer que fará de Robert Pattinson um herói enquanto gasta 1h49 a demolir códigos do heroísmo, os clássicos e os modernos. Ao mesmo tempo que desenha — sob um prisma crítico — a personagem real que o atual Batman interpreta — o apresentador, jornalista e youtuber americano Christopher Edward Hansen —, a longa-metragem mapeia a transformação da teledramaturgia global a partir do boom dos reality shows e programas investigativos, ao longo dos anos 2000. Num tempo em que Lost era uma promessa de renovação do storytelling, no meio do luto dos fãs de Seinfeld e de Friends pelo fim dessas icónicas séries, a hipótese de transformar a caça a criminosos “de verdade” num espetáculo pop passou a valer ouro para emissoras que sabiam explorar o sensacionalismo.

Hansen ganhou holofotes como vedeta de To Catch a Predator, no qual encenava modos de apanhar pedófilos em flagrante. Ficou no ar com essa atração de 2004 a 2007, no Dateline NBC, e, depois de a dinâmica ali ruir, repetiu a estrutura de “flagrantes” arriscados noutros canais. A conexão da sua operação mediática com o chamado “jornalismo de entretenimento” (mais preocupado com a forma do que com a notícia) poderia ser um prato cheio para uma genealogia audiovisual dedicada aos bastidores da notícia, onde entram obras de Ace in the Hole ao seriado The Newsroom (2012-2014). O eixo dramático (de toques políticos e existencialistas) que levou um artesão do documentário, Lance Oppenheimer (de Some Kind of Heaven e da coqueluche You Can See Everything), a interessar-se por esse universo não é o mecanismo espalhafatoso de Hansen e da sua equipa para desmascarar adultos famintos por menores, mas sim a ética que está por trás de um exercício de “justiçamento”, não de justiça.

A cada novo episódio, o show de variedades sinistras de Hansen mostrava predadores em ação. O modo como ele se comporta, sob o endosso da sua emissora e da sua equipa, é próximo do de um vigilante… quase como o tal Homem-Morcego que Pattinson viveu no ecrã em 2022. A diferença é que o Cruzado de Gotham City, massacrado internamente por traumas de infância, queria impedir que outros cidadãos da sua metrópole ficassem órfãos à força do crime. O Batman age para proteger o seu povo. Hansen age para subir a audiência.

Pattinson apropria-se dessa figura numa chave (contagiante) de culpa, de dúvida e de um severo arrependimento. Comemorar vitórias num meio em que miúdos são postos em risco não é exatamente uma atitude digna de loas. Ao perceber isso, numa crise familiar das mais penosas, sob a ameaça de uma imprensa barata, sintonizada com um caso extraconjugal na sua rotina, o Hansen de Pattinson vira um sintagma reflexivo do que há de mais podre nas raias da espetacularização do mundo cão.

Com a sabedoria da escuta que a não ficção lhe deu, Oppenheimer é sagaz o suficiente para não se ater apenas ao astro que pavimenta a produção. Dá vez à produtora do seu programa, Andie, a quem Merritt Wever empresta fragilidade e gana. Dá vez a um aspirante a ator cuja hipótese de alcançar o estrelato é encarnar uma isca para monstros da pedofilia, o jovem Dan Plum, a quem Skyler Gisondo dá uma dimensão shakespeariana.

Ao mesmo tempo, em vias plásticas, Oppenheimer alcança exuberância na montagem digna de taquicardia de Daniel Garber, capaz de reproduzir o padrão operacional de um canal de televisão de grande dimensão. A fotografia de David Bolen segue o mesmo padrão. A maior sacada deste sagaz estudo sobre responsabilidade vem da escolha de um outro documentarista (também comediante), Alex Winter, o parceiro de Keanu Reeves na franquia Bill & Ted, como uma das “presas” do “caçador de predadores”. Mais metacinema do que isso, impossível.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
primetime-robert-pattinson-e-como-a-estetica-da-responsabilidade-da-audienciaPattinson apropria-se dessa figura numa chave (contagiante) de culpa, de dúvida e de um severo arrependimento.