Entre 23 de setembro e 2 de outubro, o Rio de Janeiro volta a transformar o cinema numa ferramenta de reflexão sobre as mudanças ecológicas com a 15.ª edição do Filmambiente. Criado em 2011 pela produtora e curadora Suzana Amado, o festival apresenta gratuitamente 60 filmes, brasileiros e estrangeiros, distribuídos por oito mostras — quatro competitivas e quatro temáticas —, tendo o Estação Claro Rio como principal ponto de exibição, além de sessões e atividades noutros espaços do Rio e de Niterói. Sob o eixo Ações e Consequências, a seleção deste ano aproxima sustentabilidade e justiça climática de questões sociais.
A abertura acontece no dia 23 de setembro, às 20h30, no Estação Claro Rio, com uma homenagem à bióloga Liliane Lodi, pioneira no trabalho de conservação de cetáceos no Brasil e responsável por projetos como Baleias & Golfinhos do Rio de Janeiro e Ilhas do Rio. A historiadora, professora e escritora Ynaê Lopes dos Santos, curadora dos painéis temáticos, participa na cerimónia. Em 2026, os debates organizam-se em torno de Rizoma das Américas: descolonização em movimento, tema que atravessa também parte das inquietações políticas e ambientais da programação.
Às 21h, a sessão inaugural apresenta Sob as Bandeiras, o Sol (2025), de Juanjo Pereira, coprodução entre Paraguai, Argentina, França, Alemanha e Estados Unidos que recorre a imagens de arquivo para investigar a ditadura de Alfredo Stroessner e as suas ligações a outros regimes autoritários latino-americanos. O documentário interroga ainda o papel dos meios de comunicação na fabricação do poder, no controlo da memória e na permanência contemporânea desse legado.
A competição reúne quatro categorias — Longa-Metragem Brasileiro, Longa-Metragem Internacional, Curta-Metragem Documentário e Curta-Metragem Ficção e Animação — e tem entre os destaques internacionais Molly vs A Máquina, de Marc Silver, investigação sobre o suicídio de uma adolescente e a sua exposição a conteúdos nocivos nas redes sociais, e Poder no Deserto (2025), de Emiliano Rodriguez Nuesch. Este último acompanha três comunidades afetadas pela transição energética, da Califórnia ao chamado Triângulo do Lítio, entre Argentina e Chile, discutindo a distância entre a promessa de energia limpa e os custos sociais e ambientais da sua exploração.

Na mostra Batalhas do Dia a Dia, o brasileiro Agrotóxicos Sem Fronteira: Um Dilema Global, de João Amorim (na foto acima), acompanha a geógrafa Larissa Bombardi numa investigação sobre pesticidas proibidos na Europa que continuam a ser produzidos e exportados para países do Sul Global. O documentário expõe mecanismos políticos, empresariais e regulatórios ligados àquilo que Bombardi define como “colonialismo químico”.
O encerramento da competição, no dia 30 de setembro, às 21h, fica a cargo de Katô: Sonhos da Terra Escura, de Zaya Ralita Benazzo e Maurizio Benazzo. Produzido nos Estados Unidos, o filme acompanha os Munduruku de Sawré Muybu, na Amazónia, na luta para proteger as águas do Tapajós da contaminação por mercúrio associada à mineração ilegal e para preservar a memória e as tradições dos seus antepassados. A programação do Filmambiente prolonga-se até 2 de outubro.
Fundadora do Filmambiente e responsável pela curadoria de uma seleção feita a partir de quase 400 filmes de 60 países, Suzana Amado defende que o cinema ambiental não pode limitar-se a informar. Em conversa com o C7nema, fala da necessidade de procurar obras capazes de transformar informação em experiência estética, da crescente presença dos povos originários atrás das câmaras e de uma tradição ambiental que, no Brasil, pode ser encontrada muito antes de o termo se transformar numa categoria cinematográfica.
Qual é o papel estético de um festival que investiga as transformações ambientais do planeta?
É uma questão estratégica do Filmambiente selecionar filmes que tenham qualidades cinematográficas — tanto narrativas como estéticas e técnicas. Vivemos uma época de intenso bombardeamento de imagens; a todo o momento, vindas de diferentes lugares, invadem o nosso quotidiano sem pedir licença. No Filmambiente procuramos filmes que proporcionem, de facto, mais do que informação de qualidade — que, diga-se de passagem, também se tornou uma questão fundamental nesta era de manipulação e de fake-tudo. Filmes realizados com arte e mestria, capazes de chegar ao público através dos sentidos, criar empatia e emocionar. Por isso, de ano para ano, não são muitos, mas são os melhores que conseguimos reunir nesse período.
Quais são os temas mais urgentes com que se deparou durante a curadoria?
Não acho que, nestes 16 anos, os temas tenham mudado muito. É a eterna questão Norte-Sul e os resultados cada vez mais visíveis da forma como o homem, especialmente o homem branco e colonizador, se relaciona com a natureza e a espolia, e das suas consequências nos rios, mares, oceanos e em todos os recantos da Terra. O que realmente tem mudado é a forma de abordar esses temas. A cada ano, produções de extrema qualidade — técnica, estética e narrativa — dão força ao protagonismo dos povos originários. São cada vez mais frequentes os filmes realizados e narrados por eles, na primeira pessoa; muitos deles em coproduções internacionais de elevada qualidade. Os temas constantes são o envenenamento da terra pela extração de petróleo, gás e diferentes minerais, as formas absurdas de descarte dos resíduos e a utilização de químicos na exploração; o consumo abusivo da água por poucos em detrimento da maioria; o plástico, os pesticidas e os seus vestígios nos rios, mares e oceanos. Em suma, a forma desrespeitosa como o homem se relaciona com o ambiente onde vive, ao contrário dos povos originários que, em todos os cantos do planeta onde ainda resistem, lutam para restabelecer o equilíbrio com a terra e manter a sua cultura.
De que maneira avalia a produção de narrativas ambientais no Brasil?
A questão ambiental sempre esteve presente no cinema brasileiro, mesmo quando não a identificávamos dessa forma. De Vidas Secas (1963) a Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Iracema (1974) a Cabra Marcado para Morrer (1984), até aos mais recentes Bacurau (2019), Pureza (2022) e muitos outros. O que é bastante natural. O artista narra aquilo que precisa de deglutir, seja para compreender, denunciar ou elaborar. E, num país como o nosso, em que o uso indevido da terra, o coronelismo, o trabalho semelhante à escravatura, a mineração irresponsável e a espoliação das riquezas parecem eternos… bem, os filmes refletem isso. De qualquer modo, a produção de filmes brasileiros considerados “ambientais” tem crescido bastante. Em quantidade e em qualidade.
O que mais e melhor mudou com esse crescimento?
E aqui também as vozes originárias têm encontrado o seu protagonismo. Do início desbravador, com Raoni (1978), de Luiz Carlos Saldanha e Jean-Pierre Dutilleux, e o projeto Vídeo nas Aldeias, de Vincent Carelli, aos filmes de Luiz Bolognesi, Marco Altberg, Laís Bodanzky e Maya Da-Rin, até coproduções internacionais sofisticadas como Yanuni (2025), tão falada nos últimos dias por ser coproduzida por Leonardo DiCaprio, e outras, algumas presentes na nossa programação deste ano. Entre elas está, inclusive, a que vai encerrar o festival, Katô: Sonhos da Terra Escura (Katô: Dreams of Dark Earth), uma produção dos Estados Unidos, realizada por Zaya Ralita Benazzo e Maurizio Benazzo, que dá protagonismo ao povo Munduruku da bacia do Tapajós e à sua batalha de décadas contra o mercúrio da mineração, por água limpa e pela floresta em pé.

