Hollywood empenhou-se como pôde para formatar o HD estético de Phillip Bradley Bird e dar-lhe o comando de superproduções live-action com estrelas de grande projeção mediática, como Tom Cruise e George Clooney, com quem fez Ghost Protocol (2011) e Tomorrowland (2015) – ambos descartáveis. Não foi possível para o americano de Montana separar-se da liberdade criativa radical que a animação lhe assegurava, sobretudo depois de ter dado a essa indústria uma pérola afetiva como The Iron Giant, em 1999. Mesmo quando a Pixar comprou o seu passe, a fim de fazer dele o seu atacante mais infalível, instigada pelo êxito dele em The Incredibles, de 2004, ele sentiu-se achatado na sua forma de olhar para subjetividades avessas aos códigos de normatividade de uma sociedade como a dos EUA. As suas personagens são sempre figuras que procuram a segurança das margens (um pouco como ele), vide a sua adequação ao projeto de farta popularidade Ratatouille (2007), para o qual foi enviado às pressas. O camundongo que queria ser chef é um solitário que encontra (e pratica) a sua verdade nas franjas dos processos legais, o que se repete agora no herói à moda de Robert Mitchum que ele apresenta ao audiovisual no seu novo (e notável) exercício autoral animado: Ray Gunn.

A Netflix serve um pouco como porto seguro para um filme gestado por Bird longe da Pixar e da Disney, num formato sci-fi que lhe assegura muitas deixas cinemáticas – algumas de nos cortar a respiração – ao mesmo tempo que assenta a sua dramaturgia na genealogia noir. É uma daquelas tramas de detetive típicas da América pós-Grande Depressão, que se liga à escrita enigmática (ou seja, à marca autoral) do realizador no seu interesse pelo preconceito contra formas de vida alienígenas. Ray Gunn, o seu Sam Spade dionisíaco, com a voz de Sam Rockwell, é um investigador que estendeu a mão aos ETs e abraçou as diferenças estelares sem qualquer estranheza. Ele é a medida de um futuro onde a empatia não passa de um jogo retórico de governos racistas.

A montagem de Darren T. Holmes e Karl Armstrong equilibra o ritmo frenético deste neonoir com ecos de Blade Runner e da BD Nathan Never, que conta com a luxuosa presença de Tom Waits no elenco de vozes, como o parceiro insectoide de Gunn. O fracasso financeiro da sua rotina de investigação da privacidade alheia pode chegar ao fim quando ele precisa de verificar o perigo em torno da estrela multimédia Venus Nova (Scarlett Johansson), numa metrópole em que o mercado fonográfico lembra a realidade dos músicos do fim do século XX. Há muita manipulação, há um xadrez de aparências, há corrupção. Nesse cenário, brota uma paixão da personagem de Rockwell pela ave canora de Scarlett, que atua com excelência na composição vocal de Venus.

Embora os traços conversem com códigos juvenis de representações antropomórficas, o que pode assegurar a atenção de públicos mais jovens, Ray Gunn é uma animação adulta, de verve geopolítica, que desobstrui as veias narrativas de Bird que a Pixar entupiu com a sua estrutura pasteurizada de psicologizar o quotidiano. O que se vê aqui é um espetáculo visual cheio de adrenalina, que investiga métodos intolerantes de exclusão. Mesmo nos momentos em que se torna um tanto genérico, a longa-metragem compensa essa deficiência com um frescor sinestésico inusitado para os padrões do verbo “animar” nos Estados Unidos de hoje. Bird é um mestre e deixa isso evidente neste divertido regresso à sua autonomia pura.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
o-detetive-ray-gunn-reanima-a-obra-de-brad-birdRay Gunn é uma animação adulta, de verve geopolítica, que desobstrui as veias narrativas de Bird que a Pixar entupiu com a sua estrutura pasteurizada de psicologizar o quotidiano.