Em fevereiro deste ano descobri um festival compacto realizado na cidade de Seattle, nos EUA. Com curadoria brasileira, organizado sob a égide do Northwest Film Forum, decorreu a edição de 2026 do Travessias Brazilian Film Festival (27-28/02), ou, como lhe chamarei, Travessias. O festival afirma-se como uma iniciativa relevante no atual circuito internacional do Cinema brasileiro. Funciona menos como uma simples mostra e mais como um espaço de mediação cultural entre cinematografias ainda pouco visíveis fora do país.
Com uma programação enxuta, composta por quatro longas-metragens — Manas (2025), Motel Destino (2024), Criadas (2025) e O Último Episódio (2025) — o festival opta por um recorte simples, ainda assim coerente. As obras escolhidas são retratos recentes que evidenciam ideias claras sobre como fazer Cinema. Há objetividade nas personagens, no espaço que habitam e nas próprias histórias.
Num contexto internacional em que o acesso ao Cinema brasileiro contemporâneo continua irregular, frequentemente dependente de festivais de grande dimensão ou de exibições pontuais em circuitos especializados, eventos como o Travessias assumem uma função estruturante. Muitos dos filmes apresentados, apesar do reconhecimento crítico no Brasil e da presença em mostras relevantes, enfrentam dificuldades em consolidar uma distribuição consistente fora do país, sobretudo junto do público europeu. A programação surge, assim, como um gesto de aproximação entre cinematografias e espectadores, contribuindo para atenuar assimetrias persistentes no limitado mercado global de exibição.

Em Manas (2025), de Marianna Brennand, o drama desenvolve-se num universo feminino marcado pelo doloroso desprendimento da infância. Marcielle, a protagonista, navega no seu barco pelos rios da Ilha de Marajó, no Pará, entre tensões latentes e uma violência atmosférica. Apesar de a realização privilegiar o respeito e a delicadeza nos momentos mais tensos, alguns dispositivos fílmicos são utilizados de forma mais ostensiva. O enquadramento é frequentemente fechado, em grandes planos ou contra-plongée, com a mobilidade da câmara nos interiores. As interpretações destacam-se pela economia gestual. Tudo isso reforça uma sensação de compressão nos momentos-chave. O trabalho sonoro é determinante: predomina o som ambiente amazónico, com o chilrear das aves e o farfalhar da vegetação, e a quase ausência de música extradiegética cria um campo acústico onde o silêncio das personagens adquire peso dramático. A tensão instala-se na duração e na expectativa, culminando na explosão inevitável entre pai, filha e o eixo indivíduo-Estado.

Já Motel Destino (2024), de Karim Aïnouz, desloca a violência e a própria linguagem cinematográfica para outro campo de perceção. Acompanhamos um jovem que, fugindo do passado e das consequências das suas escolhas, procura abrigo num motel no litoral do Ceará. Num ambiente de tonalidade neo-noir, estabelece-se uma rede de relações carregadas de desejo, tensão sexual e conflito iminente. O corpo assume centralidade na linguagem do filme: o calor constante, a transpiração, as roupas leves intensificam a atmosfera. Heraldo, a protagonista, é contraditória e ambivalente: tanto pode descarregar uma pistola como beijar apaixonadamente os seus antagonistas. A luz artificial em néon — vermelha, roxa e azul — cria uma sugestão onírica de desejo. A arquitetura do motel, com corredores estreitos e pequenas janelas de cunho voyeurístico, estrutura a progressão dramática. Os quartos fechados configuram zonas limítrofes; as personagens aproximam-se cada vez mais nos enquadramentos e já não se sabe se o espaço é reduto salvífico ou enclausuramento. O espaço deixa de ser mero cenário e torna-se elemento ativo da encenação.

Em Criadas (2025), escrito e realizado por Carol Rodrigues, a ação desenrola-se num ambiente familiar particular: duas primas, outrora distantes, voltam a viver juntas. Rapidamente se percebe que o trabalho doméstico é o terceiro elemento daquela casa, organizando o quotidiano e as relações afetivas. O filme aborda frontalmente a dimensão racial inscrita no serviço doméstico no Brasil, revelando hierarquias persistentes mesmo em contextos aparentemente harmoniosos. Ressentimento, culpa e dependência emocional surgem como forças silenciosas que moldam os comportamentos das protagonistas. A opção por rejeitar flashbacks, fundindo passado e presente em cenas únicas, confere uma dimensão quase surreal à narrativa. As protagonistas veem-se enquanto crianças e interrogam-se sobre as marcas indeléveis da infância. O argumento insiste na ideia de que herdamos dívidas e privilégios em ciclos de opressão ou desgaste financeiro. A realização privilegia gestos quotidianos e repetições comportamentais. A tensão torna-se catártica apenas no final, embora esteja disseminada ao longo dos 105 minutos.

O Último Episódio (2025), de Matheus Martins, introduz uma mudança de ritmo. Apesar de também abordar a infância, é o filme menos vinculado a pautas sociopolíticas. Centra-se na transição para a adolescência e na memória nostálgica. Um narrador omnipresente, em tom autobiográfico, convida o público a revisitar a própria infância como quem folheia um álbum de fotografias. As cartelas que assinalam a passagem do tempo evocam páginas de álbuns Kodak; a referência a Dungeons & Dragons, fenómeno marcante da juventude brasileira dos anos 1990, integra essa estética saudosista. Surge ainda a ascensão do pentecostalismo nos meios urbanos mais desfavorecidos. O filme explora as transformações nas amizades de infância e a inevitabilidade da mudança. Essa inflexão tonal enriquece a programação, acrescentando diversidade temática e uma nova semiótica à reflexão sobre crescimento e identidade.
A seleção não se organiza em torno de um único eixo temático, mas revela uma convergência formal evidente. Em diferentes geografias — Pará, Ceará, São Paulo e Minas Gerais — o espaço estrutura a experiência dramática. Os lugares, marcados por barreiras físicas e simbólicas, condicionam escolhas e definem possibilidades. Nem todas as mudanças são viáveis para as personagens, resultando num Cinema em que o corpo permanece imerso numa rede de influências e causalidades. A gestão do som, a duração dos planos e o uso expressivo do silêncio — como em Manas— ou da música pop insistente — como em O Último Episódio — revelam uma aposta na construção gradual de sentido. O conflito raramente surge em explosões narrativas; é erguido progressivamente, nos gestos e na repetição dos ciclos.
Ao escolher obras que demonstram uma clara consciência estética e domínio da linguagem cinematográfica, o Travessias não se limita a apresentar uma amostra representativa: propõe uma leitura da produção brasileira contemporânea. O valor deste Cinema reside na exploração rigorosa do dispositivo — enquadramento, duração, sonoplastia — enquanto ferramentas estruturantes de significado. Não se trata de um Cinema orientado para a dramatização espetacular dos problemas, mas para a sistematização da experiência.
Ao reunir filmes que ainda não circulam regularmente no exterior, o Travessias amplia o seu alcance e insere-os num contexto de receção mais vasto. Evidencia-se, assim, a importância das plataformas cinéfilas especializadas como mediadoras entre produção e público, sobretudo no caso de cinematografias cuja presença internacional depende ainda de circuitos independentes. O festival afirma-se como um espaço de continuidade, reflexão e passagem — uma verdadeira travessia — que mantém vivo o diálogo com um Cinema esteticamente coeso e consciente da sua própria linguagem.

