Inaugurada em janeiro com a Mostra de Tiradentes de Minas Gerais, a temporada anual das maratonas cinéfilas competitivas de longas e curtas do cinema brasileiro tem encontrado no Fest Aruanda, na cidade de João Pessoa, na Paraíba, uma espécie de fecho de honra, marcado por uma aposta refinada em marcas autorais e pautas sociais.
A 18ª edição do evento começou na quinta-feira, no Nordeste brasileiro, com a projeção do documentário “Nada Será Como Antes”. Um dos filmes mais tocantes de Ana Rieper, realizadora de “Vou Rifar Meu Coração”, a produção inaugurou as reflexões audiovisuais paraibanas, que seguem até 6 de dezembro, na rede Cinépolis, localizada no Manaíra Shopping. Fotografado por Jacques Cheuiche, o filme cartografa os passos históricos do álbum musical “Clube da Esquina”, na MPB.

O LP é considerado por muitos críticos musicais como um dos melhores de todos os tempos. Milton Nascimento, Lô Borges – então com 16 anos – e músicos do porte de Nivaldo Ornelas, Toninho Horta, Beto Guedes, Robertinho Silva e Wagner Tiso criaram ali uma sonoridade única, que ajudou a revolucionar a música brasileira, ampliando o prestígio mundial. “Nada Será como Antes” mergulha nas experiências sonoras destes criadores excecionais para entender como referências musicais diversas refletiram em cada um deles e na obra atemporal que criaram.
Na sexta-feira, o Fest Aruanda exibiu as duas primeiras longas-metragens da sua competição oficial: o tenso “Citrotoxic”, de Julia Zakia, sobre as sequelas de venenos agrícolas na vida de um Brasil poluído, e o delicioso painel de época “Saudosa Maloca”, de Pedro Serrano. Zakia arranca um desempenho acachapante da atriz Bianca Joy Porte, no papel de uma comissária de bordo que leva a filha para uma breve temporada no campo, onde estranhas atitudes de um trabalhador rural, que espalha produtos agrotóxicos nas plantações, vão abalar a sua paz – e a nossa. A montagem aumenta a frequência cardíaca.
Já Serrano cria um conto divertidíssimo (apesar dos seus momentos tristes) sobre a gentrificação de São Paulo a partir das aventuras do compositor e cantor Adoniran Barbosa (1910-1982), vivido por um Miklos em estado de graça. Igualmente encantadora é a atuação do duo formado por Gustavo Machado e Gero Camilo.
Concorrem ainda “Levante”, de Lillah Halla (premiado pela Fipresci em Cannes); “Ana”, de Marcus Faustini; “Peréio, Eu Te Odeio”, de Tasso Dourado e Allan Sieber; e “Othelo, o Grande”, de Lucas H. Rossi dos Santos.
Há ainda a competição Sob o Céu Nordestino, com a exibição de “Cervejas no Escuro”, de Tiago A. Neves; “Memórias da Chuva” de Wolney Oliveira; “Saudade Fez Morada Aqui Dentro”, de Haroldo Borges; e “Sem Coração”, de Nara Normande e Tião.
Para o encerramento das suas atividades, o Fest Aruanda – que se desenrola sobre a gestão do crítico e professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Lúcio Villar – exibe a curta “Vandré no Exílio” e o festejado “Black Rio! Black Power!”, de Emílio Domingos.

