Springsteen: Deliver Me from Nowhere: Som, fúria, franqueza

Falou-se em tom de brincadeira sobre uma possível continuação de Springsteen: Deliver Me from Nowhere, que poderá vir a concretizar-se caso a longa-metragem de Scott Cooper — já em exibição em Portugal e com passagem pela Mostra de São Paulo — cumpra as suas duas vocações: a) tornar-se um êxito de bilheteira, à semelhança de outras cinebiografias musicais como Bohemian Rhapsody e Rocketman; b) transformar-se num íman de Óscares.

Jeremy Allen White em Springsteen: Deliver Me from Nowhere (2025)

Essa possibilidade surgiu durante a conferência de imprensa do filme para a Golden Globe Foundation e fez o seu protagonista, o próprio The Boss, a ave canora do rock’n’roll Bruce Frederick Joseph Springsteen, sorrir — mas em sinal de concordância.

“Isso pode acontecer, seria como o ‘Rocky’”, brincou o músico responsável por êxitos como Born in the U.S.A., satisfeito por se ver no ecrã num dos títulos mais aguardados do final do ano — e da temporada de prémios que antecede a cerimónia anual da Academia de Hollywood. “Cresci numa época em que era preciso pedir permissão para nos expressarmos. O meu amigo realizador John Sayles costumava dizer: ‘Faço os meus filmes para o agora’. É assim que componho canções. O filme do Scott retrata isso, ao mostrar um artista no momento da criação.”

Baseado no livro de Warren Zanes, Springsteen: Deliver Me from Nowhere acompanha a criação do álbum Nebraska, concebido por Bruce Springsteen em 1982, quando era ainda um jovem músico à beira do estrelato global, a lutar para conciliar as pressões do sucesso com os fantasmas do seu passado. Há um amor pelo meio do caminho, há pressões da indústria discográfica e há o afeto dos fãs que o rodeiam. Há, ainda, o desejo de expressar inquietações existenciais — é isso que o disco regista. Gravado num gravador de quatro pistas, no quarto de Springsteen, em Nova Jérsia, o LP marcou um momento crucial na vida do cantor — e na cena musical norte-americana — sendo considerado uma das suas criações mais importantes e de maior sucesso comercial, com uma toada crua e atormentada. É Jeremy Allen White, da série The Bear, quem dá vida ao ídolo do rock.

“O Bruce é muito franco na sua música… e na sua vida. Por isso, neste período que retratamos, tentámos compreendê-lo a partir das suas canções”, disse Jeremy Allen White ao C7nema, depois de analisar o conflito interno de Springsteen com o pai, Douglas, interpretado por Stephen Graham. “O perdão está no centro deste filme. É sobre a relação entre pai e filho. Pensei muito no meu pai, na minha infância, e agora nas minhas filhas. O Bruce não teve o pai num pedestal durante muito tempo. O pai era imprevisível, por vezes assustador. Isso deixou-o desconfiado em jovem. Mas o bonito é que, no filme, vemos um Bruce que ama profundamente o pai, sem rancor, entendendo as suas falhas. Há uma cena climática com o Stephen Graham, que faz de Doug, em que há quase uma inversão: o Bruce está no colo do pai, mas é ele quem assume a posição paternal — aberto, disponível. Na minha vida, o perdão também me permite seguir em frente. E no caso do Bruce, o filme mostra-o a libertar-se, a avançar.”

Jeremy Strong e Jeremy Allen White em Springsteen: Deliver Me from Nowhere (2025)

Com um orçamento de 55 milhões de dólares, Springsteen: Deliver Me from Nowhere volta a aproximar Scott Cooper da cena de artistas performativos do cancioneiro popular americano, já explorada em Crazy Heart (2009), que valeu a Jeff Bridges um Óscar. O realizador traz elementos cinéfilos à sua nova longa, com alusões a Badlands (1973), de Terrence Malick, e The Night of the Hunter (1955), de Charles Laughton. Em resposta ao C7nema, o cineasta elencou as suas referências estéticas para escapar às fórmulas das biografias musicais: “A fotografia de Robert Frank, especialmente ‘The Americans’, a preto e branco, foi uma das nossas referências fundamentais. O Bruce dizia-me que, quando pensa na infância e no pai, recorda tudo em imagens a preto e branco — daí as recordações e a capa do álbum Nebraska serem assim. Para as partes contemporâneas inspirei-me no Terrence Malick — que até me cedeu imagens de Badlands usadas no filme —; em Thief, de Michael Mann; em The Last Waltz, de Martin Scorsese; e em Chungking Express, de Wong Kar-Wai. Todas essas obras influenciaram o modo como concebi o filme”, explicou o realizador, admitindo ter sido arrastado por essa dramaturgia para discutir o tema da depressão e outros distúrbios da ordem psíquica.

“Essa é, na verdade, a principal razão pela qual fiz o filme — para além do meu amor por Nebraska. Quis compreender a figura de Bruce Springsteen num momento profundamente pessoal. Nos Estados Unidos, há uma verdadeira crise de saúde mental. Atinge-nos a todos, independentemente da classe social. E tocou pessoas muito próximas de mim. Por isso, pensei: se posso fazer um filme sobre Bruce Springsteen — alguém que, à primeira vista, tem tudo para ser feliz —, posso lançar luz sobre algo ainda estigmatizado, especialmente entre os homens. Muitos homens da geração dele, e até da minha, têm medo de dar voz à dor. Mostrar essa vulnerabilidade é essencial. E devo dizer que é preciso muita coragem artística do Bruce Springsteen para me permitir contar esta história. Quando se faz um filme sobre ele, é fácil cair na tentação de seguir o caminho já trilhado das biografias musicais — os grandes êxitos, as canções que vendem. Mas tanto o Bruce como a 20th Century Studios permitiram-me fazer um filme verdadeiramente sobre um homem a atravessar uma crise de saúde mental — que, por acaso, é Bruce Springsteen.”

Existe ainda outro eixo de excelência na narrativa: o companheirismo entre Springsteen e o seu manager e produtor, Jon Landau, cuja interpretação poderá valer a Jeremy Strong indicações a prémios da temporada.

Jeremy Strong e Jeremy Allen White em Springsteen: Deliver Me from Nowhere (2025)

“O Jon escreveu: ‘Consumíamos música como se fosse o pão da vida’. A sua devoção à música é total. E a sua devoção ao Bruce é total — tanto ao amigo e ao homem como ao músico e ao artista. O que torna o Jon tão singular é essa devoção pura, desinteressada, que vai muito além da carreira de uma estrela do rock. Ele escreveu um ensaio em que dizia: ‘Sem paixão não há compromisso; sem compromisso não há nada — nem energia, nem rigor, nem intensidade e, no fim, nem honestidade’. Eu subscrevo totalmente isso: a ideia de que é preciso viver com compromisso, rigor, intensidade e honestidade”, afirmou Strong durante a conversa. “Se, por um lado, o Bruce é The Boss, o Jon é The King. Chamavam-lhe assim.”

Springsteen tem acompanhado o percurso do filme com o mesmo entusiasmo combativo que o caracteriza: “Enquanto compositor, estamos habituados a revelar-nos. Faz parte do trabalho. Não sinto que seja coragem — é simplesmente o que fazemos. É a forma como ajudamos o público a contextualizar a vida. Mas também acredito que o estereótipo de masculinidade com que cresci nos anos 1950 já não funciona. É essencial ter acesso às emoções e poder expressá-las. Sempre vivi assim. Por isso, foi natural seguir esta história.”

Depois da Mostra de São Paulo, que termina na próxima quinta-feira, Springsteen: Deliver Me from Nowhere chegará às salas brasileiras já no fim de semana de 30 de outubro.

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