Laure Calamy, a prolífica operária da leveza

Laure Calamy abre um grande sorriso ao escutar do C7nema uma piada que circula sobre ela com frequência: “Estima-se que, hoje, faça um filme por minuto e, provavelmente, deve estar a representar nesta entrevista, para que ela se transforme em cinema”. Facto é: há 75 produções no currículo que esta atriz, nascida em Paris há 52 anos. Ela começou em 2001 e marca presença frequente na TV, no teatro e no cinema.

A sua visita ao Rio de Janeiro deve-se a C’est quoi l’amour? (O Que é o Amor?), de Fabien Gorgeart, apresentado no Festival de Cinema Francês do Brasil, depois de já ter estreado comercialmente em Portugal. Nele, Laure interpreta Marguerite Hélias, uma mulher que reencontra o antigo marido numa situação tão inesperada quanto reveladora: ele precisa que ela anule o casamento religioso dos dois para poder voltar a casar-se. O que parece uma simples formalidade transforma-se numa viagem a Roma, com os filhos e os atuais companheiros de ambos.

Nesta conversa, ela fala sobre a relevância do companheirismo na representação das relações sociais.

Em C’est quoi l’amour?, há uma ideia muito bonita: os amores não se anulam, acumulam-se. Que espaço existe para o amor no cinema francês de hoje?

Somos feitos de muitas histórias, de experiências diferentes, que podem coexistir e sobrepor-se. Não têm necessariamente de apagar umas às outras. Não somos obrigados a eliminar quem fez parte da nossa vida. Podemos continuar a viver com essa pessoa de outra maneira. E a ternura também é uma forma de amor — diria até que tem uma dimensão política. É importante podermos continuar a conversar, mesmo quando não estamos de acordo, e sermos capazes de acolher o outro.

Que noção de família se encontra nessa narrativa de Gorgeart?

A declaração de amor da filha ao padrasto, a personagem de Lyes Salem, é um momento magnífico. Eu própria sou madrasta e essa situação emocionou-me profundamente. Acho que faz bem vermos uma família recomposta em que as coisas funcionam, em que as pessoas conseguem encontrar o seu lugar. Há também uma reconciliação com aquilo que fizemos, com a ideia de que cada um fez o melhor que pôde. A vitalidade continua presente, mas, à medida que envelhecemos, torna-se mais difícil conservar a ternura por nós próprios e pelos outros, assim como uma certa elegância nas relações. O filme aborda tudo isso de uma forma aparentemente ligeira, mas há camadas muito profundas por baixo da superfície.

O filme também fala da dificuldade de envelhecer e de aceitar os caminhos que não pudemos seguir. Como se relacionou com essa dimensão da personagem?

É uma das grandes provas da existência humana: envelhecer bem. Há uma espécie de nostalgia ligada ao facto de estas pessoas se terem amado quando eram jovens e de agora terem de olhar para aquilo em que se transformaram. Também existe a consciência das coisas que não conseguimos realizar como gostaríamos, das frustrações e de alguma amargura que pode surgir com o passar do tempo. Mas é bonito perceber que a vitalidade não desaparece. O desafio é continuar a encontrar uma maneira de viver com os outros, sem perder a ternura. Gosto de o filme conseguir falar de questões tão profundas sem deixar de ser aparentemente leve.

O seu trabalho tem uma relação muito particular com o silêncio. Mesmo num cinema francês tão marcado pela palavra e pelo diálogo, consegue comunicar muito através do olhar, da escuta e daquilo que fica por dizer. Como transforma essa tensão numa ferramenta de interpretação?

É uma questão que me toca muito, porque tenho uma relação complexa com a palavra. Adoro as palavras, a escrita e a linguagem, mas posso sentir-me bastante intimidada quando tenho de falar ou de me exprimir — até em entrevistas. Interessa-me muito aquilo que existe antes da palavra, depois da palavra ou por baixo dela: tudo o que não dizemos, ou que não conseguimos dizer. Ao mesmo tempo, fascinam-me as pessoas que se exprimem com grande eloquência.

É esse o seu caso ou é mais a quietude?

Quando estou a representar, porém, sinto-me mais livre, como se conseguisse escapar a algumas das minhas próprias limitações. Gosto também de uma frase de Montaigne: «A palavra pertence metade a quem a diz e metade a quem a escuta». Acho-a muito bonita. Para mim, representar também é isso: estar verdadeiramente presente, olhar, escutar e oferecer essa presença ao outro.

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