Antonin Baudry sobre “De Gaulle”: “Não se pode contar a história da França Livre num único filme”

Por vezes, como no caso de Antonin Baudry, por trás da imagem de realizador com apenas duas longas-metragens — se considerarmos De Gaulle como uma só obra dividida em dois filmes — esconde-se um percurso que ajuda a perceber melhor por que razão os produtores apostaram nele para um projeto de grande orçamento (75-80 milhões de euros).

Formado na École Polytechnique como “engenheiro de pontes, águas e florestas”, ao mesmo tempo que prosseguia uma formação literária na École Normale Supérieure, em Paris, onde se diplomou em 1998 e fez uma pós-graduação em cinema, Baudry começou a dar nas vistas no mundo artístico através do pseudónimo Abel Lanzac. Em colaboração com Christophe Blain, foi ele o criador da banda desenhada Quai d’Orsay (2010-2011), uma sátira aos bastidores da diplomacia francesa, fortemente inspirada na sua própria carreira política e diplomática, já que, em 2004, tornou-se conselheiro no Ministério do Interior francês e, entre 2010 e 2014, foi conselheiro cultural na Embaixada de França em Washington.

Niels Schneider no papel do marechal Leclerc e Antonin Baudry durante a rodagem de La Bataille de Gaulle. Foto: Malgosia Abramowska/Pathé Films/TF1 Films Production/Belvédère/Auvergne-Rhône-Alpes Cinéma.

Baudry acabaria por revelar a identidade por detrás do pseudónimo, particularmente depois de a banda-desenhada ter sido premiada em Angoulême e de a sua adaptação chegar ao cinema pelas mãos de Bertrand Tavernier. Anos depois, estreou-se na realização com Le Chant du loup (2019), um thriller passado no universo dos submarinos nucleares, onde já abordava questões de estratégia e hierarquia, não faltando o sentido de responsabilidade e o poder das decisões tomadas sob enorme pressão.

Chegamos assim a De Gaulle: Resistência, estreado em Portugal a 8 de outubro, e De Gaulle: Liberdade, com estreia marcada para 29 de outubro, dois filmes que acompanham Charles de Gaulle a partir de junho de 1940, quando a França capitula perante a Alemanha nazi e o então general decide partir para Londres, recusando aceitar a derrota. A partir daí, o realizador segue a construção da França Livre, os conflitos internos, os obstáculos políticos e militares e a lenta transformação de De Gaulle numa figura central da resistência francesa, numa altura em que esse desfecho estava longe de ser evidente.

Para o realizador, a divisão em dois capítulos não surgiu apenas da extensão dos acontecimentos, mas da necessidade de preservar a complexidade desse percurso. “Não se pode contar a história da França Livre entre 1940 e 1944 num único filme. Seria uma grande deslealdade para com a história deles”, explicou Baudry ao C7nema em Cannes, este ano, acrescentando que existiram “tantos altos e baixos, tantos momentos de viragem, obstáculos, personagens e batalhas”, incluindo aquelas que são do campo moral, que a história exigia duas partes distintas, com energias muito próprias.

Anamaria Vartolomei e Florian Lesieur em De Gaulle, nos papéis de Livia, personagem fictícia inspirada em várias mulheres da Resistência, e Fernand Bonnier de La Chapelle, jovem da Resistência

Admitindo ser um fervoroso adepto da História, mas não tanto dos conflitos militares, como os seus primeiros filmes poderiam fazer pensar, Baudry explicou que aquilo que verdadeiramente o interessa é colocar as personagens perante situações em que ainda não conhecem o desfecho: “Neste filme, tentei realmente contar a história a partir do presente das personagens. Sem saber o que viria depois. Sem saber o que viria a ser a figura icónica de De Gaulle ou aquelas pessoas.”

É precisamente essa incerteza que procura recuperar em De Gaulle, retirando à personagem o peso da figura histórica em que mais tarde se transformaria. “O que tinham diante deles era o vazio. Era correr riscos pelas suas famílias, serem condenados à morte por uma causa que tinha todas as probabilidades de fracassar. E, mesmo assim, fizeram-no.” Por isso mesmo, mais do que reconstruir uma sucessão de acontecimentos militares, interessava-lhe perceber as escolhas feitas por pessoas que, naquele momento, não tinham qualquer garantia de que a História acabaria por lhes dar razão. “O que me movia era ser fiel à história da França Livre, que é, à sua maneira, uma cavalaria, uma cavalaria moderna”, explicou, acrescentando que encontrou também em Dom Quixote um paralelo para esse percurso: “Em França, as pessoas não sabem nada disto. Não sabem quantos obstáculos De Gaulle teve de enfrentar (…) Eles não sabem que De Gaulle estava completamente sozinho no início, que recebia as poucas pessoas que iam ter com ele sentado na cama porque não tinha mais nada onde as receber.”

Benoît Magimel interpreta Pierre Koenig, um dos principais comandantes da França Livre e herói da batalha de Bir Hakeim

Para chegar a essa dimensão menos conhecida, o realizador mergulhou numa extensa pesquisa, acumulando diferentes leituras e perspetivas antes de escrever o argumento com Bérénice Vila: “O meu ponto de vista mudou radicalmente, leitura após leitura, livro após livro. E isso foi fascinante.” É desse processo que nasceu um De Gaulle ainda distante do monumento histórico, confrontado com as derrotas, rivalidades e uma luta cuja vitória, naquele momento, estava longe de ser garantida.

Afirmando que o seu próximo filme poderá ser completamente diferente, Baudry insiste que não pretende ficar preso ao cinema histórico. “Não estou particularmente interessado em filmes históricos”, diz, antes de esclarecer: “Claro que tenho muito interesse por História. Leio muitos livros de História, mas também leio poesia, também leio ensaios.” É precisamente essa abertura a outros géneros e referências que o leva a afastar qualquer ideia de especialização: “O meu próximo filme pode ser ficção científica ou outra coisa qualquer.”

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