Figura fundamental na construção da França do século XX, o general Charles de Gaulle tem inspirado múltiplos cineastas a levar a sua história ao cinema, sendo Antonin Baudry o mais recente realizador a fazê-lo através de dois filmes, De Gaulle: Resistência e De Gaulle: Liberdade, com estreia marcada em Portugal para os dias 8 e 29 de outubro, respetivamente.
Esta ambiciosa cinebiografia em dois capítulos parte do momento em que, em junho de 1940, a França capitula perante a Alemanha nazi e De Gaulle recusa aceitar a derrota. Os filmes acompanham a sua partida para Londres e o início de uma luta quase impossível, quando ainda não era o herói nacional nem a figura mítica do imaginário francês.
Com Simon Abkarian no papel principal, o díptico procura combinar o retrato íntimo de um homem que esconde as emoções com a escala épica de uma grande produção histórica.
Na entrevista que se segue, realizada durante o Festival de Cannes, Simon Abkarian fala-nos da responsabilidade de interpretar De Gaulle, da dimensão quixotesca que encontrou na personagem e do trabalho físico necessário para preservar a sua “majestade”.
O ator franco-arménio de origem libanesa aborda ainda a sua relação com a História e os mitos, explica por que razão não acredita no realismo e encontra ecos entre o período retratado no filme e o presente.

O projeto foi parcialmente inspirado por Dom Quixote. Há alguma coisa de quixotesca na forma como construiu De Gaulle?
Sim, há. A linguagem corporal é muito, muito importante em tudo o que faço. Neste caso, como ele diz, para mim era importante estar sempre direito em cima do meu cavalo.
Não assim [inclina-se], sempre assim [endireita-se]. E não interessa quão pobre se é, quão pobre se parece, se a armadura está partida, se a espada está podre, se o capacete está partido ao meio: mesmo assim, nunca se perde a majestade.
Essa ideia de majestade foi importante na construção da personagem?
Penso que, se ele perde a majestade, morre. Morre. E foi ele quem devolveu a majestade à França, lavando a sua honra. Pode dizer-se isso em inglês, “washing its honor”? Em francês dizemos laver l’honneur.
E onde termina a comparação entre De Gaulle e Dom Quixote?
Dom Quixote morreu quando deixou de acreditar no seu sonho. A diferença em relação a De Gaulle é que, em vez de morrer, tornou o seu sonho realidade. É aí que termina a comparação. E isso é ainda mais interessante para mim enquanto tema para um filme.
Qual é a sua relação com a História?
Adoro História. Adoro a História sabendo que a História é escrita por quem ganha, pelos vencedores. E sei isso enquanto francês, sei isso enquanto arménio, sei isso enquanto libanês.
Eu não adoro matemática, adoro mitos. Mesmo. Adoro… histórias verdadeiras que construíram as nossas civilizações. Gosto disso. Mesmo que existam coisas de que já não gostamos, sabendo qual era o lugar das mulheres, etc., etc., ou o racismo que podia existir, etc., etc. Mas, ainda assim, adoro a Ilíada e a Odisseia. São livros que leio muitas vezes.
E preciso também de ler outras coisas, coisas de outros países, poesia, etc., etc.
Disse que não acredita no realismo. Porquê?
Porque, como digo, não acredito no realismo. A realidade, para mim, não existe a partir do momento em que começamos a debatê-la nos filmes.
Quer dizer, é distorcida, sempre distorcida. Preciso que seja colocada dentro de uma forma, seja escrita, seja representada. E é uma representação: representar a vida, representar a História, reescrever a História. Temos de reescrever a História.
Um filme histórico implica então, inevitavelmente, reescrever a História?
Quer dizer, ele reescreveu a História. Reescreveu-a. Porque há cenas que ninguém sabe se existiram e as pessoas perguntam: “Ele fez aquilo? Aquilo aconteceu?”
É uma questão interessante para mim, porque, a partir do momento em que a dúvida existe, a história torna-se verdadeira. Quer dizer, verdadeira porque falamos dela. Uma coisa é um facto. É um facto, uma data, duas linhas: De Gaulle, aquilo, Resistência, adeus.
Como se sentiu quando lhe ofereceram o papel de De Gaulle? Teve medo de aceitar algo desta dimensão?
Fiquei surpreendido por um tipo decidir fazer um filme sobre um tipo louco, mas quando percebi que ele era tão louco como o tipo de quem estava a falar, disse: “Está bem, alinho.”
Não, porque é preciso ser… Quer dizer, é uma piada, mas é preciso ser um bocadinho louco. E eu, sendo também um bocadinho louco, disse que sim.

Não teve medo de interpretar uma figura desta dimensão?
Não tive medo porque não me podia dar ao luxo de ter medo. Se tenho de representar este tipo de herói, seria um insulto para o homem que estou a tentar encarnar e interpretar ter um ator cobarde a chegar e dizer: “Vais interpretar-me? Não te aceito.”
Tenho os medos que nós, atores, podemos ter: “Está bem? É a escolha certa? Não é a escolha certa?” Que se foda. Quer dizer, temos de avançar imediatamente.
Como De Gaulle.
Sim.
Essa atitude também marcou a sua relação com Antonin Baudry durante a rodagem?
Penso que todos nós, nesse sentido, tentámos ser cavaleiros, sabe? Direitos, a dizer: “Amar, queres fazer isto?” Nunca lhe disse… nunca. A palavra N-Ã-O, nunca lha disse. Nunca.
Porque ele dizia-me: “Quero fazer isto.” “Sim, está bem, faço.” “Faz um pouco mais assim, mais preciso, bum, bum.” “Está bem, faço.”
Isso é uma forma de sermos nobres, porque este homem… aquilo que há de nobre em nós, ele convoca a nossa nobreza. Nobreza? Sim, nobreza. E agradeço-lhe por isso.
Quer dizer, quando lemos aquilo, dizemos: “Vou ser um herói. Vou ter a oportunidade de me tornar um herói.”
Falou do seu gosto pelos mitos. Mas, quando vejo o filme, não consigo deixar de pensar no presente, na possibilidade de os próximos presidentes em França ou na Alemanha virem de determinados movimentos. Vejo ecos, avisos, uma atualidade no filme.
Sim, mas quando falo de mitos, falo de materiais que nos dão força filosófica, força política. Onde quer que eu possa ir buscar força, vou buscá-la. E a primeira fonte dentro de mim, aquilo que me constrói, é isso.
E, claro, isso ajuda-me a reconhecer quem está a tentar vender-me alguma coisa.
Veja, quando trabalhei esta personagem, De Gaulle, não o observei apenas nos arquivos. Também observei Mussolini e Hitler.
Observei-os com outros olhos. Vi-os. Mas quando os vemos falar e movimentar-se nos discursos, tudo é… o mundo fica a flutuar. Porque esses dois homens falam ao medo dos seus próprios povos.
De Gaulle fala à consciência deles, à sua consciência, à sua nobreza.
Vê essa mesma exploração do medo nos movimentos fascistas atuais?
Agora já não existe isto, isto, isto com os fascistas que estão a aparecer. Têm boas gravatas, bons fatos. Perceberam que o uniforme já não funciona. Mas continuam a falar ao medo. Portanto, isso conseguimos reconhecer.
Conseguimos reconhecer aquilo que está a chegar se ouvirmos bem, se prestarmos atenção. E, ainda por cima, dizem: “Não, está enganado, não estamos a falar disso. Estamos apenas a dizer que há demasiada imigração.”
E isso eu vejo, claro que vejo. Quando há pouco falavam de pessoas que estão a fazer filmes sobre este período, penso que os artistas sabem tocar o sino, dar o alarme.
E penso que estes filmes que estão a sair têm de mostrar a esta geração, aos miúdos que estão a crescer aqui, a viver neste país próspero, que pessoas da idade deles, há 80 anos, deram a vida para que eles pudessem ter esta prosperidade.
A prosperidade pode fazer uma sociedade esquecer esse passado?
Quando se vive num país próspero, há uma tendência para esquecer, porque está tudo bem.
Sou arménio, libanês. Sei que eles ainda se lembram disso porque a ferida ainda não cicatrizou.
E o problema da prosperidade é que existe uma tendência para esquecer. E penso que o eco daquele tempo, das pessoas que se sacrificaram, que abandonaram os estudos, os amores, os sonhos, etc., pegaram em armas e entraram na clandestinidade… Para estas pessoas, aquela situação aconteceu. E penso que o eco daquele momento precisa de ser ouvido agora.

Considera então que o período em que vivemos não é assim tão diferente daquele que o filme retrata?
Isso é importante para mim, porque não é um momento diferente. É diferente… não é um período diferente. Para mim, é o mesmo período. A linguagem mudou e os processos tecnológicos mudaram, mas o período é o mesmo, porque o fascismo continua aqui. Esta ideologia continua aqui.
Portanto, o período continua a ser o mesmo. O fascismo e o nazismo são invenções modernas. Não são invenções antigas.
Quando olhamos para Mussolini, temos diante de nós o criador desse movimento. E quando olhamos para Hitler… Agora temos estas pessoas que se apresentam de forma mais discreta, que se vendem de outra maneira, como vendedores que estão a vender-nos outra coisa: “Não se preocupe, já não há uniformes, já não há luvas, já não há isto… Vai correr tudo bem. Falamos a mesma língua.”
E são ajudados, sabe, pelo capitalismo, que já não tem obstáculos para exercer o seu poder.
É isso que penso, enquanto simples cidadão.
Achou que tinha alguma semelhança física com De Gaulle? Alguém alguma vez lhe tinha dito isso?
O nariz.






