“Cada filme é um pequeno milagre”: Guillaume Nicloux estreia “Mi Amor” em Roterdão

(Fotos: Divulgação)

Mais conhecido pelas suas múltiplas parcerias cinematográficas com o escritor Michel Houellebecq — L’Enlèvement de Michel Houellebecq (2014), Thalasso (2019) e Dans la peau de Blanche Houellebecq (2024) — o cineasta e romancista francês Guillaume Nicloux está de regresso ao grande ecrã com Mi Amor, thriller que teve a sua estreia mundial no Festival de Roterdão, integrado na secção Limelight.

Com um elenco que inclui Pom Klementieff, Benoît Magimel e Àstrid Bergès-Frisbey, Nicloux — também responsável por A Religiosa (2013) e O Vale do Amor (2015) — conduz-nos às Ilhas Canárias, um território solar e inquietante onde Romy (Pom Klementieff), uma DJ francesa, se vê confrontada com o desaparecimento de uma amiga. Num contexto dominado pelo turismo de massas e pela proliferação de cultos e rituais obscuros, a polícia local revela-se evasiva e ineficaz. Determinada a não desistir, Romy inicia a sua própria investigação com a ajuda de Vincent (Benoît Magimel), avançando por um labirinto de comunidades fechadas, práticas ritualizadas e um perturbador santuário de animais.

Guillaume Nicloux

“Fui várias vezes às Ilhas Canárias, seja a Fuerteventura, Tenerife ou Gran Canária, e na minha vinda, há três anos, senti verdadeiramente o desejo de escrever uma história que se passasse aqui, nomeadamente no sul da Gran Canária”, explicou Nicloux ao C7nema sobre a origem do projecto. “As coisas mudaram, e voltei alguns meses depois para escrever a história no local, para ter um primeiro esboço. Não sabia que o filme iria ser um thriller, mas senti que o tema do desaparecimento se impunha. É um tema recorrente em vários dos meus filmes, e foi assim que a história se construiu.”

Assumindo o seu interesse pelas Ilhas Canárias enquanto território historicamente aberto e socialmente diverso, marcado pela convivência entre comunidades alternativas, minorias e grupos marginais, Nicloux cruza a realidade contemporânea com a memória dos Guanches, povos indígenas do arquipélago quase apagados pela colonização, que funcionam no filme como um substrato histórico e simbólico. “Mesmo não sendo um documentário, isso permite-me alimentar um fundo sobre o qual a imaginação se constrói”, afirma o realizador.

Mi Amor

Depois de terminar a escrita — que decorreu sem ter nenhum ator em mente — começou então a “pensar na forma como o visual devia existir”, o que o levou a adoptar um procedimento técnico muito preciso: “filmar em infravermelhos, sem alterar a cor da pele dos atores, em inversão colorimétrica”. Essa opção explica por que motivo “os espectadores notam que não há verde no filme”, já que “as cores estão invertidas” e a vegetação se transforma — “o verde fica mais laranja, vermelho escuro, bordô”. Esta escolha estética permitiu-lhe “de forma bastante imediata, realizar o filme mantendo as personagens totalmente centradas numa realidade que permanece o mais normal possível”, evitando “algo totalmente fantasiado” e procurando antes “algo que existisse numa realidade possível”.

Outro elemento central do filme é o trabalho musical, desenvolvido em parceria com Irene Dresel, compositora e produtora musical francesa. A decisão passou por fazer com que “as peças musicais fossem compostas antes das filmagens”, permitindo assim “difundir a música” durante o próprio processo de rodagem. Trata-se de um método que o realizador já tinha experimentado em A Religiosa, quando Max Richter compôs as peças antecipadamente. Este procedimento, que Nicloux define como “um pouco inverso”, contraria a prática habitual em que “os cineastas trabalham a música depois do filme estar montado”, criando aqui um diálogo contínuo em que imagem e som se influenciam mutuamente e em que “o filme também o inspirasse musicalmente”.

Mi Amor

Sobre a escolha do título Mi Amor, o cineasta explica que a decisão vai além de uma simples expressão espanhola. “‘Mi amor’ também soa a ‘mise à mort’ (morte). Há esse duplo sentido. Como o yin e o yang, o quente e o frio. ‘ Meu Amor (Amo-te)’ e ‘mato-te’. Existe algo paradoxal.”

Presentemente a desenvolver Article 353, a partir do romance de Tanguy Viel, com Vincent Lindon e Jonathan Cohen no elenco, Nicloux sublinha que a situação do cinema é hoje particularmente complexa e que cada filme que nasce continua a ser um “pequeno milagre”. “Para mim é complicado porque os meus filmes nunca entram em categorias muito precisas. São muitas vezes flutuantes, com universos móveis”, diz-nos, deixando claro que a diversidade do seu cinema está conectada “a um equilíbrio frágil entre a história que quer contar” e aquilo que se coloca de si próprio. “É sobre como personalizamos o projeto e como saímos diferentes depois dele”, conclui.

O Festival de Roterdão termina este domingo, 8 de fevereiro.

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