Roterdão tem um faro apurado para a adrenalina e aprecia filmes de ação que circundam zonas limítrofes entre o cinema B, o trash ou o gore na representação da violência, sem perder de vista os caldeirões multiculturais onde cartilhas de género são fervidas, como é o caso, na sua 55.ª edição, de Love Samurai.
A sua personagem (ou quase isso) é japonesa, a trama carrega traços da Ásia feudal, o cenário mais duradouro no ecrã é a Indonésia e o realizador é um americano da Califórnia que adoptou Portugal como lar e base de operações: Josh C. Waller. Uma das iguarias da mostra Harbour, a longa-metragem evoca, sim, os épicos de Akira Kurosawa (1910–1998), mas com uma diferença: o perigo, em cena, é representado por canibais. E famintos.
Waller filmou a saga do espadachim Riku (vivido por Shogen Itokazu, que hoje assina apenas Shogen) ciente de um princípio:
“Todos nós, seres humanos, tentamos sobreviver todos os dias, a cada momento, e somos todos heróis nas nossas histórias pessoais. É por isso que as histórias de ‘sobrevivência’ são tão identificáveis. Claro, pode não estar naufragado numa ilha deserta, mas às vezes pode sentir-se assim, mesmo que esteja sentado na sua sala de estar rodeado de pessoas”, diz o cineasta, em entrevista por e-mail ao C7.
Fã dos medalhões autorais nipónicos Masaki Kobayashi, Kihachi Okamoto e Takashi Miike, usa a palavra ilha em referência ao inferno insular onde Riku aporta, após ser levado por uma onda. Lá, ferido e assombrado pelo fantasma de amores perdidos, o Ronin precisa escapar a um povo que consome carne humana em rituais violentíssimos. Artistas marciais indonésios de prestígio, no cinema e no desporto, encarnam integrantes desse grupo canibal, entre eles Yayan Ruhian e Rama Ramadhan. As pelejas de Riku contra essas personagens rendem sequências de batalha capazes de desafiar a gravidade.
“Com uma produção como Lone Samurai (2024), que tenta activamente subverter os clichés, é preciso apoiar-se na natureza original do filme. Não se pode tentar ‘encaixar’ o filme em algo que ele não é, porque o público vai sentir-se enganado. O público deve saber de antemão: ‘Ei, estas pessoas estavam a tentar fazer algo diferente’. Para mim, isso é o cerne de ser artista”, explica Waller, que, como produtor, assina um filme de culto nas raias da barbárie, distinguido na Quinzena de Cineastas de Cannes, em 2018: Mandy (2018), de Panos Cosmatos, com Nicolas Cage imerso em cocaína, empunhando uma serra eléctrica.
Como realizador, Waller filmou com a duplo profissional, atriz e parceria sazonal de Tarantino Zoë Bell em Camino (2015) e Raze (2013).
“O Raze (2013) foi o meu primeiro filme e foi muito intenso no departamento de ação e acrobacias. Ter a Zoë como protagonista e parceira de produção foi vital para o seu sucesso. Fazer o meu primeiro filme, que fosse um filme de ação, e ter uma das melhores duplos do mundo como protagonista, foi uma lição que nunca esquecerei”, recorda Waller. “Quando fizemos Camino (2015), alguns anos depois, simplificámos os nossos objetivos em termos de ação, mas eu estava a aprofundar a minha compreensão do que podia fazer dentro do espaço e a tentar correr mais riscos cinematográficos. Há tantos elementos que adoro em Camino, mas foi uma rodagem difícil. Depois disso, afastei-me da realização por algum tempo para me concentrar na Spectrevision e na produção. Precisava de reavaliar. Foi durante esse período de introspeção que Lone Samurai surgiu.”
Drunken Master (1978), Game of Death (1978) e The Fugitive (1993) transbordam conforme Waller fala das referências que o formaram ainda nos EUA, antes de partir para Portugal, onde passou a viver em plena pandemia e onde fundou a Woodhead Creative, uma firma disposta a ajudar quem ambiciona filmar tramas de género na “terrinha”.
“É uma produtora de serviços de produção para pessoas interessadas em filmar género em Portugal. Posso ser uma voz de entendimento para quem quer filmar lá”, explica Waller. “Não há muitos filmes de género feitos no país. Esforço-me por criar, quem sabe, uma primeira vaga de terror português.”
O festival de Roterdão decorre até 8 de Fevereiro.

