Valor Sentimental: universal na alma, norueguês nos pés

Agendado pela Alambique para estreia em Portugal a 29 de janeiro, Sentimental Value (Affeksjonsverdi) chega mais cedo aos ecrãs brasileiros, como um presente de Natal para cinéfilos, no dia 25 de Dezembro — data em que se celebra o nascimento de Cristo, funcionando aqui como símbolo alegórico de reencontros e reconexões familiares. A ideia de um lançamento festivo como dádiva ao público brasileiro nasce da forte expetativa gerada por este filme desde a sua primeira projeção pública no Festival de Cannes, de onde saiu consagrado com o Grande Prémio do Júri. Desde Maio, o drama de Joachim Trier acumulou mais 22 distinções e cerca de 145 nomeações para prémios de peso, incluindo oito indicações aos Globos de Ouro. É mais um momento de afirmação para a Noruega, que, em Fevereiro, conquistou o Urso de Ouro da Berlinale com Dreams (Sex Love), de Dag Johan Haugerud, já estreado em território português. Agora, é a vez de Trier garantir novas alegrias à sua cinematografia nacional.

“O traço mais norueguês de Sentimental Value talvez seja o facto de toda a gente tirar os sapatos ao entrar em casa ou andar de meias”, brincou Joachim Trier em entrevista ao C7nema. “Durante metade do ano, a Noruega está coberta de neve e toda a gente tem os pés molhados. Entrar numa casa norueguesa é um pouco como no Japão: tiram-se os sapatos e ri-se sempre. Há algo de inevitavelmente cómico nisso”.

Valor Sentiimental

O humor ligeiro do realizador de Louder Than Bombs (2015) dá rapidamente lugar a uma reflexão mais grave quando fala da identidade do seu país. “A forma como a Segunda Guerra Mundial afectou a Noruega, sobretudo durante a ocupação, deixou marcas profundas. Não é uma experiência única, claro, mas é algo que me interessa abordar. Tenho uma história familiar em que o meu avô foi capturado durante a guerra e ficou profundamente traumatizado. Essa geração raramente falava sobre essas feridas. Para mim, havia aí uma dimensão histórica importante a explorar”.

O trauma a que Trier se refere em Sentimental Value — intitulado Valor Sentimental no Brasil, numa tradução literal — não remete diretamente para as chagas do nazismo evocadas pelo cineasta numa conversa via Zoom com o C7nema, promovida pela Golden Globe Foundation. Rodado em Oslo, com sequências filmadas em Deauville, França, o filme mergulha antes em angústias paternas e filiais, entrelaçando-as com conflitos de bastidores do próprio cinema. Trier retoma aqui a parceria com a monumental Renate Reinsve, depois de The Worst Person in the World (2021), num relato devastador sobre acertos de contas entre pai e filhas, cruzando teatro, cinema e afetos interrompidos. O seu percurso rumo aos Óscares surge, assim, cada vez mais sólido.

Tento não pensar em géneros quando trabalho. Penso na verdade humana”, afirma o cineasta. “Pode soar pretensioso, mas é genuíno. Tento compreender o que aquilo que mostro faz o público sentir”. Em Janeiro, a MUBI Brasil incluirá também Reprise (2006), a sua primeira longa-metragem, na programação, com o título Começar de Novo.

Escrito por Joachim Trier em colaboração com Eskil Vogt, o argumento de Sentimental Value aborda o peso dos laços de sangue a partir da relação simbiótica entre as irmãs Nora e Agnes, interpretadas por Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas — ambas nomeadas para os Globos de Ouro. As duas reencontram o pai ausente, o carismático cineasta Gustav Borg, vivido por um Stellan Skarsgård em estado de graça. O actor sueco, recorde-se, foi um dos intérpretes-fetiche de outro Trier — o dinamarquês Lars von Trier — em obras como Breaking the Waves (1996) e Nymphomaniac (2013).

Joachim Trier na rodagem de “Sentimental Value”
– Crédito: Cristian Belgaux

Na narrativa do filme, Nora e Agnes perderam há muito o contacto com Gustav. Após o suicídio da mãe, ele afastou-se progressivamente da vida familiar para se dedicar a uma carreira consagrada no documentário. No momento em que Nora atinge o auge da sua trajetória como atriz nos palcos escandinavos, o pai regressa e propõe-lhe o papel central num projeto que marca o seu retorno à ficção. Perante a recusa da filha, Gustav entrega o papel a Rachel (Elle Fanning), uma jovem estrela de Hollywood que ambiciona ser mais do que um rosto da indústria. A chegada da atriz obriga as duas irmãs a confrontarem mágoas antigas e a exorcizarem fantasmas há muito silenciados.

Existe uma solidão profunda na evasão do pai face à intimidade”, observa Trier. “As filhas sentem isso, mas não sabem como atravessar esse vazio nem como falar sobre ele. Estas personagens estão todas emocionalmente carregadas e, de formas problemáticas, incapazes de se alcançarem umas às outras. Esse é o verdadeiro conflito”.

O favoritismo de Sentimental Value incide sobretudo na categoria de Melhor Argumento, enquanto Stellan Skarsgård surge como um dos nomes mais fortes na corrida ao Óscar de Actor Secundário desta temporada.

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