Estreado na mostra ACID, paralela ao último Festival de Cannes, Entroncamento marcou o regresso de Pedro Cabeleira, realizador de Verão Danado e By Flavio, dois filmes que, tal como este novo, têm a sua ação no Médio Tejo.
“Foi um filme difícil de concluir, passou por várias fases, sobretudo na montagem, que durou praticamente dois anos.”, explicou-nos o jovem realizador em Cannes, ainda não antecipando que chegaria ao Festival do Rio, onde conta com várias exibições durante a semana. “Houve alturas em que já me sentia perdido, mas antes de enviarmos o filme para ser visto em Cannes, conseguimos finalmente encontrar o filme que queríamos.”

Com a estreia nacional marcada para 26 de março, Entroncamento conta a história de Laura (Ana Vilaça) que, em fuga de um passado turbulento, refugia-se na cidade do Entroncamento para reconstruir a sua vida. Dividida entre um emprego honesto e os esquemas do pequeno crime, ela cruza-se com uma juventude desencantada não muito diferente de si. Nas ruas da cidade ferroviária sobressaem as lealdades, a ganância, a violência e a má sorte — com toda a gente a querer uma vida melhor.
Laura acaba por ser um belo exemplo da frustração da falta de oportunidades para a juventude nestas pequenas cidades, explica Cabeleira. “Temos personagens que sempre tiveram uma ligação forte à cidade e não quiseram sair, mas que também não veem grande sentido em estudar mais porque sabem que os empregos disponíveis são poucos, mal pagos e duros”.
No caso da Laura, ela consegue um trabalho numa empresa local, mas entra de madrugada, faz esforços físicos enormes e no fim do dia a gratificação não corresponde ao sacrifício.” Não há uma crítica a uma empresa em particular — que até nos recebeu bem para filmar —, mas sim a um problema estrutural: a precariedade laboral e a frustração que daí resulta. Essa frustração é depois instrumentalizada por ideologias neofascistas”, explica Cabeleira.

Já sobre outro dos protagonistas do seu filme, “Gilinho”, interpretado por Henrique Barbosa, Cabelereira aprofunda: “O Gilinho é uma personagem muito especial para mim. O Entroncamento tem uma comunidade cigana grande, sempre muito marginalizada, desde que me lembro. O realizador fez questão de que o papel fosse interpretado por alguém da própria comunidade. Dividido entre a lealdade familiar e o amor por uma mulher não cigana, Gilinho encarna o dilema entre pertença e felicidade, num ambiente onde o preconceito e o peso das tradições continuam a marcar vidas. Para Cabeleira, ele simboliza o “sentido de ninguém” de uma cidade ferroviária construída por sucessivas migrações, que sempre acolheu quem vinha de fora, mas ainda resiste a integrar plenamente a comunidade cigana.
Definindo o seu filme “também como uma metáfora do capitalismo levado ao extremo”, Cabeleira diz que “quem vende mais e quem tem mais dinheiro, ganha estatuto”, sendo o “mercado paralelo um reflexo do real”. E neste mundo do pequeno e grande crime, o ambiente “é marcado pela hipermasculinidade”, com jogos de poder, necessidade de afirmação e luta pela liderança. “Nunca há confiança plena. É um microcosmos de sobrevivência, com códigos de masculinidade de rua: quem tem mais poder, mais dinheiro, mais influência”.






