Estreado mundialmente no Festival do Rio, Justa marca o regresso às salas de cinemas nacionais da cineasta portuguesa Teresa Villaverde, a realizadora de Colo (2017), que disputou o Urso de Ouro de Berlim, além de filmes marcantes do panorama nacional como A Idade Maior (1991), Três Irmãos (1994), Os Mutantes (1998), Transe (2006) e Cisne (2011).
Na época retratada em Justa, Portugal foi devastado por grandes incêndios que destruíram florestas e ceifaram vidas — de crianças e adultos — tanto nas aldeias como nas estradas, onde muitos ficaram encurralados nos carros. O caso teve repercussão mundial. A ação do filme, contudo, não se passa exatamente em 2017, mas algum tempo depois. Acompanha um pequeno grupo de pessoas que perderam os familiares mais próximos e que agora tentam reaprender a viver depois do que aconteceu. A atriz brasileira Betty Faria, diva de telenovelas e do Cinema de selo brasileiro — Tieta (1996), Anjos do Arrabalde (1987) — integra o elenco com destaque. Filomena Cautela, Robinson Stévenin, Ricardo Vidal, Anabela Moreira e Madalena Cunha fazem-lhe companhia.
Na conversa que se segue com o C7nema, em solo brasileiro, Teresa Villaverde faz uma auto-análise estética.

Justa materializa-se em cena como algo universal, mas qual diria ser a essência lusitana da sua reflexão?
Talvez o facto de eu ser portuguesa me faça olhar de um modo específico, mas não sinto algo que marque Portugal ali. Só agora, depois de anos a fazer filmes, começo a estar consciente do que falo… de certos temas que regressam… de filhos que não têm mãe. Somos atraídos por assuntos sem sabermos o que nos mobiliza. Neste caso, tudo começou numa viagem de carro por zonas que tinham ardido. Vi uma senhora sentada numa cadeira, a olhar um vale completamente queimado. Nunca esqueci essa imagem. Fui atrás das pessoas que, como ela, viveram o drama que ali se passou.
Como se deu esse contacto na sua arqueologia da dor?
Não levei sequer um caderno. Conversava apenas. Isso impelia as pessoas a abrirem-se. Mas não quis inspirar-me naquelas personagens de modo a levar os seus casos directamente para o filme, pois isso seria um bocado ilustrativo. As sensações do que eu estava a investigar ficaram em mim, entre elas um silêncio que parecia a quietude do fim do mundo. Isso bastava-me.
Onde entra o seu recorrente parceiro de criação, o director de fotografia Acácio de Almeida?
Nem sei dizer quantas vezes já trabalhámos juntos. O Acácio traz-me paz. Não me põe pressão e permite-me entender o que procuro. O facto de ele vir da película faz muita diferença na luz que imprime.
O que a levou a chamar Betty Faria?
Tinha já consciência da actriz enorme que ela é e, por milagre, enquanto preparava este filme, conheci a Betty e senti que não devia preocupar-me com o facto de “ah, mas o que faz uma brasileira naquelas aldeias?”. Para a dramaturgia de Justa, essa seria uma questão sem sentido. O importante era ter aquela actriz explosiva, com quem é muito fácil trabalhar, porque é de uma generosidade imensa. No meu filme, contracena sempre com não-profissionais, e criou-se uma harmonia total entre ela e os outros intérpretes. Isso faz toda a diferença.
Ao mesmo tempo que lança Justa, Três Irmãos (1994) regressa às salas de cinema portuguesas 30 anos depois. Como olha hoje para esse filme, para a filmografia que construiu ao longo destas três décadas e para a evolução do cinema português desde então?
Só ouvir dizer que já passaram 30 anos é um impacto. A pessoa que fez esse filme à época já não sou eu. Tinha 22 anos e muita coisa mudou. O caso é que houve um restauro e gostei tanto que pensei em pô-lo de volta em circuito, por apenas uma semana. Quanto ao que se passou no cinema português desde a minha estreia, acho melhor que sejam outros a julgá-lo.






