Quase uma década depois de “Elon Não Acredita Na Morte” (2016), um exercício lynchiano sobre desaparecimentos e redescobertas, Ricardo Alves Jr. gravita uma vez mais pelo espaço do mistério, mas pela chave do desejo, em “Parque de Diversões”. Quem sentiu a fragrância de David Lynch no seu thriller de ontem vai encontrar novas conexões estéticas no painel do querer que o realizador de Minas Gerais leva às salas brasileiras. Este seu novo exercício autoral foi projetado em 2024 no FIDMarseille, na França, numa expansão das fronteiras do debate sobre pulsões. O seu tema agora (um deles) é o cruising, gíria (comumente encarada como jargão LGBTQIAPN+) que define a experiência da procura de parceiros sexuais em locais públicos. A partir desse conceito, que pode até misturar potência e carência, mas simboliza sobretudo o prazer e a transgressão, o realizador gerou um poema audiovisual, entre o documentário e a fantasia.
Um ano depois do seu premiadíssimo “Tudo o que Você Podia Ser” (2023), Alves Jr. agora corre as salas de projeção com uma narrativa sensorial e performática, construída num parque urbano de Belo Horizonte, a capital do seu estado natal. Na trama, escrita por Germano Melo, um local com vegetação tropical e brinquedos infantis transforma-se num território de excitação e descoberta, seguindo figuras anónimas que, ao perambularem pelas ruas, encontram um terreno para expressar (e explorar) as suas vontades e incontinências.
Na conversa a seguir, numa troca de mensagens, Alves Jr. fala do seu processo de filmagens em “Parque de Diversões”, que é distribuído pela Cajuína Audiovisual.

O que existe de fabular no “Parque de Diversões” no exercício do desejo?
O fabular está na criação de um território inventado, onírico, para um acontecimento real que ocorre em diversos espaços públicos ao redor do mundo: o cruising. Portanto, é um filme que busca fantasiar, criando uma versão alternativa da realidade. Ainda assim, essa realidade é possível, pois é a realidade do próprio acontecimento do filme. Digo que cada encontro em “Parque de Diversões” tem um caráter real e performático; a encenação está em constante fricção com o risco do real. O caráter fabular aqui se distancia da fábula tradicional, onde uma moral é revelada ao final. No filme, as personagens simplesmente são e vivem. Não sabemos os seus nomes, são anónimos. Não sabemos para onde irão depois dos encontros no parque. Diferente de outros filmes que psicologizam o sexo, em “Parque de Diversões” o sexo é pura ação – não há passado nem futuro, apenas o tempo presente.
Como mapeou essas personagens e de que maneira os dispositivos do documentário se anunciam como um procedimento de construção da dramaturgia no seu processo?
Aisha Brunno, Bramma Bremmer, Igui Leal e Will Soares participaram no meu filme anterior, “Tudo o que Você Podia Ser”. Foi com elas que começamos a desenvolver as ideias para “Parque de Diversões”. O elenco foi sendo formado a partir de um convite aberto nas redes sociais para atores e não atores interessados em compartilhar narrativas sobre voyeurismo e exibicionismo. A partir do interesse demonstrado, foi selecionado um grupo – privilegiando personas queers – que tivesse afinidade e desejo de explorar a sexualidade como um campo performático. Após diversos encontros e dinâmicas, nos quais ocorreram trocas narrativas confessionais sobre experiências em cruising em locais de sexo consensual coletivo, construiu-se um roteiro. Germano Melo, que assina o roteiro, evocou as performances que cada participante gostaria de colocar em cena. Lembro-me de Paul B. Preciado , em “Eu Sou o Monstro Que Vos Fala”, o “monstro”, é alguém que foge das normas cisgénero e heteronormativas, desafiando o sistema que categoriza corpos e identidades. Esse conceito do monstro me remete ao “Cine Monstro”, de Jean-Louis Comolli. É um filme estranho, imprevisível e híbrido, assim como um monstro que combina partes de diferentes criaturas, desafiando fronteiras entre ficção e documentário, entre real e encenação, e, portanto, “Parque de Diversões” busca em sua própria linguagem fílmica a tradução da palavra queer: que é estranho.
Que articulações conscientes faz com a genealogia brasileira do chamado “cinema queer”?
A genealogia do cinema queer brasileiro revela uma trajetória de resistência e inovação. O que começou como representações codificadas e estereotipadas – num reflexo das restrições das décadas passadas – hoje se configura numa produção cinematográfica rica e diversificada, que desafia normas e estéticas, além de ampliar a visibilidade das identidades dissidentes.
Existe uma analogia inevitável e bem-vinda entre este filme e a obra de João Pedro Rodrigues (de “Fantasma” e “O Ornitólogo“). O cineasta português é um ponto de conexão e referência para si?
Assisti ao “Fantasma”, de João Pedro Rodrigues, algumas vezes. O filme ficou em cartaz por meses em Belo Horizonte. A sua fotografia escura e noturna, a obsessão sexual que leva a personagem a uma forma animalesca – tudo isso sempre me marcou. No entanto, em “Parque de Diversões”, há duas referências principais que trabalhamos durante o processo: a longa-metragem “O Lamento da Imperatriz”, da coreógrafa alemã Pina Bausch, e o filme “Goodbye, Dragon Inn”, do diretor Tsai Ming-Liang. Ambos trabalham de forma vertical o ato da performance, explorando a relação entre corpo e espaço. Eles não se preocupam com a psicologização das personagens, mas sim com a performance como ação em estado puro, sempre em relação aos ambientes que ocupam.

