Laura Carreira: “as dinâmicas de vulnerabilidade experienciam-se mais quando és migrante”

Já com algumas curtas-metragens que abordam o mundo do trabalho – “Monday“, “Red Hill” e “The Shift“ -, a portuguesa Laura Carreira estreou-se este ano nas longas com “On Falling“, um drama onde as condições laborais e a vida além do trabalho, quando ela existe, está marcado pela mais pura solidão e alienação. Sentimentos que se adensam quando a migração, que nos leva para um outro país à procura de melhores condições, surge como uma mina capaz de despertar as maiores vulnerabilidades no ser humano.

Emigrada ela mesmo para o Reino Unido, Laura Carreira contou nesta viagem pelo realismo social contemporâneo com a produção da Sixteen Films de Ken Loach. E a influência do britânico, bem como do cinema dos Dardenne, e de muitos mais, como veremos mais abaixo, sente-se na sua impressionante primeira obra, a qual foi selecionada para o Festival de Toronto, este na competição à Concha de Ouro em San Sebastián, de onde saiu premiada, e estreia a 27 de março nos cinemas nacionais.

E foi sobre o seu trabalho e o dos outros, numa sociedade rendida ao liberalismo e capitalismo, que falámos após a exibição do filme em Donostia. Aqui ficam as suas palavras:

Quer as curtas, quer esta primeira longa metragem, têm como foco o mundo do trabalho. O que a atrai a esse tema?

A origem do tema veio logo quando fui viver para a Escócia. Fui para lá estudar cinema, mas houve uma altura em que tive o meu primeiro emprego, criando uma justaposição das duas coisas. Essa experiência do primeiro emprego, do primeiro patrão e do primeiro ordenado fez-me começar a olhar para a vida de forma diferente. O futuro pareceu-me muito menos entusiasmante do que tinha sido até ali. Acho que desde aí estou um pouco a processar sobre o mundo em que vivemos.  O tema do trabalho é algo que não consegui evitar. Nós aceitamos o trabalho como algo tão normal na vida que nem o questionamos. Depois das curtas, sabia que na longa-metragem havia muito para explorar sobre esse tema. 

Aliado à questão do trabalho está o estatuto de migrante. A tua experiência pessoal, de teres ido para a Escócia, também teve impacto na formação e criação deste filme?

Sinto que as dinâmicas de vulnerabilidade experienciam-se mais à flor da pele quando és migrante. A proteção quase social das redes familiares e de amigos desaparece, restando o trabalho. Quando acabei a última curta, comecei a ler sobre centros de atendimento, que é onde a Aurora trabalha – uma área da logística que está cheia de trabalho precário. Descobri os pickers (preparadores de pedidos de encomendas) e achei interessante ver essas personagens rodeadas de objetos, durante 10 horas por dia, a seguirem informação de um scanner que lhes diz, ao segundo, quanto tempo têm para procurar o próximo objeto. A partir daí entrevistei e falei com muitas pessoas que trabalham nisso, as quais influenciaram-me na criação de várias cenas, momentos e temas que o filme aborda. Acho que este filme é uma combinação do que eu senti como migrante na Escócia, nos primeiros tempos, e das muitas conversas que tive com trabalhadores, que foram muito generosos em falar comigo sobre o seu dia a dia.

Joana Santos é Aurora em “On Falling”

Existem já alguns filmes, ficções e documentários, sobre este tipo de locais de trabalho, como os armazéns da Amazon na Europa e nos EUA. Esses filmes também fizeram parte desse processo de investigação?

Sim. No início, a minha ideia era olhar para o lado de exploração do trabalhador, mas quanto mais falei com as pessoas, mais percebi que o filme seria sobre mais que isso. Existe uma biblioteca de artigos sobre quão mau é trabalhar nas indústrias de logística, mas os problemas vão além disso. Muitas vezes perguntava às pessoas que trabalhavam nessa área se estavam à procura de outro emprego. Elas sentiam que outro trabalho não iria resolver o problema. Umas pareciam cansadas até para procurar outro emprego, outras sentiam que noutros empregos iriam encontrar as mesmas dinâmicas. Ou seja, o problema que sentiam não era daquele trabalho em específico, mas geral. 

No que diz respeito a este tipo de trabalhos, com os avanços tecnológicos, a automação e a IA, estima-se que no futuro deixem de ser operados por humanos. Há até quem fale, como o Yuval Noah Harari, que a extinção humana em algumas profissões irá criar uma massa laboral inútil, pois estes não vão conseguir dar o salto para exigências mais técnicas, que estão por trás da criação e gestão dessas mesmas “máquinas”. Alguns governos até já começaram a testar o Rendimento Básico Universal para precaver um eventual cenário de colapso social. Crês que essa será a resposta?

Se só vermos as pessoas como trabalhadoras, consideraremos essa energia humana como inútil. Essas inovações, se forem realmente inovações e forem feitas de forma democrática, podem libertar tempo ao homem. Aliás, já podiam, pois continuamos a trabalhar há muito tempo e não precisávamos. Não sei se a promessa de muitos trabalhos serem automatizados não é exagerada. Hoje em dia, as empresas recebem muito do seu valor pela inovação. Pegando no caso dos “pickers”, já há empresas em que são as prateleiras que vão até às pessoas. Ou seja, existem versões do trabalho da Aurora em que as pessoas já não caminham à procura dos objetos, mas o contrário. Porém, a pessoa ainda está lá. Não existe ainda uma forma de fazer este trabalho sem a pessoa.

Outro elemento interessante no teu filme são as recompensas laborais, como aquela cena do chocolate como troféu. Além disso, temos aquelas ações ao estilo team building, que estão a ser muito instituídas nas sociedades liberais, para criar motivação para a massa trabalhadora. Como é que foi a tua investigação para criar essas cenas? Durante essa investigação encontraste algumas empresas que tentam dificultar, por exemplo, a sindicalização desses trabalhadores precários?

No lado das recompensas, uma coisa que muitas vezes me diziam é que nunca sabiam quais eram os seus “targets”. Eu às vezes perguntava quantos objetos eles recolhiam por hora, ou qual era a meta que tinham de atingir. Muitos diziam que não sabiam. Elas tinham apenas um scanner que contabilizava os segundos.

É um algoritmo que define a meta…?

Exato, mas não havia ninguém que soubesse qual era a meta. Na verdade, existe uma falta de consciência se estão a fazer bem o trabalho ou mal. Muitas referiram que houve dias em que achavam que as coisas estavam a correr bem e depois diziam-lhes que não. Que não atingiram a sua meta. Noutros dias, em que achavam que o dia tinha sido mau e que iam ser penalizados, recebiam um chocolate porque estavam no top dos pickers daquele dia. A história do chocolate como prémio surgiu nessas conversas, em que as pessoas mostravam como se sentiam insultadas por esse ato. Quase preferiam não receber nada, a receber o chocolate.

No que diz respeito à sindicalização, por exemplo, quando eu perguntava se tinham colegas, muitas diziam que não. Ou então não sabiam o nome das pessoas com quem trabalhavam. Isto vinha muito do facto das pausas serem demasiado curtas para as pessoas conseguirem desenvolver conversas, de haver algo mais que uma interação transitória. Também havia o pensamento do porque é que vou estar a perder tempo a conhecer esta pessoa quando para a semana, se calhar, ela já cá não está.  Com este lado transitório do trabalho, quase para se protegerem, essas pessoas não querem criar laços muito fortes. As pausas propiciam muito isso, pois são feitas em períodos e sítios diferentes, tal a dimensão gigantesca destes armazéns. Os trabalhadores fazem a pausa no sítio onde estão. Isso implica que, nas várias pausas, podem não ver as mesmas pessoas. Com o número elevado de pessoas que lá trabalham, é difícil fazer ligações. Para se sindicalizarem, as pessoas têm de se conhecer, o que cria um problema. Essa distância entre as pessoas torna essa tarefa muito difícil, além da quantidade das que saem e entram nesses locais. Não há tempo para as pessoas se conhecerem e juntarem-se a sindicatos.

Essa distância vê-se naquela cena em que acontece algo a um trabalhador e ninguém se lembra do seu nome. Temos ainda aquela cena em que ela decide mudar a etiqueta de um produto, uma corda, numa espécie de desafio.

Isso nasceu porque houve pessoas que me contaram que, no seu último dia de trabalho, decidiram alterar os objetos. Uma espécie de rebeldia, pois a única pessoa que ia ficar chateada era a que tinha encomendado algo que não iria receber. Além disso, falaram-me muito da quantidade enorme de objetos sexuais que encontravam. Quase todos os pickers com que falei mencionaram isso, quando os questionava sobre o que tinha sido mais surpreendente no seu trabalho. Esse facto é engraçado pois vemos o lado mais secreto, o que está escondido, das pessoas. 

Já a cena da corda marca uma mudança. A partir daí o filme torna-se muito mais sobre a perspetiva da Aurora. Ela olha para as cordas e começa a ver um sentido, o que elas significam. Quando ela apanha uma no seu trabalho, a sua perspetiva leva-a a pensar noutros elementos. Queria adicionar esse momento de rebeldia.

O filme segue uma linhagem do realismo social, adaptado aos novos tempos. Que influências cinematográficas tiveste na vida e que te ajudam agora a desenvolver a tua linguagem cinematográfica?

É difícil, mas vamos tentar pelo início (risos). A minha primeira grande influência foi o trabalho do John Cassavetes. Estava em Lisboa a estudar na António Arroio e comecei a ir à Cinemateca. Por acidente vi um filme dele, “Minnie and Moskowitz”, e adorei. Foi assim uma explosão. 

Laura Carreira and Joana Santos Laura Carreira e Joana Santos em San Sebastián © SSIFF – Photo: Angela Losa

Depois descobri o trabalho do Ken Loach e dos irmãos Dardenne, e isso abriu outra porta. Acho que descobri esses filmes numa altura em que os precisava descobrir. Começaram a influenciar-me e foi através dos filmes dos Dardenne que conheci o diretor de fotografia com quem agora trabalho.

Nos últimos anos fui influenciada por filmes de outros lugares. Por exemplo, nos filmes que me acompanharam durante a escrita do meu filme, o “Wanda” da Bárbara Lowden foi uma influência. Vi e adorei. Achei brilhante e sinto que me vai influenciar em todos os filmes que vá fazer. Alguém também me disse para ver “As Noites de Cabíria” do Fellini. Nele há uma personagem que está a passar todos os obstáculos e que continua a resistir. E aquele final… se conseguisse algo assim num filme meu seria uma vitória. Também adorei o “Il posto” do Ermanno Olmi, que descobri há pouco tempo.

 Estes foram filmes que fui colecionando e que não só me influenciaram para fazer este filme como moldaram a minha forma de fazer cinema. Acho fantástico quando criamos uma conexão com um filme. Se formos a ver, os exemplos que dei nem estão ligados ao chamado realismo social britânico.

Mas olhando para a produtora do filme, ligada ao Ken Loach, é um pouco inevitável não falarmos do realismo social.

Sim, claro. Eles viram as curtas e, para mim, a minha maior vitória foi que eles quisessem fazer este filme comigo. 

E foi também uma vitória estar nos festivais de Toronto e San Sebastián. Qual foi a tua sensação quando o filme foi selecionado?

Foi ótima, pois sabemos que é um risco. É a primeira vez que fiz uma longa-metragem e havia muito que não sabia se conseguiria fazer. Nas curtas, por exemplo, trabalhei sempre com uma atriz e um ator. Depois… bem, acho que quando estava a escrever esta longa-metragem não acreditava que alguma vez a ia fazer. Nem me tinha apercebido, mas quando olhamos para o guião vi que tínhamos de encontrar 55 pessoas. Pensei logo que tinha dado um tiro no pé (risos). A realizadora falou com a escritora em mim e disse-lhe: “o que é que foste fazer? Isto foi a maior estupidez!”.  Depois tive de me desenrascar. (risos).

E quanto ao futuro? Tens novos projetos? O trabalho vai continuar a ser tema nos teus filmes?

Enquanto continuarmos a viver a vida que estamos a viver, o trabalho vai continuar a ser um tema em que não consigo deixar de pensar. Estou a desenvolver um argumento com a Film4 e a Sixteen Films novamente. Vai ser sobre o trabalho, mas agora vou para o mundo dos escritórios. Fiz também uma candidatura no início do ano ao ICA para ver se escrevo um outro projeto, agora em Portugal. Ainda não escrevi, só uma ideia que gostaria de explorar. 

Passo muito mais tempo a escrever do que a realizar.

Há alguma ambição que tenhas no cinema? Onde te vês daqui a 10 anos?

Bem, se usar o Ken Loach como exemplo, vou estar a filmar até aos 84 anos. (risos). Um filme de cada vez.

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