Responsável pela mais célebre imersão ficcional do cinema brasileiro na memória da II Guerra Mundial (“Estrada 47”), Vicente Ferraz possuía um histórico invejável com a não ficção antes de se destacar com “Soy Cuba: O Mamute Siberiano”, com o qual conquistou o troféu Kikito de Melhor Documentário em Gramado, em 2005. Chegou a participar de uma longa-metragem coletiva com Chantal Akerman, Pedro Costa e Apichatpong Weerasethakul – “L’État Du Monde”, de 2007 – aplicando o seu ferramental estético. Sem nunca se afastar dos dispositivos documentais, mas sempre utilizando-os sob uma ética de mãos dadas à política, o cineasta resolveu voltar as suas lentes para a realidade dos povos indígenas. O resultado, “O Contato”, é um espetáculo magistral de escuta e de cartografia. Depois de brilhar na competição oficial do É Tudo Verdade 2023, o filme entra em circuito no Brasil neste fim de semana.
Rodando “O Contato”, Ferraz se deslocou até a tríplice fronteira – Brasil, Colômbia e Venezuela -, indo em direção a um vasto e pouco conhecido território chamado Cabeça de Cachorro. Lá, Ferraz acompanha as travessias feitas por personagens que transitam entre as suas aldeias e a cidade indígena de São Gabriel da Cachoeira. Capta-se um universo de trocas multiétnicas, de grande diversidade linguística, de buscas por novos conhecimentos, onde se evidencia a relação dos povos originários com os seus sonhos e com as práticas místicas. Lá, o cineasta testemunha os caminhos de sobrevivência dessas populações que habitam uma região de extrema beleza, ameaçada pelo garimpo e pelo tráfico.
Em entrevista ao C7nema, o realizador explica como mapeou o universo onde vivem os Yanomami, os Arapaso, os Baniwa e os Hupda, num município onde convivem 23 etnias, com 18 idiomas nativos.

Qual é a geografia que se encontra em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, e o quanto ela espelha culturalmente as contradições do Brasil em relação aos seus diferentes povos?
São Gabriel é uma região particular. Além de uma geografia exuberante, coberta por uma densa floresta e por rios caudalosos, com muitas cachoeiras, ela é habitada por 23 etnias, que falam 19 línguas. Tudo isso a faz única no Brasil e, talvez, no mundo. A sua história, porém, é comum ao resto do Brasil em muitos pontos, principalmente no processo de colonização. É comum tanto pela exploração por comerciantes que escravizavam as populações locais como pela invasão das suas terras em busca de ouro e outros minerais, sem falar da catequese, com um resultado nefasto para as suas culturas. Lá, por ser uma região relativamente preservada, vemos tudo isso a acontecer agora, principalmente após quatro anos de desmonte das políticas públicas do governo de Jair Bolsonaro.
Qual é a noção de “colonização” (e de atitude “decolonial”) que pode ser aplicada hoje aos povos que filmou?
Os povos do Alto Rio Negro são organizados e possuem consciência política. Eles estão organizados em diversas entidades, lutam e conseguiram aplicar políticas públicas em favor da preservação da sua cultura. Um exemplo disso é ser um município com mais de um idioma oficial onde as línguas indígenas fazem parte do currículo oficial. Lá é uma região de forte cobiça pelas suas riquezas naturais e eles vivem em permanente conflito com os invasores das suas terras e com a avalanche de projetos no Congresso que querem retirar as suas conquistas.
O quanto o Rio Negro assume um papel de personagem no filme?
Os afluentes do Rio Negro aparecem no filme quase como um personagem. Os rios são as principais vias de trânsito das populações. O cotidiano deles é lá, em idas e vindas a São Gabriel e outras aldeias. Tanto os rios Içana e Aupés são lugares sagrados, onde os mitos de criação apontam locais de surgimento da Humanidade. No caso do filme, mostramos o Buraco de Ipanoré de onde todos nós viemos, segundo as tradições de várias etnias.
De que maneira a sua narrativa se articula com a tradição de filmes sobre populações indígenas do cinema brasileiro?
Eu acredito que “O Contato” é um filme único, onde toda a problemática de uma região, e das populações indígenas em geral, é revelada através de um olhar intimista na cotidianidade, de histórias aparentemente singelas, mas que indaga temas urgentes para essas populações. Fiz um filme onde a nossa presença – a da equipa e minha como realizador – fosse invisível ante uma realidade complexa. Agradeço aos protagonistas do filme, essas pessoas que abriram as suas vidas, os seus corações e as suas memórias para escreverem a narrativa de “O Contato”.

