Teve prémio para um filme de língua portuguesa – o troféu Pardino d’Argento – na luta pelo troféu Pardo di Domani de Locarno, dadoo a uma curta-metragem brasileira – e das mais possantes – feita numa ponte aérea com a Alemanha: “Du Bist So Wundebar”, de Paulo Menezes e Leandro Goddinho. Rodado sob a marca da produtora CinemaPósGênero, esta agridoce dramédia ambientada em Berlim veste-se numa atuação faiscante de Murilo Basso no que pode se definir como um filme on the road pela capital germânica. Ora ele é um bike movie, ora é subway movie. O meio de transporte varia, mas a energia na realização nunca cessa. Na sua trama, um animador vindo de terras do Brasil vai lutar pela sobrevivência em solo berlinense, trabalhando como entregador ou limpando uma boate sadomasquista. Mas o seu principal desafio é encontrar um apartamento para morar, em meio a todo o preconceito que encara. Na entrevista a seguir, Goddinho explica ao C7nema a génese pessoal de um filme que arrebatou a láurea no encerramento do 76. Festival de Locarno.
Edu passa por um circuito árduo de xenofobias e de indelicadezas ao buscar um lugar para si. O quanto esses “trabalhos de Hércules” desempenhados pela personagem, na sua jornada do herói, traduzem as hostilidades da Europa de hoje em relação aos imigrantes? Que pesquisa fez para chegar a tais hostilidades?
A pesquisa para o filme foi a nossa vivência como imigrantes Queer morando na Alemanha. Absolutamente tudo que é visto no filme aconteceu comigo, com o Paulo (que é meu codiretor) ou com amigos brasileiros que vivem em Berlim, mesmo que algumas cenas pareçam absurdas. Eu nasci em Aracaju, em Sergipe, e me mudei para São Paulo já adulto, para estudar cinema e teatro, porque naquela época não existiam muitas oportunidades artísticas na minha cidade. Em 2015, ganhei uma bolsa alemã para pesquisar um roteiro que venho desenvolvendo, que é uma versão longa da minha curta-metragem “Piscina”. Passei a vida em processos migratórios, com a constante sensação de não pertencimento. Migração e questões LGBTQ+ são parte central de todos os meus projetos. Para além da migração para outra cidade ou país, nos oito anos vivendo em Berlim, morei em 21 apartamentos. Cheguei a um ponto em que tive que reduzir a minha vida inteira a uma mala de roupas, porque não aguentava mais me mudar e carregar coisas. Achar um lugar para morar em Berlim já é um processo hercúleo. Para um imigrante, gay, não branco, artista e freelancer é um verdadeiro pesadelo. Os processos de seleção para alugar uma casa ou dividir apartamento na Alemanha são exatamente como os mostrados no filme. Talvez o público brasileiro ache essas “audições” (que o filme retrata) um pouco absurdas, mas é assim que funciona de facto. Os alugueres têm aumentado bastante nos últimos anos em Berlim, e, obviamente, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. O filme foi feito para mostrar que o glamour é zero. Os brasileiros olham a Europa como um paraíso, mas a realidade do imigrante é bastante diferente. Fizemos questão de mostrar o lado horroroso da cidade e das pessoas, especialmente daquelas que se consideram progressistas, mas cometem pequenas agressões cotidianas sem perceberem, do alto dos seus lugares de poder. Os muros culturais erguidos pela cultura alemã são gigantes, e a xenofobia é parte do nosso cotidiano. Então, não existiu uma pesquisa formal para chegar aos absurdos que vemos no filme. Eles são todos reais e muito comuns na Europa e principalmente na Alemanha. A reação do público em Locarno foi essencial para o entendimento do filme, porque não saberíamos como o público europeu ia reagir ao se ver no espelho. E é, sem dúvida, desconfortável.
O que Edu simboliza acerca do projeto brasileiro de reconstrução de vida em solo estrangeiro? Como se dá a dimensão de “artista” que ele carrega e o rotula?
Eu comecei a pensar em sair do Brasil em 2013, quando aquelas manifestações contra o aumento da tarifa de ónibus começaram a ser desviadas para o início de um golpe, que se configurou em 2016. Amo o Brasil, e SP é a minha cidade do coração. De alguma forma, continuo vivendo entre Berlim, Aracaju e São Paulo, com projetos nas três cidades. Mas vendo o caminho nebuloso que estava se configurando no Brasil, especialmente para a comunidade LGBTQIA+, com um monstro ganhando poder, resolvi candidatar-me para uma bolsa da Humboldt Foundation, em 2014, para pesquisar a perseguição nazi aos homossexuais. Foi a pesquisa para escrever a curta “Piscina”. Em 2015, mudei-me para cá, para a Alemanha. Não sei se o Edu representa esse modelo brasileiro de reconstrução de vida em solo estrangeiro que você cita, porque o Edu não faz parte do status quo, e acredito que existam mil razões diferentes para migrações. Dentro da comunidade LGBTQIA+, a migração é um tema central, já que boa parte dessa comunidade se refugia em centros urbanos para viver com menos dor suas identidades e sexualidades. Assim como muitos gays americanos migram para Nova Iorque, no Brasil muitos vão para o Rio e SP, e o mesmo acontece aqui na Alemanha. Ser gay numa cidade pequena alemã pode ser tão opressor quanto ser gay em Aracaju. Acredito que a personagem do nosso filme está mais dentro desse espectro de migração. Ele é um artista pobre, que trabalha na Amazon para pagar as contas. A dimensão de artista dele é ser artista quando dá, para não passar fome e manter o visto em dia.

Como se equaciona a produção do filme em relação à sua porção alemã e à sua porção brasileira?
O filme foi feito com 2.500 Euros que ganhamos de um fundo queer. É um fundo chamado Queer Scope. É um valor absurdamente pequeno para fazer uma curta, então acabei colocando dinheiro do meu bolso, que não foi muito. A porção de produção que cabe ao Brasil é afetiva, já que somos dois diretores brasileiros, nordestinos, vivendo em Berlim, e a personagem principal é inspirada nas nossas vidas. Mas não houve nenhum incentivo financeiro por parte do Brasil e o filme foi inteiramente filmado em Berlim, em português, inglês e alemão.

