Toni Servillo: “nunca fui um ator do mercado. Nunca fiz um filme como um mercenário.”

“La stranezza” (A Estranha Comédia de Vida) chegou às salas de cinema a 4 de maio

(Fotos: Divulgação)

Em novembro passado, durante a 40.ª edição do Festival de Turim (TFF), o cineasta italiano Paolo Sorrentino –  que deu uma masterclass focada nos diálogos e monólogos dos seus filmes – afirmou perante o público que é alguém muito “terra-a-terra” e que a intelectualização das cenas das suas obras partia principalmente de Toni Servillo, um ator que tem acompanhado, desde a sua primeira longa-metragem, o seu percurso no cinema: “É o Toni que me explica tudo o que está a acontecer“, disse Sorrentino por entre risos: “Ele é um tremendo intelectual que especula sobre as cenas. Eu escrevo para me divertir, mas ele, felizmente, dá inúmeros significados às coisas. Depois pego no que ele disse e reutilizo nas minhas conferências de imprensa.”

Cinco meses depois, de visita a Lisboa por ocasião da 16ª Festa do Cinema Italiano, confrontámos o famoso ator italiano com essas palavras do realizador. De óculos escuros e charuto na mão, o famoso Jep Gambardella de “A Grande Beleza” não confirmou ao C7nema as palavras do amigo Sorrentino, embora o sorriso que lançou logo após a nossa questão quase que confirmava a afirmação do realizador. “Foi ele que o disse, não fui eu”, disse Servillo entre risos, antes de explicar como funciona a sua colaboração com o cineasta: “Uma das maiores qualidades do Sorrentino, com quem trabalho desde o ‘L’uomo in più’ (2001), é a sua enorme capacidade na escrita dos diálogos. É impossível não ficar impressionado por esta sua qualidade; a beleza das personagens e dos diálogos que cria. Além disso, ao longo dos tempos, ele foi se transformando num criador de imagens muito belas. Foi isso que despertou o interesse do mundo nele. A nossa amizade permite-me ter acesso aos seus textos com muita antecedência. Ele ouve a minha opinião nessa fase e depois durante a montagem. E leio ainda muitos escritos que nem fazem parte do filme. Isso criou em mim um afeto e uma estima muito grande em relação a ele”.

Seja como Titta Di Girolamo em “As Consequências do Amor”, Giulio Andreotti em “Il Divo”, Jep Gambardella em “A Grande Beleza” ou Silvio Berlusconi em “Loro”, as personagens que Servillo interpreta no cinema de Sorrentino sentem-se sempre “bigger than life”, ou seja, ainda maiores que os filmes que as carregam. Sobre isso, o ator nascido em Afragola há 64 anos responsabiliza totalmente a escrita de Sorrentino, deixando para ele todo o mérito: “Encontro a força das personagens totalmente na escrita. Não acredito numa grande interpretação sem existir um grande filme por trás.”

E é no roteiro e na sua força que vêm as escolhas do ator em relação aos filmes que atua: “A primeira razão porque aceito participar nos filmes está ligada à qualidade do guião. Fundamento-me na originalidade, mas uma originalidade que não seja estéril. Ou seja, não escolho papéis extravagantes pela sua extravagância, nem obras que metam ao centro uma dimensão autoral autorreferencial, mas que criem uma hipótese de diálogo com o público, mesmo que estejamos num filme profundamente de autor. O cinema para mim é uma arte popular.(…) O guião é assim o ponto de partida. Depois disso, sempre trabalhei com realizadores com quem tenho um extenso horizonte humano e intelectual. Em poucas palavras, posso dizer que nunca fui um ator do mercado. Nunca fiz um filme como um mercenário.

Além de ver exibido na Festa do Cinema Italiano o primeiro filme de Sorrentino, e de marcar presença no Teatro Nacional D. Maria II na peça de teatro “As Vozes de Dante”, Servillo participou ainda na antestreia nacional do novo filme de Roberto Andò, “La stranezza(A Estranha Comédia de Vida), onde interpreta o papel de Luigi Pirandello, um dos mais notáveis dramaturgos do século XX. “Como homem do teatro, a possibilidade de dar vida no cinema a Pirandello entusiasmou-me particularmente”, disse Servillo, que repetiu assim a colaboração com Andó, depois de em 2013 e 2016 terem trabalhado, respetivamente, em “Viva la libertà” (Viva a Liberdade) e Le confessioni” (Políticos Não Se Confessam).

No filme, a braços com uma crise criativa e numa viagem à Sicília, Pirandello encontra em Sebastiano e Onofrio, dois cangalheiros sicilianos (interpretados pelo duo cómico Salvatore Ficarra e Valentino Picone), a inspiração para ultrapassar o seu bloqueio criativo. “Há muitos anos prometi fazer um filme juntamente com o Ficarra e o Picone”, disse Roberto Andó em entrevista. “Durante a pandemia, percebemos que havia chegado a hora de cumprir essa promessa. Então, quando tive que dar um rosto a Pirandello, foi natural envolver o Toni Servilllo, com quem já havia trabalhado em dois filmes. Nasceu assim um trio surpreendentemente unido e uma harmonia única respirou no set”.

Os novos tempos da atuação…

Com uma carreira forte no teatro e no cinema, Toni Servillo olha para os tempos atuais com alguma preocupação, especialmente quando lhe falamos que há cada vez uma maior preocupação por parte dos produtores em contratar “atores” pelo número de seguidores que têm nas redes sociais e não pelas suas qualidades na interpretação. E embora reconheça que essa nova realidade não o afetou diretamente, o italiano mostrou-se verdadeiramente agastado com esta nova realidade: “Nada disso afetou a minha carreira, pois não me formei como ator nestas circunstâncias. Venho do teatro e continuo a fazer teatro. Faço cinema porque os realizadores reconhecem em mim uma disciplina muito forte que adquiri no teatro. Mas vejo com preocupação o facto de os atores serem escolhidos pela popularidade e não pela qualidade. Nesta geração existe maior preocupação com a quantidade que a qualidade, além de estarmos numa fase onde se compra tudo e vende, e compra-se novamente… O meu trabalho principal continua a ser o teatro. Adoro fazer cinema quando posso viver com um realizador uma forte aventura intelectual e humana, a qual se reflete derradeiramente no filme. Nunca fiz uma série de TV. Na verdade, fiz apenas “uma” com um dos maiores realizadores italianos: o Marco Bellocchio. Mas a realidade é que esse projeto, “Esterno Notte”, é apenas um filme enorme que a televisão italiana decidiu transmitir num formato episódico. Mas o “Esterno Notte” foi exibido no Festival de Cannes como um filme.”

Reconhecendo que o cinema “vai sobreviver”, nesta era do streaming e de entretenimento em todo o lado, com “enormes dificuldades”, Servillo mostra-se abatido com os resultados das salas de cinema no seu país. “São deprimentes os números”, diz-nos, lamentando que os valores conseguidos logo após a reabertura das salas no pós pandemia, que coincidiram com o outono e o natal, não tenham continuado. “Os filmes que fazem principalmente dinheiro nas salas são profundamente comerciais. As pessoas já estão acostumadas a ver tudo em casa.”

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