Eletrizar é uma “Propriedade” natural do cinema brasileiro

Nos últimos anos, tem havido uma demanda forte por este filme de género – um suspense tensíssimo, mesclado com elementos políticos de narrativas sociais – que vem do estado de Pernambuco, a terra natal de cineastas aclamados como Kleber Mendonça Filho, Natara Ney, Gabriel Mascaro e Claudio Assis.

Com a chegada aos cinemas nacionais a 1 de maio, e sob o domínio pleno dos códigos do suspense, o realizador de “Amigos de Risco” (2007) conquistou o troféu Redentor de Melhor Montagem no Festival do Rio e de Melhor Realização no Fest Aruanda, na Paraíba, além de outras láureas, pelo seu virtuosismo. A trama acompanha o cerco a uma artista de classe social abastada, acossada por uma multidão de pessoas que tiveram os seus empregos reduzidos a pó. E isso num contingente rural. Malu Galli esbanja potência trágica no papel de uma designer de moda traumatizada por uma situação em que foi refém. Na luta contra os fantasmas do passado, ela se vê em frente a um novo perigo quando os trabalhadores da fazenda do seu marido (um tipo sexista e agiota) fazem um motim em prol dos seus direitos trabalhistas, mantendo-a recolhida num carro blindado. Na entrevista a seguir, Daniel Bandeira comenta com o C7nema o êxito da longa-metragem, que começou o seu percurso internacional no Festival de Berlim.

Como tem sido a receção europeia ao teu “Propriedade”, no Panorama, e de que maneira a passagem do filme por Berlim te abre novas leituras sobre a narrativa?

Até o momento, percebo reações muito semelhantes do público brasileiro e do estrangeiro. O desconcerto, o ultraje, a surpresa… “Propriedade” usa a linguagem do thriller como uma forma de discutir a lógica escravista e a incomunicabilidade entre as classes no Brasil de hoje. Mas essas também são feridas globais – e históricas. Cada país vem lidando com o aumento da desigualdade social e com as consequências de dívidas históricas cada dia mais insustentáveis. Nesse sentido, creio que “Propriedade” dê forma a essa ansiedade, a esse abismo crescente que já engoliu tantos e que, agora, aproxima-se dos nossos pés.

Qual é o Brasil que consta daquela narrativa e o quanto esse Brasil pode mudar com Lula de volta ao Poder?

O Brasil de “Propriedade” é o Brasil de sempre: esclavagista na sua estrutura, mas cordial na sua superfície. A noção perversa de que somos parte de um “Grande Povo” apaga as particularidades sociais e históricas das camadas populares (sempre elas), o que leva ao apagamento gradual de segmentos da população. Massacres rotineiros em comunidades populares fazem parte dessa ideologia, bem como o desastre humanitário dos Ianomamis, só para citar alguns exemplos. A eleição de Lula sinaliza um freio diante do abismo. Simboliza uma possibilidade de recalcularmos a nossa rota de volta à civilização antes de o carro voltar a andar. A viagem é longa e tomará gerações para chegarmos à fronteira do aceitável, mas, a manutenção dos direitos das minorias sociais não deixa de ser uma brisa para quem respirou chorume por seis anos.

O que a Malu Galli trouxe de mais potente para o processo de criação do filme?

Desde o início, procuramos por uma atriz que já tivesse um apelo popular e uma empatia imediata com o público. Sempre senti isso em Malu, nos seus trabalhos para a TV e para o cinema, mas ela trouxe TÃO mais que isso ao “Propriedade”. A sua compreensão da cena e da sua própria imagem, a sua sensibilidade às desigualdades que abordamos e à sua própria posição na sociedade – tudo isso convergiu num jogo muito franco de busca pela sua personagem, facilitado pelo nosso preparador, Fábio Leal, especialmente considerando o minimalismo imposto pelo confinamento da sua personagem. A sua Teresa tem sido recebida de várias maneiras, mas o reconhecimento do trabalho de Malu tem sido unânime. Malu agrega ao roteiro e joga bem com os seus colegas de elenco. Tenho muito orgulho do destemor que ela trouxe ao nosso encontro, sempre com gentileza.

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