Adaptando o romance de 2022 de Jérôme Ferrari, Thierry de Peretti chega aos cinemas portugueses a 24 de abril com “À sua Imagem” (À son image), filme estreado na Quinzena de Cineastas do Festival de Cannes e que serve como uma oração fúnebre em memória de Antonia (Clara-Maria Laredo), ex-fotógrafa de guerra, falecida aos 38 anos numa estrada da Córsega.
Partindo da narração do seu namorado, Simon (Marc-Antonu Mozziconacci), onde as questões pessoais da vida da fotógrafa se misturam com a tensa luta armada e política que se instalou na ilha na década de 1980 e 1990, Peretti explicou ao C7nema a origem do projeto e algumas decisões artísticas que tomou na adaptação do livro de Jérôme Ferrari ao cinema.
O que o atraiu neste projeto?
Foram muitas as coisas que me levaram a fazer este filme. Primeiro, a leitura do livro onde ele se inspira e as múltiplas sensações que me provocou. Claro que primeiro veio o grande desejo de levar esta história ao grande ecrã, mas isso nunca é suficiente. Quando decido fazer um filme, sei que vou ter de lidar com ele durante três anos, pois tenho de ter a certeza que a história é suficientemente complexa, profunda e misteriosa. E comunico-me com o livro durante esse tempo. Neste caso, era realmente uma obra muito rica, profunda e ambígua e há anos que estudava a personagem da Antonia, uma jovem e o seu ponto de vista, não apenas político, mas o seu imaginário em relação à Córsega, onde nasci. Era uma personagem muito moderna que teria de transformar cinematograficamente, não a deixando apenas como está descrita na literatura.
E qual o maior desafio que encontrou nessa adaptação do livro ao filme?
O maior desafio foi fazer um melodrama político. O melodrama e o thriller político são dois géneros bem diferentes. Era essa a nossa direção. Nós temos de chorar por e com ela, de forma suave, e precisamos olhar para ela de forma diferente, não apenas para as questões históricas, mas para a sua família, amigos e tempos em que viveu.
O Thierry nasceu na Córsega. Esse facto transformou este projeto em algo mais pessoal?

Isto é uma novela literária e é totalmente ficção. Os meus primeiros três filmes são baseados em personagens e eventos reais. Chamamos sempre uma personagem ficcional da literatura, mas temos a história real para olhar também. Eu vivi esses tempos como criança, adolescente e jovem adulto. Por isso mesmo, este filme apela ao que me lembro desse período. Como eram os anos 80 e 90 politicamente e onde estava eu? Estava assustado com toda a turbulência política? Fazer um filme em 2023 sobre os anos 80 não é imediatamente um mostrar do que aconteceu, mas antes colocar questões. É dizer: “é isto que acho que aconteceu”.
E como vê a luta independentista da Córsega?
A luta da Córsega era pela emancipação dos seus direitos históricos. Era uma luta justa, mas os meios usados não. Não foi só na Córsega que isso aconteceu e vimos isso em Espanha, Irlanda e Argélia. Era uma questão que atingia as nações europeias. Havia uma união de tragédias. Sentimos na pele o peso da violência política. Mas será que essa violência é a saída? É uma questão que deixo. Não tenho respostas. (,,,) Mas quero a paz. A paz é algo que se consegue não porque sim, mas porque politicamente existe uma resolução política. O objetivo máximo deve ser a paz, senão as atrocidades vingam. (…) Olhemos para o que se passa na Nova Caledónia, com motins em todo o lado.
Em França, a situação da Córsega sempre foi problemática, mas agora os nacionalistas estão na luta política e na Assembleia, eleitos pelo povo num regime de autonomia. Mas só há um ano o governo francês aceitou falar com eles, isto depois de há dois anos ter ressurgido a violência. Um pouco como na Catalunha. Temos sempre de ouvir as pessoas.
Porque escolheu um homem para narrar o filme e não a própria Antonia?
Os meus filmes anteriores têm tido muitas palavras e diálogos. Desta vez queria algo mais silencioso, com menos diálogos. Porém, precisava de uma ferramenta para contar a história, mantendo uma conexão com a obra literária. Durante a escrita do guião, tentámos fazê-lo com a voz da Antonia. E até pensámos no “Millenium Mambo” nesse processo, mas aqui não resultava. Decidimos então usar a voz do Simon, o homem que a amava e a conheceu até à sua morte. De certa maneira, ele é o seu biógrafo.






