Arranca hoje, 3 de julho, o Festival de Cinema de Karlovy Vary, certame que comemora este ano 60 edições, espalhadas por 80 anos de história.
Esse 60/80 advém de um percurso marcado por interrupções e decisões políticas, pois, apesar de ter sido fundado em 1946, primeiro entre Mariánské Lázně e Karlovy Vary, o festival teve alguns anos sem ocorrer. A partir de 1959, passou a alternar com Moscovo, numa lógica do bloco socialista que não queria dois grandes festivais internacionais de categoria “A” a competir anualmente. Depois da queda do regime comunista, Karlovy Vary atravessou uma fase de instabilidade, antes de se reorganizar nos anos 90 e recuperar a regularidade anual.
A sua retrospetiva Out of the Past – KVIFF 60/80, centrada nos filmes que marcaram as suas 60 edições, espelha o olhar para a história do certame, que hoje até exibe numa sessão pública Children of Hiroshima, um filme de 1952 que testemunha os sobreviventes à bomba atómica e as sequelas físicas e psicológicas do conflito. Vencedor do Prémio da Paz em Karlovy Vary em 1954, o filme inscreve-se naturalmente na história de um festival atravessado pela Guerra Fria, pela diplomacia cultural e pela disputa simbólica das imagens.

Também com uma grande camada histórica em cima, Karlovy Vary escolheu para a sua “partida” oficial um dos jogos de futebol mais dramáticos de sempre, o Argentina – Inglaterra do Mundial do México de 1986, o tal da “mão de Deus” de Maradona. The Match explora esse jogo para falar de uma rivalidade antiga e histórica entre as duas nações, indo bem atrás para falar da “Mão de Byron”, o lorde que chega às Malvinas e inicia a primeira invasão inglesa a uma ilha que os britânicos nomeiam de Falkland. A partir daí, e percorrendo quezílias e rivalidades que naturalmente também atravessaram o futebol, de 1966 a 1986, a dupla de realizadores tenta fazer-nos compreender como aqueles noventa minutos no Estádio Azteca condensam décadas de tensão entre os dois países, ainda mais inflamadas por o jogo decorrer poucos anos depois da Guerra das Malvinas (1982).
Antes da exibição deste filme, a cerimónia de abertura arranca às 18h, com atuações musicais e as presenças esperadas de Jesse Eisenberg, Harvey Keitel, Maggie Gyllenhaal e Dustin Hoffman. Estes dois últimos vão receber, respetivamente, o Prémio do Presidente e o Globo de Cristal pelo Contributo Artístico Excecional para o Cinema Mundial.
História também não falta em múltiplos filmes hoje em exibição, como o último projeto de Lucrecia Martel, Nuestra Tierra — também conhecido como Chocobar ou Landmarks. O filme parte do assassinato, em 2009, do líder indígena Javier Chocobar, em Chuschagasta, Tucumán, para construir o seu primeiro documentário como uma investigação híbrida sobre racismo, expropriação e violência histórica contra os povos nativos da Argentina.
Filmes que deram que falar noutros festivais de cinema este ano — como Dao, Yellow Letters, El Ser Querido e os exercícios de cinema fantástico Nightborn e Teenage Sex and Death at Camp Miasma — marcam ainda o dia do arranque.
O Festival de Karlovy Vary prossegue até 11 de julho.

