Beco sem saída: liberdade sufocante

(Fotos: Divulgação)

Era para ter sido o primeiro trabalho na realização de Dustin Hoffman, mas uma experiência desastrosa de pré-produção na prisão estatal de Folsom acabou por empurrar Ulu Grosbard para a cadeira de realizador.

 

Filmado em 1978 e ali escondido algures na carreira de Hoffman entre A Primeira Noite e Negócio de Familia, Beco Sem Saída (Straight Time) é uma daquelas pérolas que (re)vistas assim pela distância do tempo colocam a nu um modo de produção que deixa bem espelhada uma paixão pelo cinema capaz de envergonhar o mais engravatado dos executivos dos nossos dias.

Produzido pela First Artists, uma produtora fundada por Hoffman, Steve McQueen, Sidney Poitier, Paul Newman, e Barbara Streisand, com o propósito de financiar os seu projetos pessoais, reúne Dustin Hoffman, Harry Dean Stanton e Gary Busey nos papeis principais de uma história coroada com o mais espinhoso dos passados: Max Dembo (Hoffman), um ex-presidiário acabado de sair em liberdade, é confrontado com um esforço que lhe parece absurdo, um esforço que lhe é constantemente exigido pelo agente responsável pela sua liberdade condicional, um personagem que chama para si o que há de mais burocrático e áspero nesse processo de reencontro com a vida em sociedade. E apesar de se ambientar no universo dos mais vertiginoso dos thrillers (Michael Mann chegou a estar associado ao projeto), é também um filme com o sabor amargo de uma grande solidão.

Logo a começar pelo plano de abertura, aquele em que se vê Max Dembo a atravessar os portões da prisão, rumo ao cerco de uma liberdade asfixiante e sem grande futuro. Los Angeles, essa cidade dos sonhos, torna-se antes um palco desse lento desmoronar de uma aparência de normalidade e conformidade. É no fundo Hoffman em grande forma, a trazer para primeiro pano aquela figura de um anti-herói acossado pelos seus próprios demónios, com queda para os ângulos mais cortantes do mundo, mas apesar de tudo abençoado o suficiente para se conseguir cruzar com cúmplices capazes de olhá-lo olhos nos olhos, pele com pele. Não será por acaso que a sua única ligação ao quotidiano mais imediato ocorra sob o signo daquela estranha paixão que cruza a ternura com o grande amor. Magnífica Theresa Russell, a dar corpo a uma pequena luz que amparo à vida de Max Dembo, ela própria uma presença com um tumulto muito silencioso e contido. Mas isso não chega, e é também essa uma marcas da tragédia de “Beco Sem Saída”.

Meio esquecido, vale a pena ser recordado: os irmãos Safdie viram aqui um thriller frenético e “incendiário”, e para provar que levam daqui algumas lições para o seu Uncut Gems – Diamante em Bruto, que acaba de ser lançado na Netflix, não será preciso ir muito mais longe que a lendária sequência de assalto a uma joalharia, a que junta Stanton e Hoffman numa golpada que promete riqueza, mas que termina no desgosto da desolação.


José Raposo

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