The Turning: terror familiar oferece poucos calafrios

(Fotos: Divulgação)

Adaptação moderna de um clássico do século XIX, “Calafrio” não consegue ser mais que um entretenimento imediato demasiado familiar

Enésima adaptação da novela gótica The Turn of the Screw do final do século XIX, Calafrio é uma “atualização” moderna da história de uma ama que é contratada para cuidar de duas crianças numa mansão onde começam a acontecer estranhos eventos e aparições que põem em causa a sua sanidade mental.

Uma das adaptações mais conhecidas é The Innocents (Os Inocentes, 1961), a qual detinha – tal como este – uma das maiores forças do trabalho original: a ambiguidade, a dúvida sobre os eventos e o que vemos, tudo num jogo entre o sobrenatural e o real, que chegou mesmo há um século a servir de marco fundamental para os estudos académicos da Neocrítica.

O objeto literário que serviu também de inspiração a filmes de culto como Os Outros é aqui lavado com vedetas pop, que retiram o seu sentido mais clássico e tradicional, e atribuem uma nova plasticidade visual e presencial onde é impossível escapar ao seu historial como atores. É impossível não olharmos para Mackenzie Davis e não nos lembrarmos de Blade Runner 2049 e o último Exterminador Implacável, ou para Finn Wolfhard e não pensar em Stranger Things, ou ainda na pequena Brooklynn Prince e não a associarmos a Florida Project. Todos estes elementos do casting são boas jogadas de marketing, e o resultado nas atuações não é mau de todo, mas funcionam igualmente como uma distração para uma história que retirando-os de cena não acrescenta nada às incursões anteriores, nem na avaliação das marcas traumáticas na infância, nem na exposição do horror.

A responsabilidade disso – para além do argumento – está também na cineasta Floria Sigismondi, ela mesmo especialista em videoclipes e que filmou há uns anos o drama rock The Runaways. Aqui incrusta os sons de rock mais pesado como elementos de potencial terror (guitarra elétrica, bateria), mas essencialmente, mais que um trabalho de cariz psicológico, o filme vai se sustentado em sustos avulsos e imediatos, a maioria dos quais através da elevação do volume para produzir um sobressalto imediato no espectador incauto. Além deste lugar comum do terror sensorial, Calafrio está minado de outros clichês, como portas a ranger, bonecas e manequins bizarros, reflexos nos espelhos, tragédias passadas e sonhos aterrorizantes que servem como prenúncio de traumas.

No meio disto tudo, e embora também ela seja um cliché, funciona melhor a forma como a governanta Joely Kim Richardson navega pelo grande ecrã, produzindo ela sim algumas doses de mistério numa produção repetitiva que apenas serve como um medíocre entretenimento imediato.


Jorge Pereira

Últimas