Bombshell – O Escândalo: a realidade e o seu duplo

(Fotos: Divulgação)

Bombshell – O Escândalo é um filme desconcertante, e tem como pano de fundo o caso que enterrou no lodo mais profundo e miserável a reputação daquela que foi uma das figuras mais importantes da paisagem política do nosso tempo.

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Roger Ailes, cofundador do canal Fox News, que nunca terá sido uma pessoa propriamente respeitada pelo seu mérito enquanto jornalista, passou décadas a exigir sexo a mulheres, oferecendo-lhes como moeda de troca um lugar de destaque no tempo de antena da estação. É, como é fácil de perceber, um jogo mais antigo que as ruínas da Babilónia, mas não é isso que o torna desconcertante.

A dramatização trazida ao grande ecrã por Jay Roach (“A Campanha”, “Trumbo”) produz uma série de choques sobre o real de uma intensidade tão impressionante, que a dada altura se fica com a sensação de ter havido uma espécie violação de contrato entre “realidade” e ficção”. Desnorteados, entramos neste novo paradigma como um pária a atravessar um deserto sem fim, incapazes de distinguir entre a máquina do cinema e o pó do real. A principal razão desse desconforto, chamemos-lhe assim, prende-se com a sofisticação técnica a que chegaram as próteses utilizadas na caracterização, desenvolvidas por Kazuhiro Tsuji (já oscarizado pelo seu trabalho em “A Hora Mais Negra”, com Gary Oldman no papel principal), e que transformam Charlize Theron (Megyn Kelly), Nicole Kidman (Gretchen Carlson), e John Lithgow (Roger Ailes) numa variante muito moderna, mas não menos assustadora, do monstro de Frankenstein.

É verdade que tudo isto tem um nome já antigo, mas que nos chega até aos dias de hoje com uma relevância acutilante: a hiperrealidade de que Jean Baudrillard nos falava, tornou-se numa lente de leitura de um mundo cada vez mais opaco, uma chave de descodificação para uma realidade (uma politica, uma cultura – e por aí fora) cada vez mais enleante. E é também provável que hajam várias datas para o anunciado colapso entre realidade e ficção proposto pelo autor de “O Sistema dos Objetos”, mas há uma particularmente óbvia e que tem vindo a ganhar cada vez mais força: 8 de novembro de 2016, a data da eleição de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos da América. Esse Trump, uma das figuras de proa dessa rasura da realidade mais factual e a uma das maiores criações do império mediático erguido por Ailes, o mesmo que aparece aqui como uma presença feita de pura imagem.

E é assim que aquelas próteses que transformam Megyn em Charlize e Charlize em Megyn – e assim sucessivamente – acabam por ganhar um novo relevo e fazem disparar os alarmes. Jornalistas com contrato num canal responsável pela degradação do jornalismo e pela submissão da esfera da informação à logica do entretenimento, têm aqui um filme feito à medida das sensibilidades contemporâneas. A “fusão” de Megyn com Charlize é o equivalente cinematográfico desse choque frontal pensado por Baudrillard, um “acidente” do qual não conseguimos desviar o olhar durante todo o filme.

Nos escombros de todo este espetáculo há ainda outra história– ou poderia haver, se Jay Roach tivesse tido mão para isso. Margot Robbie e Kate McKinnon dão corpo a duas jornalistas com um papel determinante na narrativa, mas que não correspondem a pessoas reais. Personagens “compósitas”, reúnem facetas diferentes das várias pressões a que as mulheres são sujeitas no local de trabalho. O arco de redenção da personagem de Margot Robbie é aquele que está mais alinhado com o propósito do filme, mas é aqui McKinnon quem acaba por trazer a lume outro tipo de questões: como é que é possível ser-se profissional num local de trabalho com valores diametralmente opostos àqueles vividos na vida privada?

Já não há volta a dar: é tudo desconcertante, muito desconcertante.


José Raposo

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